Vencer preconceito com as ações do BB é batalha de Dom Quixote, diz CFO
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Geovanne Tobias, vice-presidente de gestão financeira e de relações com investidores do Banco do Brasil, tem um estilo direto e peculiar que já lhe rendeu frases marcantes no mercado - a mais recente: "Eu não sou Itaú. Eu sou muito melhor do que o Itaú." Mas, apesar de falar sem medo o que pensa das críticas do mercado financeiro, os analistas reconhecem na sua gestão os bons resultados para o banco estatal.
Para os negócios, a postura de Tobias é mais contida. Prefere fazer projeções cautelosas e não gosta de dar um passo maior que a perna, que possa comprometer a sustentabilidade e resultados do Banco do Brasil nos próximos anos.
Um dos desafios que encara há anos, e está quase virando um karma, é o persistente desconto nas ações BBAS3, que desde 2020 negociam abaixo do valor patrimonial. Já tentou de tudo para tirar as ações desse patamar, mas ainda nada deu certo. Para ele, o mercado precifica o banco com viés político devido à participação do governo de 50%. "É preconceito", já alegou repetidas vezes.
Segundo o executivo, nos últimos anos o BB gerou valor, entregou crescimento do lucro, bom payout (parcela do lucro destinada a proventos), dividend yield (retorno em dividendos) elevado, mas não adiantou. "É quixotesco", desabafa. "Convencer o mercado de que o Banco do Brasil estará sempre focado na geração de valor é quase uma batalha de Dom Quixote", acrescenta.
Em entrevista ao UOL, Tobias detalha estratégias para lidar com esse desconto, projeções para o payout nos próximos anos e até faz as contas de quanto os dividendos do BB podem subir ou cair em 2025, em três cenários diferentes. Confira:
Um desconto quixotesco
As ações do Banco do Brasil (BBAS3) valorizaram nos últimos cinco anos, mas nesse tempo continuaram negociadas com desconto em relação ao seu valor patrimonial, operando abaixo de 1 vez o P/VP.
Em 2020, os papéis negociavam a 0,95 vez o P/VP. Já em 2023, quando Tobias assume o cargo de CFO, o P/VP era de 0,94. Em 2024, os papéis fecharam em 0,77 e atualmente operam a 0,88 vez o P/VP. Eternamente baratas.
Enquanto o Itaú (ITUB4) negocia a 1,44 vez o P/VP e o Bradesco e Santander a 0,72 e 0,80, respectivamente. Estes dois últimos em processo de reestruturação e recuperação dos fundamentos. Um reflexo do que Tobias chama de "preconceito" do mercado em relação ao banco estatal.
Para combater essa percepção, a estratégia tem sido entregar resultados sustentáveis, crescentes e cumprir as metas de guidance (projeções) há dois anos. Segundo o CFO, o BB tem mostrado e falado constantemente: "O Banco do Brasil continua cumprindo o seu papel, atendendo os clientes, buscando eficiência e entregando valor aos acionistas, independentemente de quem está no governo", afirma.
Ainda assim, convencer os investidores tem sido um desafio. Ele lembra que, em 2020, boatos sobre a privatização impulsionaram a ação, mas a posse de Lula gerou temores de interferência política, pressionando novamente os papéis.
Embora a CEO do BB, Tarciana Medeiros, tenha sido indicada pelo governo, Tobias ressalta que 50% dos acionistas do banco são privados e a gestão busca equilibrar interesses e gerar valor para todos. "Há dois anos estamos entregando o que prometemos", enfatiza.
No entanto, muitos analistas ainda enxergam o banco como sujeito às decisões do governo. "Mostramos nossa governança e a presença de representantes dos minoritários no Conselho, mas isso não basta para eliminar o preconceito", desabafa. "Veja o que estamos executando, parece uma política pública de governo ou uma política empresarial?", questiona.
O CFO lembrou ainda que toda vez que o BB oferece algum subsídio em uma taxa de crédito, por exemplo, no agronegócio, o governo precisa remunerar o banco. "Ele cobre o subsídio e ainda garante minha rentabilidade", justifica.
Tobias cita ainda o concorrente Itaú, que também atua no agro, mas tem uma dinâmica diferente, porque não é "obrigado a financiar o Plano Safra", pode escolher clientes e "emprestar para ricos". "É por isso que eu falo, venha cumprir o meu papel, andar com as minhas sandálias, quero ver se dá conta de entregar esse valor e resultado que o BB está entregando", defende.
Para o CFO, a única saída para mudar essa visão do mercado é continuar mostrando perenidade, lucratividade e eficiência e torcer para que analistas e investidores se convençam.
Os dividendos do BB vão cair em 2025?
O mercado está dividido sobre os dividendos do Banco do Brasil este ano. Enquanto alguns analistas apostam na estabilidade, outros esperam uma possível redução nos proventos devido ao conservadorismo do banco em suas projeções.
O BB prevê um lucro líquido entre R$ 37 bilhões e R$ 41 bilhões em 2025, um crescimento tímido em relação aos R$ 37,9 bilhões de 2024. No payout, a projeção passou a ser uma faixa entre 40% e 45% do lucro - algo que não ocorria desde 2019. Como no passado o banco adotou sempre a menor porcentagem da faixa, analistas acreditam que o payout pode ficar nos 40%, o que impactaria os dividendos. A gestão do Banco do Brasil reforçou diversas vezes que o objetivo é alcançar a ponta alta da faixa em 2025, de 45% de payout, mas não foi suficiente para convencer o mercado.
Tobias apresentou três cenários.
