José Paulo Kupfer

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Opinião

Guerra dos juros entre Lula e Campos Neto acaba em pizza de 0,5 ponto

Surpresas em série na decisão do Copom (Comitê de Política Monetária), nesta quarta-feira. A começar pelo corte de 0,5 ponto na taxa básica de juros (taxa Selic), quando a aposta majoritária do mercado era de uma redução de 0,25 ponto. Foi a primeira redução em três anos, alterando a taxa de referência da economia, que se encontrava estacionada há um ano em 13,75% nominais.

O conjunto de surpresas continuou com o voto de desempate do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em favor de um corte mais forte, acompanhando outros quatro diretores do BC, com destaque para os novos dirigentes, indicados pelo governo Lula. O placar final foi de cinco votos pelo corte de 0,5 ponto e quatro, para a redução de 0,25 ponto.

Divergências e consensos no Copom

São raras decisões com divergência de votos no Copom. Desde o início do regime de metas de inflação, em 1999, quando os protocolos de comunicação do Copom foram estabelecidos, nem 15% das decisões tiveram votos divergentes. Mais recentemente, a última vez foi em setembro do ano passado, quando dois diretores votaram por uma alta de 0,25 ponto contra a decisão majoritária de manter a Selic inalterada.

Também surpreendeu a decisão de anunciar cortes de 0,5 ponto nas reuniões seguintes do Copom, ainda mais por unanimidade. Alguns estranharam o voto de dirigentes do BC, favorável a um corte de 0,25 ponto em agosto, e depois o consenso em relação ao ritmo mais acelerado de redução da Selic, nas decisões seguintes. Mas não há incoerência, apenas a consideração de que se deveria começar o ciclo mais devagar, e depois acelerar o ritmo dos cortes, talvez atendendo melhor à comunicação mais dura mantida pelo BC por um longo período.

Copom antecipa ritmo dos cortes

Anunciar cortes à frente, com o detalhe de informar o ritmo de redução, é outra novidade deste Copom de agosto. Se não ocorrerem fatos fora de alguma normalidade, está dado que os juros básicos serão cortados até 11,75% nominais, em 2023. A extensão do ciclo, porém, ainda é incerta.

Há quem esteja avaliando que o ritmo mais rápido nos cortes agora anunciado prenuncia um ciclo mais curto, que se encerraria no primeiro semestre de 2024, com a Selic nominal em 10,5%. Contudo, se a taxa básica recuar, ao longo de 2024, até 8% ou 9%, ainda assim o Copom estará cumprindo a promessa de manter a política de juros em campo contracionista — ou seja, acima de taxa de juros real considerada "neutra" pelo BC, aquela que não impulsiona, nem freia a inflação, de 4,5%, considerando a meta de 3% para a inflação, em 2024.

O fato é que a decisão do Copom nesta semana, pode ter dado fim a disputa que envolveu o presidente Lula e Campos Neto, do BC, desde os primeiros passos do terceiro mandato. Os juros básicos, enfim, vão cair, em ritmo razoável, mesmo sem que a inflação esteja completamente acomodada no centro das metas, e ainda que em termos reais, permaneçam altos.

Juros versus crescimento

Isso não significa que a atividade econômica vai voar daqui em diante. Os efeitos dos juros muito elevados são defasados, tanto para freiar quanto para aliviar a economia. O ritmo projetado de crescimento econômico, depois da surpreendente alta de 1,9% no primeiro trimestre, é baixo no restante do ano.

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Para dar uma ideia, se a economia crescesse por quatro trimestres o que cresceu no período janeiro-março, 2023 terminaria com avanço de quase 8%. Ninguém, nem o governo, está prevendo mais de 2,5% para o crescimento das atividades econômicas no fim do ano. A diferença indica o tamanho da freada.

Decisões de investimento e de consumo que acontecem na esteira do relaxamento da política de juros, além disso, costumam demorar para se concretizar. Haverá mais espaço para a economia avançar, mas o avanço não será automático, e sua duração, assim como seu ritmo, dependerão de outros fatores, fora taxa de juros mais moderadas.

De todo modo, e resumindo, Lula não terá mais como usar a crítica aos juros altos para justificar os problemas da economia. Campos Neto, depois de tudo, e na prática, topou jogar no campo do presidente. A guerra dos juros, inesperadamente, terminou em pizza.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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