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Gasolina batizada: assim na terra como no céu. Denuncie!

Ricardo Moraes
Imagem: Ricardo Moraes
Flávio Tasinaffo

A coluna Tudo Golpe é a extensão de um projeto criado por Flávio Tasinaffo com o objetivo de alertar e ajudar as pessoas a não caírem em golpes rotineiros. Siga também em facebook.com/tudogolpe e no Instagram @portaltudogolpe

22/07/2020 05h00

Carro engasgando, barulho estranho, fumaça branca. Seu carro pode ter sido abastecido com gasolina adulterada.

A partir do dia 3 de agosto, toda a gasolina vendida no país terá que seguir novas especificações da Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP) que melhoram o rendimento dos veículos. Leia reportagem.

O objetivo é preencher lacunas na legislação que permitiam a produção ou importação de gasolina de menor qualidade.

Qual é a diferença entre combustível de baixa qualidade e combustível adulterado?

O Eng. Químico Marcos Roberto Gomes, gerente da divisão de combustíveis e lubrificantes na SCIUNIC Analítica, respondeu a este questionamento:

"A gasolina pode ter qualidade inferior se for FORMULADA. O produto não vem direto do processo de refino do petróleo, há adição de correntes (solventes) durante esse processo para baratear o combustível e, ainda assim, ter parâmetros que se enquadram às normas da portaria da ANP. As empresas que fazem essa formulação são qualificadas pela agência reguladora, então, entregam um produto com qualidade menor sem deixar de atender as exigências".

Outra questão importante, segundo o engenheiro, é o armazenamento do combustível:

"Dependendo do tempo, pressão e temperatura no tanque de armazenamento, há a oxidação do produto, que perderá suas características, diminuindo a eficiência e, ainda, podendo entupir os bicos da injeção ao formar goma".

Gomes seguiu explicando a diferença: "já na adulteração, o combustível pode ter suas características modificadas com a adição de solvente, água ou álcool. Como a carga tributária e o preço de solventes e álcool é muito menor, estes elementos são colocados sem qualquer discriminação". E os danos podem ser significativos: "no caso de solventes como querosene, pode ocorrer o ataque a certos tipos de materiais como borrachas e plásticos. Se levarmos para o mundo dos motores à combustão, o solvente pode atacar mangueiras de injeção e gaxetas".

Metanol e os sérios riscos à saúde

O especialista explicou que muita gente acha que o metanol, por ser um álcool, pode ser adicionado à gasolina. No Brasil, o metanol é proibido. Os motores não estão preparados para receber este tipo de solvente e, com isso, as partes metálicas sofrem corrosão. Além disso, este solvente pode causar danos à saúde como cegueira, problemas hepáticos e renais e, caso ocorra combustão por sua chama ser invisível a olho nu, pode ocasionar queimaduras

É possível identificar que o combustível foi adulterado?

Como alguém leigo, não familiarizado com tantos componentes e termos técnicos, pode identificar que a gasolina está adulterada? Não é tarefa simples. Há, segundo o engenheiro, adulterações muito bem-feitas, que passam facilmente desapercebidas principalmente porque em postos de combustíveis só se consegue fazer testes rápidos como densidade. No caso de gasolina, ele acrescentou, dá para ver a quantidade de etanol, mas isso não é suficiente. Todos os postos, aliás, são obrigados a ter um kit para medir densidade e teor de álcool.

"Quem abastece com combustível adulterado, só irá perceber quando o veículo começar a apresentar problemas com injeção, perda de potência e aumento de consumo", explicou. As formas mais comuns de desconfiar da adulteração, de acordo com o especialista, são o cheiro do combustível (como o de querosene saindo do escapamento), barulhos estranhos (principalmente quando se exige potência do motor), pela fumaça branca ou água saindo do escapamento (principalmente no etanol) e quando o veículo começa a "engasgar" frequentemente. E, claro, a regra de ouro: desconfie se o preço estiver bem abaixo do praticado no mercado

Quem são os responsáveis e a nova resolução da ANP

Perguntamos onde a adulteração acontece e de quem é a responsabilidade. Gomes esclareceu que, normalmente, nos postos de gasolina, principalmente os de bandeira branca, e acrescentou: "A ANP tem um programa de monitoramento de combustíveis que analisa a qualidade e autua os postos de combustíveis em caso de adulteração. Essa inspeção de qualidade também pode ser feita por outros órgãos como o Ministério Público, Secretarias da Fazenda e Procons. Geralmente, são os postos que respondem por esta prática, mas nada impede que as distribuidoras também possam ser acionadas, principalmente em relação à qualidade do produto, já que emitiram uma certificação".

Sobre a nova resolução da ANP, ele opinou: "Haverá uma melhoria na qualidade dos combustíveis, aumentando a eficiência dos motores. O custo por litro será maior, mas deve melhorar a eficiência e diminuir o consumo. Mudando os parâmetros como os de densidade, produtos como a nafta, solvente que pode ser adicionado à gasolina e que diminuem sua qualidade, serão menos utilizados".

Crime ambiental

O tema é ainda mais sério: a emissão de poluentes, segundo o engenheiro, pode ser maior dependendo do que foi utilizado na adulteração: "CO2 e NO2 podem ser lançados à atmosfera em maior quantidade", explicou.

Gomes acrescentou que no Brasil é comum a adulteração de um composto de uso obrigatório em caminhões para diminuir a emissão de compostos com nitrogênio - o ARLA 32. A adulteração é feita a partir da matéria-prima, substituindo a ureia industrial pela agrícola (que é utilizada em fertilizantes). "Também é comum a revenda do produto já utilizado como se fosse novo, tudo para diminuir o custo. Essa adulteração é tida como crime ambiental e o proprietário do veículo e o fabricante ou distribuidor do composto respondem a processo penal", esclareceu.

Contaminação na gasolina de aviação

Na mesma semana em que se noticiou a data em que as novas especificações tornar-se-ão obrigatórias, uma suspeita de adulteração em gasolina usada por aviões brasileiros veio à tona, demandando investigação conjunta da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) e da ANP. A contaminação da gasolina de aviação (AVGAS) pode ter causado danos e corrosões em tanques de combustível, bombas, mangueiras e injetores, além de vazamentos em aeronaves de pequeno porte.

O especialista Marcos Roberto Gomes explicou que no caso de combustíveis de aviação, como aconteceu no Aeroclube de São Paulo, o combustível pode ter suas características alteradas de forma dolosa (com querosene, álcool, diesel, etc.), mas também pode ocorrer de forma culposa, quando não há intenção, pois as condições de armazenamento podem influenciar em suas propriedades, oxidando ou deixando passar umidade: "Isso é um grande problema se pensarmos que o avião alcança temperaturas negativas durante o voo; pode haver formação de cristais de água que entopem o bico de injeção".

Denuncie

No céu ou na terra, estamos expostos aos riscos impostos por quem está objetivando apenas lucro, independentemente do prejuízo que causam ao bolso e a saúde de suas vítimas.

O que está ao seu alcance, leitor? Desconfie de preços muito baixos.

E, se suspeitar que um posto de gasolina está utilizando combustível adulterado, denuncie.

Acesse o "Fale Conosco" da ANP, onde encontrará um formulário para "Denúncias e Reclamações".

Se souber a bandeira do posto, procure pelas centrais de atendimento das próprias distribuidoras, como Petrobras / BR Distribuidora, Ipiranga, Shell e Ale.

Caso se sinta prejudicado, não hesite em procurar o Procon de sua cidade.

Zele por sua integridade física, por sua saúde e faça valer os seus direitos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.