No cenário-base, com lucro de R$ 41 bilhões e payout de 45%, os dividendos somariam R$ 18,45 bilhões em 2025, um crescimento de 8,15% sobre os R$ 17,06 bilhões distribuídos em 2024. Cabe destacar que essa alta se aplica tanto ao volume total de dividendos que serão distribuídos como ao dividendo por ação. Segundo Tobias este é o cenário principal com o qual o BB trabalha.
O CFO reforça que na ponta alta do guidance, o objetivo será trabalhar com um payout de 45%. Já se os resultados se aproximarem da ponta baixa, a tendência é que o banco aplique um payout de 40%.
O cenário pessimista: Se o lucro ficar na parte baixa da projeção (R$ 37 bilhões) e o payout em 40%, o volume de dividendos cairia para R$ 14,8 bilhões, uma redução de 13,25% comparado a 2024.
Já no cenário intermediário ou de equilíbrio, com lucro de R$ 37 bilhões e payout de 45%, os proventos totalizariam R$ 16,65 bilhões, uma leve queda de 2,40% no dividendo por ação.
Tobias ressaltou que a faixa de payout de 40% até 45% vale para o ano todo, podendo variar entre os trimestres. "Eu posso eventualmente em um trimestre pagar 40%, em outro 50%, mas no final do ano eu vou entregar um payout entre 40% e 45%", esclarece.
Ele também reforçou que a prioridade do BB não é competir com outros bancos na distribuição de dividendos, mas sim garantir crescimento sustentável, eficiência e geração de valor para os acionistas. O banco também não avalia no momento recompra de ações ou bonificações, porque o foco é manter a qualidade da carteira de crédito e diversificar receitas, especialmente em um ano de transição contábil com a Resolução 4966.
BB adota faixa de payout para mais flexibilidade
O Banco do Brasil voltou a adotar uma faixa de payout, algo que não fazia desde 2019, para garantir flexibilidade na remuneração dos acionistas sem comprometer sua estratégia de longo prazo, explicou Tobias.
A definição do payout entre 40% e 45% levou em conta projeções para os próximos três anos, mas não necessariamente significa que a faixa será mantida até 2028. "Essa faixa de payout nos traz prudência, não adianta ter um payout elevado e mais na frente ter dificuldade de capital e precisar fazer um aumento de capital com os investidores ou vender algum ativo", afirmou Tobias.
O cálculo também considera o índice de Basileia, que mede a solidez dos bancos, que devem ter um capital adequado para fazer frente a possíveis perdas financeiras. Para o mercado, o índice ideal é de 8%, mas o BB gosta de trabalhar com um "colchão de segurança" de 11%.
O banco estatal já chegou a trabalhar com um capital de 13% no passado, o que permitiu elevar o payout para 45% na época. Além disso, fatores como exigências regulatórias do Banco Central para encarar oscilações das taxas de juros foram levados em conta.
Outro ponto relevante foi o impacto da recompra de ações da BB Seguridade (BBSE3) e o fechamento de capital da Cielo, que exigiram reforço no nível de capital. Já o aumento da taxa de juros Selic, segundo Tobias, não influencia diretamente no cálculo do payout, mas pode afetar a lucratividade do banco ao aumentar os rendimentos da tesouraria.
O que esperar do payout nos próximos anos?
O CFO explica que o BB enfrenta limitações em relação a bancos privados quando se trata de aumento de capital, seja via subscrição de ações, incorporando reservas ou outros.
Diferentemente de Itaú, Bradesco e Santander, que podem captar recursos com mais facilidade na bolsa, o BB precisa oferecer novas ações a todos os acionistas para evitar diluição - algo inviável devido à participação de 50% da União. "O governo tem os desafios fiscais dele e não está nos seus planos aumentar capital no Banco do Brasil", explica.
Diante disso, o banco busca sustentabilidade nos resultados e geração de capital por meio dos negócios. Tobias projeta que o payout do BB permanecerá entre 40% e 45% nos próximos dois anos e dificilmente aumente para 50% ou 60%.
Ele destaca que mudanças podem ocorrer dependendo da evolução do plano de negócios e das exigências do Banco Central, mas prefere uma abordagem realista. Além disso, menciona a concorrência com bancos digitais, que operam com menos exigências de capital.
"Não adianta eu sair crescendo e não trazer resultado. E daqui a pouco ter que reduzir meu payout por causa disso", afirma, reforçando seu mantra: "Lucro crescente, mas sustentável."
Visão de mercado
Apesar da postura conservadora, analistas ainda esperam dividendos atrativos do Banco do Brasil em 2025. As projeções de dividend yield variam de 6,5% a 11%. Já para a valorização das ações, as estimativas indicam um salto de até R$ 35 a R$ 42.
O consenso do mercado, segundo o TradeMap, aponta para um dividend yield médio de 10,77% e um preço-alvo médio de até R$ 36,21, para a valorização de BBAS3. Regis Chinchila, da Terra, vê a valorização impulsionada pela recuperação da carteira agro e o aumento das margens financeiras com a alta dos juros. Já Pedro Ávila, da Varos Research, acredita que fatores políticos, como o crescimento de Tarcísio de Freitas nas eleições presidenciais de 2026, podem influenciar.
Curiosamente, o governo Lula beneficiou as ações BBAS3, que valorizam 93,98% desde 2023 até o fechamento de 6 de março, superando o Itaú, que subiu 53,02%, no mesmo período. O Ibovespa avançou nesse mesmo tempo 12,41%.
Mesmo com a pernada de alta, as ações BBAS3 seguem baratas. Com os resultados que entregou em 2024, analistas acreditam que o banco poderia estar negociando a pelo menos 1,5 vezes P/VP. Será que é o preconceito?