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José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

BC baixa bola do mercado e segura Selic de olho na economia mais fraca

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José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

22/09/2021 19h39

Ao elevar a taxa básica de juros (taxa Selic) em um ponto percentual, fixando-a em 6,25% nominais ao ano, nesta quarta-feira (22), em decisão unânime, o Comitê de Política Monetária (Copom), confirmou a leitura que os analistas fizeram do ajuste na comunicação do Banco Central, feita pelo presidente da instituição, Roberto Campos Neto, há uma semana. A então trajetória da taxa futura de juros indicava altas nas apostas numa alta da Selic de até 1,5 ponto, em setembro. O mercado considerava que seria necessário subir os juros básicos mais e mais rápido para trazer a inflação para a meta em 2022.

A aceleração prevista na alta da taxa básica, até a água fria lançada na fervura pelo presidente do BC, se sustentava numa declaração anterior do próprio Campos Neto. Ele vinha afirmando que faria "o que fosse necessário" para controlar as pressões inflacionárias e trazer a inflação para as metas estabelecidas. Mas, na terça-feira (14), o último dia antes do período de silêncio imposto aos diretores do BC às vésperas da reunião do Copom, avisou que isso não significava "que vai ter alterações no plano de voo a cada dado de alta frequência que sai".

Dados de "alta frequência" - ou seja, referentes a períodos de curtíssimo prazo - estavam sinalizando pressões inflacionárias ainda fortes. Tinham a ver com a crise hídrica e aumentos nas tarifas de energia, com cotações do petróleo no mercado internacional e incômodos na área fiscal com a dificuldade de acomodar o pagamento de precatórios em 2022 dentro das regras de controle. Tudo colaborando para puxar a cotação do dólar e alimentar a inflação.

Ao "orientar" o mercado a baixar a bola e ter um pouco mais de paciência com a marcha da Selic, esticando o prazo de acomodação da inflação aos limites fixados pelas metas, o Copom não apenas mirou conter a inflação, só que mais à frente no horizonte de tempo, talvez só em fins de 2022, e também procurou evitar que uma alta mais forte e rápida nos juros básicos derrubasse ainda mais a atividade econômica. É certo que a taxa Selic subirá para níveis contracionistas da atividade econômica.

O comunicado divulgado no encerramento da reunião do Copom reafirma que o colegiado considera que a atividade econômica "continua mostrando evolução positiva e não enseja mudança relevante para o cenário prospectivo, o qual contempla recuperação robusta do crescimento econômico ao longo do segundo semestre". Mas o fato é que as projeções para 2022 sofreram, no começo de setembro, fortíssima deterioração.

No começo deste ano, as previsões para a expansão econômica em 2022 estavam em 2,5%, mas nas últimas semanas já se encontram abaixo de 1%, convergindo para 0,5%. É improvável que essa trajetória descendente da atividade não tenha sido levada em conta na decisão. Até porque a inflação mostra altas persistentes e com tendências adversas - por exemplo, situação fiscal conturbada, no plano interno, e início da normalização das condições monetárias, combinada com incertezas sobre o desempenho econômico global, no plano externo.

A expectativa dos analistas é a de que o Copom siga seu "plano de voo" e promova, em cada uma das duas últimas reuniões do ano, em outubro e dezembro, elevações de um ponto percentual na taxa básica de juros. A Selic, assim, terminaria 2021 em 8,25%. Já no "plano de voo" dos analistas, haveria espaço para uma mais uma alta, em fevereiro de 2022, de 0,75 ponto ou de um ponto, com a taxa básica chegando a 9% ou 9,25% antes de estacionar por um período mais longo e recuar em 2023.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL