José Paulo Kupfer

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Opinião

Com aumento de gastos, Lula empurra PIB, mas Faria Lima vê direção errada

A atividade econômica, em 2023, está sendo impulsionada por injeções de recursos públicos, além do aumento na produção, principalmente para exportação, na agropecuária e na indústria extrativa mineral. Os números de julho do IBC-Br (Índice de Atividade Econômica), calculado pelo Banco Central, e divulgados nesta terça-feira (19), reforçam uma constatação que já ficara evidente com os resultados do PIB (Produto Interno Bruto) do segundo trimestre.

O avanço em julho, de 0,44% sobre junho, foi ligeiramente maior do que as estimativas dos analistas. Mas houve revisões fortes, para cima e para baixo, no IBC-Br nos três meses anteriores. No saldo, em termos anuais, até julho, a economia, segundo o indicador avançou 0,7%. O ritmo caiu, pois a expansão tinha sido de 2,4% anuais, em junho.

Com o resultado de julho, economistas calculam que não haverá transbordamento do IBC-Br de julho para o terceiro trimestre. Mas, em relação ao conjunto de 2023, o avanço no mês, garante alta de 2,9%, caso não ocorram, em média, recuos nos meses seguintes até o fim do ano.

Projeções avançam para expansão de 3% em 2023

No Boletim Focus, as projeções para a variação do PIB em 2023 vêm subindo e já chegam a 2,9%, de acordo com as estimativas mais recentes. A equipe do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, passou a prever crescimento de 3,2%, e o otimismo que se espera de governos está sendo acompanhado por analistas de prestígio, inclusive de bancos internacionais, que já apostam em crescimento de 3,5% no ano.

Alguns serviços e bens de consumo não duráveis ou semiduráveis puxaram a atividade também em julho. Nas condições atuais, em que ainda existem espaços para ocupar a capacidade de produção instalada, essa expansão sinaliza impulsos com origem em programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, e políticas como a de retomada dos aumentos reais do salário mínimo — que, por sua vez, incrementam outros programas sociais e a renda em geral.

Um exemplo desse tipo de impulso pode ser localizado no programa de "carros populares". As facilidades oferecidas para aquisição de veículos empurrou o comércio ampliado enquanto durou, mas em julho, já sem os estímulos, a venda de veículos recuou, puxando o comércio para baixo.

Gastos públicos impulsionam consumo e serviços

Desde meados de 2022, com o esforço do então presidente Jair Bolsonaro para turbinar a economia no período eleitoral, programas de transferência de renda e corte de impostos enviaram impulsos à atividade. O governo Lula, agora em terceiro mandato, tem reforçado, esse impulso. Entre meados do ano passado e meados deste ano, em pouco mais de 12 meses, as despesas federais não financeiras avançaram quase 10%, já descontada a inflação.

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Acresce ao impulso do consumo pelas transferências de recursos públicos, a resistência da atividade em segmentos dos serviços. A explicação é que estes segmentos, em geral de atendimento das famílias, não são os mais afetados pelas restrições de crédito impostas por taxas de juros ainda em terreno bastante restritivo. A maior expansão do consumo de bens não duráveis tem a mesma explicação.

O outro lado desse impulso, via gastos, é a pressão sobre as contas públicas. O gasto que impulsiona a atividade hoje, pode ser restrição ao crescimento de amanhã, caso a dívida pública ameace sair de controle e o Banco Central seja obrigado a subir juros para segurar a economia e evitar movimentos inflacionários .

É essa preocupação com o futuro das contas públicas que justifica também, agora em setembro, a queda expressiva da aprovação do governo — e do ministro Haddad — por economistas do mercado financeiro, depois de uma virada positiva há pouco mais de dois meses. A pesquisa com profissionais da "Faria Lima" mostra que a aprovação do governo caiu de 20% em julho para 12% em setembro, ao mesmo tempo em que a avaliação positiva de Haddad, no mesmo período, desceu de 65% para 46%.

"Faria Lima" vê direção errada na economia

A pesquisa detectou aumento, de 53% para 72%, no percentual dos que consideram que a política econômica está na direção errada. O erro, na opinião de 57% dos que responderam aos questionários, está no fato de que a política fiscal não vai funcionar, e que a meta de déficit fiscal zero em 2024, para 95% deles, não será alcançada.

A nova rodada da pesquisa Genial/Quest, repete o problema das anteriores: o número de entrevistados, desta vez apenas 87 (foram 94, na de julho), com respostas a questionários online em meados de setembro, concentrados no Rio e em São Paulo, enfraquece seus achados. De todo modo, por se tratar de pesquisa estrutura e periódica, não deixa de revelar impressões de parcela influente de formadores de opinião.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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