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Empregos e carreiras

Mentir no currículo tem sido comum; como as empresas descobrem isso?

Vinicius Pereira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

15/10/2020 04h00

O fato de o desembargador Kassio Marques, indicado ao STF (Supremo Tribunal Federal), ter passagens do currículo questionadas pela Universidad de La Coruña, na Espanha, é mais um caso de autoridades públicas que já tiveram dados de sua carreira contestados.

A recorrência desse tipo de caso na esfera pública acendeu o alerta também no setor privado, onde as empresas passaram a olhar mais para a importância do chamado "background check", ou seja, formas de realizar uma checagem dos currículos e até mesmo da vida pregressa dos profissionais.

O "background check" é um serviço oferecido por empresas como forma de investigar o passado e a veracidade de informações colocadas por profissionais em currículos. Além das informações sobre experiência profissional e formação acadêmica, há também uma checagem de antecedentes criminais do possível empregado.

Geralmente, quem contrata esse tipo de serviço são outras empresas, que estão de olho em um profissional específico. Com o currículo em mãos, pode surgir alguma dúvida ou pendência, e, por isso, as companhias que precisam verificar o passado do funcionário, dado o cargo previsto ser de confiança, optam por contratar essa checagem profissional.

"O background check é utilizado, normalmente, para cargos em que haja uma exposição grande dos segredos da companhia ou com informações sigilosas. Além disso, também antes da contratação de empregados domésticos, cuidadores, ou em qualquer situação que o futuro funcionário irá tratar diretamente com pessoas", disse Aloizio Lima, sócio responsável pela área trabalhista do Lefosse Advogados.

Apesar de o caso de Kassio Marques só ter vido à tona após o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) anunciar a indicação, não é a primeira vez que um currículo de autoridade é questionado.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, nunca estudou na Universidade Yale, nos Estados Unidos, e não obteve o título de mestre em direito público pela instituição americana, como afirmava. Além dele, outros ministros do governo Bolsonaro também inflaram as vidas acadêmicas nos currículos.

Serviço comum no exterior

Apesar de esse serviço ser comum em países da Europa ou nos EUA, no Brasil ainda há uma certa dificuldade para as empresas captarem tais informações profissionais. O principal impasse é que o país não oferece uma base de dados de formação acadêmica integrada, segundo especialistas ouvidos pelo UOL.

Para Jung Park, CEO da InovaMind, que oferece esses serviços às companhias, a saída encontrada é realizar uma pesquisa focada em entidades de classe, como a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) ou o CRM (Conselho Regional de Medicina), por exemplo.

"O Ministério da Educação não tem um controle sobre se a pessoa se formou nisso ou naquilo. As informações, por exemplo, estão nas entidades de classe, como a OAB ou o CRM, se for administrador, o CRA, pois para estar em uma entidade de classe ele precisa ser formado", disse Park.

Segundo o Park, a demanda no Brasil para esse tipo de serviço cresceu 300% nos últimos 12 meses, mas o país ainda poderia melhorar o ambiente desse negócio. Uma saída seria adotar um cadastro único, até por medidas de segurança.

"Todo mundo que pega currículo infla, é até natural do ser humano. Mas, deveria ter uma base de dados pública que ofereça as graduações à pesquisa por uma questão até de segurança. Isso é um dado significativo, principalmente quando a gente fala de saúde, um falso médico, por exemplo, pode causar sérios danos", afirmou.

Checagem requer cuidados

Apesar de o serviço estar ganhando importância entre as grandes empresas que atuam no Brasil, quem pretende realizar um "background check" precisa tomar alguns cuidados.

De acordo com o advogado Aloizio Lima, como não existe uma norma que regulamente esse tipo de serviço, o empregador precisa tomar cuidados com os dados levantados e com o nível de investigação para não ter pendências judiciais futuras.

"Na análise do currículo, a empresa está usando poder de diligência ao fazer uma busca de profissional de mercado", afirmou.

"Quando a checagem entra no campo da investigação de antecedentes, é melhor que a empresa faça isso de maneira transparente, pois assim a empresa terá um maior conforto para que a questão não se torne judicial", disse.

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