José Paulo Kupfer

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Opinião

Desinflação segue lenta e taxa anual só deve recuar para 4% ao fim de 2024

A marcha da inflação continua abaixo das previsões. Mais uma vez, agora com o IPCA-15 (Índice de Preços ao Consumidor Amplo - 15) de setembro, a alta dos preços avançou 0,35%, quando a média das projeções apontava elevação de 0,37%.

Nos resultados divulgados pelo IBGE nesta terça-feira (26), chamou a atenção o índice de difusão. O indicador mostra o percentual de itens da cesta de produtos e serviços que compõe o IPCA que registraram aumentos de preços, no mês. No IPCA-15 de setembro, a taxa ficou em 42%, a menor desde o início da série, iniciada em 1999, cuja média histórica está em 62%. Dos 377 produtos e serviços do IPCA, em setembro, 220 não sofreram alteração de preço ou o preço recuou.

Difusão dos preços no ponto histórico mais baixo

O índice de dispersão é um indicador naturalmente bastante volátil, como é fácil de perceber no gráfico da série histórica. A quantidade de itens de alimentação e seu peso no conjunto de consumo são relevantes no IPCA. A atual fase de retração nos preços dos alimentos explica uma parte do recuo no índice de dispersão.

Mas uma marca tão baixa de reajustes para cima não deixa de ser um indicador de que os preços, na economia brasileira, passam por uma etapa de contenção. Isso apesar da situação relativamente mais favorável do mercado de trabalho e do ritmo mais animado da atividade. Prova disso é que, nos últimos três meses, a alta acumulada do IPCA, como lembrado pelo economista José Francisco de Lima Gonçalves, do Banco Fator, em relatório a clientes, replicada para um ano, está rodando abaixo de 3%, o centro da meta fixado para 2024.

Puxado por vestuário, com a entrada das novas coleções de primavera-verão, e, principalmente, por combustíveis, com peso maior em gasolina e óleo diesel, a evolução do IPCA-15 permite aos analistas projetar alta em torno de 0,35% no índice cheio de setembro. Se confirmada a projeção, a taxa acumulada em 12 meses, avançaria para vizinhanças de 5,5%, quase um ponto percentual acima do registrado em agosto.

Nos últimos três meses, preços rodam abaixo de 3%

Seria o pico do ano, mas é preciso destacar que essa alta se deve a uma base de comparação muita baixa. No terceiro trimestre de 2022, às vésperas da eleição presidencial, o governo Bolsonaro manobrou para baixar preços, fazendo com que os índices acumulados agora avancem. Os índices acumulados em 12 meses devem recuar de outubro a dezembro, mas não os índices mensais.

No Boletim Focus, a média das projeções para a alta da inflação em 2023 é de avanço de 4,85%. É um resultado apenas 0,1 ponto acima do limite superior do intervalo de tolerância do sistema de metas para este ano.

Para o economista Fábio Romão, da LCA Consultores, contudo, é pouco provável que a inflação, também neste ano, consiga se acomodar nos limites do sistema de metas. O economista nota que o processo de desinflação continua, mas os recuos mais intensos já ficaram para trás.

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Itens específicos, como passagens aéreas, vão pressionar

Segundo Romão, que prevê alta de 4,97% em 2023, além de possíveis novos reajustes em combustíveis, passagens aéreas, item volátil e com peso de 0,6% no índice, pode registrar alta de dois dígitos em novembro. Também os preços dos serviços, para Romão, dificilmente ficarão muito abaixo de 6%, em 2023.

Dessas projeções, resulta que o processo de desinflação em marcha, como prevê o Copom (Comitê de Política Monetária), na ata da reunião de setembro, também divulgada nesta terça-feira, ocorre de forma lenta. Chegará, pelas estimativas dos analistas, a 4% só no fim de 2024, ainda distante do centro da meta, de 3%, mas, finalmente, dentro do intervalo de tolerância, cujo limite superior é de 4,5%.s

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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