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Investidor que ganhou 80.000% na Bolsa foi protagonista de um megaescândalo

Denyse Godoy

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Divulgação

O empresário e investidor profissional gaúcho Rafael Ferri, 38, que conseguiu ganhar 80.000% na Bolsa em um ano, é amado e detestado na mesma intensidade no mercado financeiro. Seus fãs o chamam de bruxo; para os seus detratores, ele é o Lobo de Porto Alegre – apelido que faz alusão a Jordan Belfort, o controverso operador de Wall Street interpretado por Leonardo di Caprio no filme O Lobo de Wall Street, de 2013.

Ferri é dono de empresas embrionárias do setor de tecnologia; a maioria é situada em Porto Alegre.

Nos últimos anos, Ferri esteve no centro de um dos maiores escândalos da Bolsa brasileira: a chamada "bolha do alicate" – uma ciranda financeira que chegou a lhe render uma pequena fortuna e, quando estourou, deixou-o prostrado no chão do seu apartamento por dois dias.

Era agosto de 2011, e as ações da fabricante de instrumentos de corte Mundial, nas quais Ferri havia investido grande parte do seu dinheiro, caíram quase 90% em uma semana, após terem o seu valor multiplicado por 30 em apenas três meses. 

Duas condenações, na CVM e na Justiça

No ano seguinte, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão responsável por fiscalizar as operações na Bolsa, abriu um processo contra o empresário acusando-o de ter manipulado preços e utilizado informações privilegiadas na negociação dos papéis da Mundial. Essa acusação foi feita pela própria Bolsa, que adotou procedimentos para paralisar as transações de Ferri. A essa medida logo se seguiria outro processo na Justiça Federal.

Ele foi condenado pela CVM em dezembro do ano passado por manipulação de preços de ações e proibido de atuar no mercado de capitais por cinco anos. Foi inocentado no processo de uso de informação privilegiada.

Sua defesa recorreu da condenação, afirmando que usar um grande volume de operações de compra e venda de ações como estratégia de investimentos, segundo citado na decisão, não configura infração contra o mercado de capitais.

Em novembro também do ano passado, ele sofreu outra condenação, dessa vez pela Justiça Federal, em primeira instância. Foi sentenciado a três anos e nove meses de prisão, pena que deve ser substituída por prestação de serviços. Seu advogado também vai recorrer.

Eu sempre operei dentro da lei, diz Ferri

Com gosto por sustentar em letras maiúsculas, nas redes sociais, as suas visões sobre economia e política, Ferri diz ficar indignado com as suspeitas de ilegalidades e enfrenta jornalistas, analistas de mercado e quem mais o tachar de desonesto.

Mas diz que nenhuma crítica o entristece tanto quanto as que vêm de sua família e enchem os ouvidos de sua mãe, uma engenheira civil que vive na capital gaúcha com o segundo marido – o pai do investidor morreu de câncer há 13 anos.

"Eu me sinto muito injustiçado, porque sempre operei dentro da lei", diz Ferri. "Sujaram meu nome e acabaram com a credibilidade que tinha construído na minha carreira."

Enquanto os processos contra ele se desenrolavam, o gaúcho deixou de atuar como agente autônomo de investimentos (um tipo de consultor que auxilia clientes com suas aplicações na Bolsa), adotou um estilo de vida mais discreto, vendendo os carros esportivos com que desfilava na sua cidade natal, e passou a aplicar apenas o próprio capital.

Mas, passados quatro anos de recolhimento, uma decisão favorável da CVM está lhe dando forças para retomar e expandir suas atividades no mercado.

Sócio de plataforma de debates entre investidores

Confiante em sua absolvição, Ferri entrou como sócio em uma plataforma de debates entre investidores: a Traders Club. Antes restrito a um grupo no WhatsApp, a comunidade mudou-se para o aplicativo de troca de mensagens profissionais Slack em outubro, ganhou escritório em São Paulo e atraiu mais de 2.000 membros em poucas semanas. Atualmente, são 4.400 participantes.

A Traders Club já começou a migrar os membros para a plataforma paga. Até então de graça, agora vai passar a cobrar mensalidade de R$ 99,90 dos interessados em ouvir as histórias e jogadas de quem tem mais conhecimento no ramo.

"É muito difícil, para o pequeno investidor, operar sozinho na Bolsa", afirma Ferri. "Eu quero dividir um pouco de toda essa experiência que eu acumulei."

Estratégia comentada em fóruns

Quem for condenado pela CVM não pode atuar no mercado como agente autônomo de investimentos. Mas, como Ferri apresentou recurso, a punição fica suspensa até a decisão final. Ele pode desenvolver o trabalho, segundo a CVM.

Mesmo quem seja condenado em caráter definitivo ainda pode expressar-se publicamente em fóruns, dizendo o que está fazendo com a sua carteira de investimentos, ações que está comprando e vendendo. Só não pode dar conselhos ou estimular outros a fazer operações, segundo a CVM.

A regra geral para fóruns em redes sociais é que qualquer indivíduo pode dar opiniões como investidor que está analisando os próximos passos da sua estratégia particular, segundo Vera Simões, gerente de registros e autorizações da CVM. Ou seja, é permitido comentar papéis que se pretende comprar e vender, bem como o que se espera de determinada ação.

"Entretanto, para oferecer algum tipo de consultoria, o interessado tem que obter uma autorização especial da CVM", explica Simões. "Por isso, é importante sempre checar as credenciais de quem vende serviços de aconselhamento nesse ramo." 

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