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REPORTAGEM

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FAB desativa helicópteros com só 7 a 12 anos de uso; tecnologia é russa

Mi-35M, batizado como AH-2 Sabre na FAB: Únicos helicópteros de ataque da Aeronáutica estão sendo desativados - Suboficial Johson Barros/FAB
Mi-35M, batizado como AH-2 Sabre na FAB: Únicos helicópteros de ataque da Aeronáutica estão sendo desativados
Imagem: Suboficial Johson Barros/FAB

Alexandre Saconi

Colaboração para o UOL, em São Paulo

13/08/2022 04h00

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A FAB (Força Aérea Brasileira) está desativando todos os seus 12 helicópteros Mi-35, produzidos na Rússia. Batizados na Aeronáutica de AH-2 Sabre, são os únicos modelos de ataque da frota.

A compra foi feita em 2008 ao custo de US$ 250 milhões à época (R$ 1,3 bilhão na cotação atual), e as entregas ocorreram entre abril de 2010 e o final de 2014. Ou seja, eles têm entre 7 e 12 anos de uso. Com esse tempo, a desativação do modelo ocorre de maneira considerada precoce. Helicópteros como esse duram décadas em funcionamento, como foi o caso do H-1H conhecido como "Sapão" e "Hzão", que voou por 51 anos na FAB, até 2018.

Seu desempenho chegou a ser elogiado por oficiais da Aeronáutica, com a aeronave sendo considerada confiável para as missões que desempenha. O UOL questionou a Aeronáutica sobre os motivos da desativação e como ela iria acontecer, mas não teve resposta até a publicação deste texto.

Embora outros helicópteros consigam realizar algum ataque, como o lançamento de foguetes, são aeronaves com múltiplas funções adaptadas para esse tipo de missão. A desativação teve início em março deste ano e está sendo concluída aos poucos, com previsão de término até o fim do ano.

Algumas unidades estão sendo levadas para o Parque de Material Aeronáutico de Lagoa Santa (MG), onde aguardam seu destino. Um dos exemplares foi entregue ao Musal (Museu Aeroespacial), localizado no Rio de Janeiro, onde ficará em exposição (veja vídeo no final da reportagem).

A desativação foi comunicada em boletim do comando da Aeronáutica do dia 10 de fevereiro, determinando que ela teria início em 1º de março. Isso ocorreu pouco antes do início da guerra na Ucrânia.

O Mi-35 - O tanque aéreo

Mil Mi-35, batizado como AH-2 Sabre na Força Aérea Brasileira - Vinicus Santos/FAB - Vinicus Santos/FAB
Mil Mi-35, batizado como AH-2 Sabre na Força Aérea Brasileira
Imagem: Vinicus Santos/FAB

Mi-35 foi desenvolvido a partir do helicóptero Mil Mi-24, que teve sua produção iniciada na década de 1960. Ele é um helicóptero de ataque, podendo ser municiado com foguetes e canhões.

Com presença em dezenas de países, ele pode realizar missões em ambientes de baixa visibilidade, pois conta com sistemas que ampliam a visão da tripulação até mesmo à noite. Ele é operado por dois pilotos, sendo que um é o responsável pelos armamentos.

Na versão da FAB, ele conta com um canhão de 23 mm móvel sob o nariz, além de comportar mísseis ar-superfície e foguetes de 80 mm. Esse tipo de armamento coloca o seu poder de fogo lado a lado com alguns tanques. Por isso é apelidado de tanque aéreo, já que tem extensa capacidade de destruição.

Ele ainda conta com medidas de proteção, como dispositivos antimísseis e supressor de calor na saída dos motores (alguns tipos de mísseis se guiam pelas altas temperaturas emitidas pelos motores).

Além da tripulação, ele tem capacidade de levar mais oito soldados em sua parte traseira ou quatro macas. Essa configuração torna o modelo um dos mais versáteis do mundo, pois pode ser usado tanto para atacar o inimigo quanto para resgatar tropas ou levar soldados para missões de ataque em solo enquanto presta apoio aéreo.

Histórico na FAB

A compra foi feita pelo governo brasileiro em 2008, e as três primeiras unidades foram entregues em 2010. O pacote contou com 12 unidades ao todo.

Ainda estava prevista na negociação a construção de oficinas de manutenção, envio de peças sobressalentes, treinamento e transferência de tecnologia, mas o projeto sofreu cortes no orçamento já em 2011.

Os helicópteros estavam alocados no Esquadrão Poti, localizado na Base Aérea de Porto Velho (Rondônia). Ali eram responsáveis por missões de interceptação e o policiamento do espaço aéreo brasileiro.

Equipamento confiável

AH-2 Sabre (Mil Mi-35M) com canhão de 23 mm - Suboficial Johson Barros/FAB - Suboficial Johson Barros/FAB
AH-2 Sabre (Mil Mi-35M) com canhão de 23 mm
Imagem: Suboficial Johson Barros/FAB

De acordo com Robinson Farinazzo, capitão de fragata da reserva da Marinha, o modelo já esteve presente em mais de 30 conflitos armados.

"É uma aeronave que tem características interessantes. Há países que evitam retirar esse avião de operação pois, se tirarem um, teriam de colocar dois no lugar dele", diz o militar. "Isso se deve ao fato de o helicóptero ser capaz de realizar missões de ataque e de transporte e resgate ao mesmo tempo, algo que os demais modelos em utilização não fazem", afirma Farinazzo.

No Brasil, entretanto, existem divergências em relação a outros países que utilizam o Mi-35.

"A Venezuela opera o mesmo modelo. Entretanto, lá, eles encaminham o helicóptero inteiro para fazer a manutenção na Rússia. A FAB, por sua vez, opta por fazer a transferência tecnológica e realizar a manutenção no Brasil. Cada país tem sua abordagem, e cada abordagem tem suas vantagens e desvantagens", diz.

No Brasil, a IAS (Indústria de Aviação e Serviços) era a empresa responsável pela manutenção das aeronaves. A companhia firmou contrato com a FAB e com a estatal russa Rostec para realizar os serviços necessários.

Ficha técnica

Modelo: Mi-35M
Diâmetro do rotor: 17,20 metros
Comprimento: 19,50 metros
Peso máximo de decolagem: 12 toneladas
Velocidade máxima: 335 km/h
Altitude máxima de voo: 4.900 metros