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José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Para tirar o corpo fora, Bolsonaro culpa 'fique em casa' até pela inflação

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José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

13/01/2022 04h00

Apesar de absurdo, o "argumento" do "fique em casa, a economia a gente vê depois" se transformou num "pau para toda obra" no permanente esforço do presidente Jair Bolsonaro para fugir de suas responsabilidades. A ideia, autêntica "fake news", tem sido usada como principal desculpa para tirar o corpo fora e dizer que a calamitosa situação da economia não é com ele. Mas não só.

Agora a conversa fiada do "fique em casa" também está sendo sacada para tirar o corpo fora da inflação pesada de 2021, que voou para 10,06% em 2021. A variação do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) fechou o ano passado com quase o dobro do teto do intervalo de tolerância do sistema de metas.

Nesta quarta-feira (12), em entrevista a um site bolsonarista, Bolsonaro voltou a recorrer ao "argumento" para pular fora da parte que cabe ao seu governo na escalada da inflação. "Com a política do fique em casa a cadeia produtiva sofreu solavancos e a inflação é uma questão natural", disse Bolsonaro, no seu linguajar arrevesado.

Está provado que, diferentemente da desculpa bolsonarista, os lockdowns e as medidas de distanciamento social adotados na primeira onda da pandemia reduziram os estragos promovidos pela covid-19 na economia. Onde, mundo afora, as medidas de isolamento foram mais duras e adotadas com rapidez, a recuperação da economia tem sido mais rápida e intensa.

Não foi o "fique em casa" que determinou paralisação de atividades, mas o avanço da pandemia. Tanto isso é verdade que mais uma prova está sendo oferecida pela realidade dos fatos neste exato momento. Em meio à rápida disseminação da variante ômicron, embora ainda não haja qualquer decretação de lockdown, distanciamentos e isolamentos, já há atividades suspensas ou com planos de reduzir horários de funcionamento porque massas de trabalhadores estão infectados. Repetindo: as atividades estão parando antes das determinações legais para que se fique em casa.

Bolsonaro e bolsonaristas nem se preocupam com as contradições do "argumento" - esse é o estilo já conhecido - até mesmo diante de declarações de figuras de relevo no governo. Se o "fique em casa" é o culpado para situação da economia, como então o ministro da Economia, Paulo Guedes, pode se jactar de que a atividade econômica registrou retomada em "V"?

Registros de mobilidade urbana comprovam que, na primeira onda de covid-19, em 2020, as pessoas já praticavam isolamento e distanciamento social antes da decretação, por governadores e prefeitos, de restrições aos deslocamentos. O que promoveu um movimento de "fique em casa" foi o temor generalizado de contágio causado pelo colapso dos sistemas de saúde e a consequente aceleração dos casos de mortes.

Outros registros também comprovam que, mesmo com a retirada das restrições, a população relutou em voltar à normalidade da mobilidade social enquanto internações e óbitos não refluíram de forma consistente. Isso só ocorreu com o avanço da vacinação, que evoluiu positivamente, até de modo surpreendente, mesmo com a autêntica sabotagem promovida pelo governo, sob inspiração e liderança de Bolsonaro.

Esse ponto da vacinação é inclusive destacado pelo Banco Central, na carta aberta divulgada nesta terça-feira (11), para justificar o estouro da meta de inflação em 2021. "No que diz respeito à atividade econômica, o ano de 2021 foi marcado pelo avanço da campanha de vacinação e o processo de normalização da atividade econômica iniciado ainda no segundo semestre de 2020", descreve o documento oficial.

Apesar do "fique em casa", para o BC houve "rápida recuperação econômica, fazendo com que o PIB (Produto Interno Bruto) chegasse no primeiro trimestre de 2021 em níveis semelhantes aos vigentes antes da eclosão da pandemia". Isso ocorreu, segundo o BC, em razão do "amplo leque de políticas governamentais adotadas". O "fique em casa" de Bolsonaro não entrou nas cogitações da autoridade monetária.

Quando a economia começou a perder força, a partir do segundo trimestre do ano passado, lockdowns e restrições já estavam começando a ser abandonados, tendo praticamente deixada de existir nos trimestres seguintes, no período em que a economia andou para trás. Ou seja, a atividade, impulsionada por transferências de recursos públicos a vulneráveis e empresas, definidos no Congresso, avançou durante o "fique em casa" e passou a ratear quando acabou o "fique em casa". A Terra não é plana e a realidade descarta o "fique em casa" como explicação razoável de que se passa na economia.

O mesmo se verifica no caso da inflação. Não é possível culpar o "fique em casa", exceto nos delírios bolsonaristas, por uma inflação potencializada, no Brasil, pela inação federal diante dos repasses automáticos de preços internacionais de petróleo, e altas nas tarifas de energia, por má gestão governamental de uma anunciada crise hídrica causada por problemas climáticos.

Também não dá para culpar o "fique em casa" pela falta de previsão, planejamento e medidas para evitar que condições favoráveis no mercado exterior deixassem o mercado interno desabastecido de alimentos. Não há outra explicação para o paradoxo de uma violenta inflação de alimentos num dos líderes mundiais na produção de comida.

Muito longe de um "fique em casa" está a pressão altista sobre as cotações do dólar, fator chave para a elevação de preços, causada, entre outros motivos, por insegurança transmitida pelo governo na administração dos gastos públicos e da dívida pública. Os calotes e pedaladas fiscais, em conjunto com quebras em regras de controle de gastos, promovidos pelo governo, que colaboraram para empurrar a taxa de câmbio ladeira acima e impulsionar a inflação, não tem nada a ver com o "fique em casa".

É evidente que justificar os problemas econômicos com a ideia do "fique em casa" não faz sentido algum. Só serve mesmo como "argumento" delirante para um governante que, por covardia, não assume suas responsabilidades.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL