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José Paulo Kupfer

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Turbulência causada por Bolsonaro corta previsões de crescimento e emprego

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José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

16/08/2021 17h27

A escalada das tensões políticas, alimentadas pelo presidente Jair Bolsonaro, está afetando, negativamente, o comportamento da economia. A atividade econômica dá sinais de retração diante de uma espiral de confrontos entre o Executivo e o Judiciário.

Turbulências institucionais, provocadas pelos ataques de Bolsonaro a ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), com reação forte dos atingidos, principalmente os ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, combinam com pressões do presidente pela liberação de gastos públicos, de olho na campanha de reeleição em 2022, para inocular instabilidades na atividade econômica e nos ativos financeiros.

O Boletim Focus desta segunda-feira (16) confirma perspectivas mais deterioradas da conjuntura econômica para este ano e, principalmente, também para o ano eleitoral de 2022. A projeção de inflação para 2021 avançou de 6,88%, há uma semana, para 7,05%. O crescimento da economia recuou de 5,3% para 5,28%. Mais importante, a previsão de expansão da atividade econômica para 2022, que era de 2,1%, há um mês, agora está em 2,04%.

Projeções do Focus, uma publicação semanal organizada pelo Banco Central, que apura e reúne as estimativas de economistas de bancos, corretora e consultorias, mostram em câmera lenta a evolução das expectativas dos agentes para o desempenho da economia. A tendência observada indica que as previsões ainda não se estabilizaram e devem piorar.

Essa perspectiva de freio no ritmo da atividade econômica já está sendo detectada por analistas. Ainda que projeções apontem ligeira redução no nível de crescimento em 2021, não é com relação a este ano que se concentram as preocupações. Expansão em torno de 5%, repique cíclico ao forte mergulho de 2020, quando a economia recuou 4,1%, em relação a 2019, parece estar contratada.

A inflação, medida pelo IPCA, também está mais baixa no Focus do que nas planilhas de especialistas. Estes já consideram que a alta de preços alcançará pelo menos 7,5% no fim de 2021, depois de bater em 9,5%, neste mês de agosto.

É crescente, contudo, o grupo de especialistas que projeta crescimento em 2022 abaixo de 2%. Este nível seria, de acordo com as estimativas correntes, a margem máxima possível de expansão econômica sem promover inflação e, portanto, obrigar o Banco Central a adotar política de juros mais restritiva do crescimento.

A percepção de que as altas de preços não derivavam apenas de choques de oferta independentes e temporários, mas provocavam pressões inflacionárias disseminadas, fez o BC a subir os juros básicos da economia desde março e em ritmo forte. De lá para cá, já foram cinco altas, acumulando 3,25 pontos percentuais, que levaram a taxa Selic de 2% nominais ao ano para 5,25%. No Focus, a taxa básica projetada para o fim do ano, no momento, é de 7,5%, mas alguns analistas começam a estimar a Selic a 9% ao ano, na virada para 2022.

Mesmo com a decisão do BC de levar a taxa básica para terreno restritivo, acima do nível considerado neutro, persistem temores de que a inflação possa entrar numa espiral de altas. Isso se deve a desconfianças de que o governo Bolsonaro, pressionado pelo próprio presidente, tentará escapar dos controles fiscais para turbinar gastos públicos e impulsionar sua popularidade entre eleitores.

Caso prevaleça a impressão de que os riscos fiscais não serão contidos, é inevitável que a cotação do dólar ante o real se eleve e, com isso, a roda inflacionária ganhe novo impulso. Restaria ao BC reforçar as restrições com doses adicionais de elevação na taxa básica de juros. A política restritiva adotada em 2021 pegaria em cheio a atividade econômica em 2022.

Com instabilidades políticas e juros básicos em nível desestimulador da atividade econômica, a tendência é a de que a absorção da massa de desempregados se mostre frustrante em 2022. Até porque não se poderá contar com a expansão do comércio internacional e das cotações das commodities, como se viu em 2021, e a folga fiscal, com a inflação em alta, tende a ser insuficiente.

Revisões de cenário, nos departamentos de pesquisa econômica de bancos e nas consultorias financeiras, estão apostando em manutenção da taxa de desemprego, em fins deste ano e ao longo de 2022, nos mesmos níveis elevados em que se encontram no momento - em torno de 15% da força de trabalho, atingindo diretamente 15 milhões de trabalhadores e fazendo com que mais de 30 milhões, um terço do total, se conforme em trabalhar menos horas semanais do que poderiam e desejariam.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL