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José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

PIB de Bolsonaro termina sem fôlego e deixa herança raquítica para 2023

02/03/2023 11h18

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A economia brasileira cresceu robustos 2,9% em 2022, resultado reforçado porque se deu em cima da elevada expansão de 5% em 2021. Este avanço, porém, não se deu em bases estruturais sólidas. Reflete medidas pontuais de estímulo à atividade econômica, limitadas pelos efeitos de taxas de juros altas por longo período.

Prova desse desempenho sem lastros seguros pode ser verificada pela perda de fôlego do crescimento, trimestre a trimestre, ao longo do ano. A economia começou com expansão de 1,3% no primeiro trimestre, em relação ao último de 2021, e foi perdendo ritmo, com alta de 0,9% no período abril-junho, 0,3%, entre julho e setembro e, finalmente, retração de 0,2%, no último quarto do ano.

Com o resultado de 2022, a média de crescimento nos quatro anos de governo de Jair Bolsonaro foi de 1,5%. É uma taxa que só não é a pior em quase 30 anos, desde o primeiro governo de FHC, porque supera a do breve segundo mandato de Dilma Rousseff, quando houve recessão. Nessa comparação, é preciso, porém, considerar os profundos e extensos impactos econômicos da pandemia de covid-19 em pelo menos metade do mandato de Bolsonaro.

Impulsos artificiais e represamento de gastos

Um misto de formação de bolhas de consumo com represamento de gastos públicos marcou a economia em 2022. De um lado, de olho nas pesquisas eleitorais desfavoráveis, o governo Bolsonaro injetou cerca de R$ 300 bilhões adicionais na economia. Liberou ou antecipou recursos para consumo das famílias, e promoveu desonerações de tributos.

De outro lado, segurou gastos públicos, mirando conter a marcha dos índices inflacionários. O salário mínimo continuou sem correção acima da inflação e foi mantido o congelamento da remuneração de servidores públicos. Além disso, Bolsonaro cortou recursos da saúde, da educação e da infraestrutura, adiando também pagamento de precatórios.

Sem força para 2023

Dessa barafunda na política econômica resultou uma evolução errática da atividade. A perda de ritmo da economia ao longo de 2022, notadamente no último trimestre, deixa impulso modesto para a expansão do PIB (Produto Interno Bruto) em 2023. Economistas estimam entre 0,2% e 0,5% a herança estatística transferida do ano passado para o ano presente. Depois da retração no último trimestre de 2022, previsões apontam novo recuo da atividade nos primeiros três meses deste ano.

O que faltaria para completar o 0,8% do crescimento previsto no momento para 2023 viria da atividade agropecuária e ainda um pouco dos serviços. As previsões para uma supersafra de grãos têm levado analistas a projetar crescimento do PIB neste ano um pouco acima de 1%. Também podem contribuir para alta maior no fim do ano o prometido aumento de gastos do governo, e, dependendo das condições internacionais, um reforço do setor externo.

Juros altos e endividamento foram freios

No geral, o setor de serviços respondeu por 80% do avanço da economia no ano passado. Fim das restrições impostas pela pandemia explica o crescimento registrado no ano passado.

Turismo, restaurantes, saúde e educação privadas, serviços em geral prestados às famílias e empresas, o segmento do setor de serviços mais afetado pelas limitações de mobilidade e contato social, no auge da pandemia, foram as atividades que mais empurraram o PIB para cima em 2023. No lado contrário, condições financeiras adversas, com taxas de juros em níveis altos por longo período, e elevados índices de endividamento das famílias, operaram como freios ao crescimento.