Precisando de dinheiro? Lojas oferecem crédito fácil, mas tem 'pegadinha'

Andréa Carneiro

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Getty Images/iStockphoto/jack191

"Precisando de dinheiro?" A pergunta é feita pelo alto-falante ou aparece em cartazes e folhetos em várias lojas de departamento, de redes como C&A, Marisa, Renner e Riachuelo (saiba mais abaixo).

O atendimento ao cliente é feito em caixas exclusivos para fornecer empréstimos ou fazer o cartão da loja, sem ser necessário entrar na fila de quem paga as compras. O empréstimo é feito pelas lojas em parceria com bancos ou financeiras.

Parece mais fácil do que conseguir um empréstimo no banco, mas pode ter uma "pegadinha": os juros altos, além da cobrança de taxas (de cadastro, por exemplo).

Mais fácil = mais caro

Justamente pela facilidade em conseguir este tipo de crédito, os juros são bem maiores, alerta a associação de defesa do consumidor Proteste. A análise do risco de calote é superficial, por isso o crédito é "mais fácil", mas os juros são mais altos, diz o professor do Ibmec/RJ Gilberto Braga. "As empresas ganham mais em volume, porque, normalmente, o valor emprestado é baixo."

Em geral, os juros cobrados pelas lojas são quase tão altos quanto os do cheque especial --que chegaram a 331% ao ano em novembro, segundo os dados mais recentes do Banco Central.

Não se jogue

Não basta ver se a parcela vai caber no seu bolso. É importante saber quanto vai custar na prática aquele empréstimo. A melhor forma é comparar o chamado Custo Efetivo Total (CET): esse indicador inclui os juros e outros gastos, como seguro, taxas e impostos. Quanto menor esse custo, melhor para o consumidor.

É necessário ter muito cuidado, pois a oferta é grande, mostra-se muito disponível e dá a falsa impressão que é fácil de pagar.

Proteste, Associação Brasileira de Defesa do Consumidor

"Se o empréstimo é realmente necessário, recorra aos bancos, onde o custo do financiamento é mais baixo", orienta a entidade de defesa do consumidor.

Braga alerta para outro risco: que o empréstimo seja uma porta de entrada para o endividamento. "O consumidor deve evitar decisões impulsivas e se planejar", afirma.

C&A, Marisa, Renner e Riachuelo

A reportagem visitou lojas de quatro redes na capital paulista (C&A, Marisa, Renner e Riachuelo) e perguntou quais eram as condições para empréstimo. Em todas elas, os atendentes informaram que a taxa de juros depende do relacionamento do cliente com a loja. Ou seja, quem tem o cartão da loja e o usa bastante tende a pagar tarifas e taxas menores.

O UOL também entrou em contato com as empresas, por meio da assessoria de imprensa, pedindo mais informações sobre as exigências para o empréstimo, as taxas cobradas e as condições de pagamento. Veja abaixo as informações.

C&A

Panfletos na loja oferecem crédito de até R$ 30 mil para aposentados e pensionistas do INSS, com juros a partir de 1,79% ao mês (sujeito a critérios de elegibilidade, limitado a 30% do valor recebido do INSS).

Em uma simulação apresentada, um beneficiário que recebe R$ 600 por mês pode sacar até R$ 6.280 e pagar em 72 vezes de R$ 180, com primeiro vencimento para 63 dias, taxa de 2,09% ao mês e Custo Efetivo Total (CET) máximo de 30,16% ao ano.

A loja atua em parceria com a Bradescard, do grupo Bradesco. Segundo informações do Banco Central, a Bradescard cobra juros de 11,74% ao mês (278,96% ao ano), em média, no crédito pessoal não consignado.

A assessoria de imprensa C&A encaminhou as perguntas do UOL ao Bradesco. O banco informou que:

- não há renda mínima exigida e não é necessário ter o cartão da loja;
- a liberação do crédito é feita mediante análise caso a caso e o limite depende da análise de crédito;
- é cobrada tarifa para o cadastro (varia entre R$ 9,99 e R$ 180);
- juros a partir de 1,79% ao mês (não informou o valor máximo), com valores e taxas de juros dependendo do produto e plano contratado;
- o Custo Efetivo Total máximo por ano depende do prazo e do valor, mas é a partir de 28,21% ao mês (não informou o valor máximo);
- Pagamento do empréstimo pessoal em até 36 vezes (para quem recebe INSS, em até 72 vezes), com primeira parcela em até 30 dias;
- É possível fazer um novo empréstimo antes do pagamento total. O limite é avaliado na análise de crédito.

Marisa

São anunciados em alto-falante na loja e em panfletos empréstimos de até R$ 3.000, com pagamento em até 12 vezes e a primeira parcela em até 75 dias.

Os empréstimos são feitos por meio da Sax Financeira, empresa do Grupo Marisa. Segundo informações do BC, a Sax cobra juros de 13,06% ao mês (336,33% ao ano), em média, no crédito pessoal não consignado.

A Marisa foi procurada por meio da assessoria de imprensa, mas não respondeu às perguntas do UOL. Em nota, disse que as taxas e valores praticados são condizentes com as do mercado e que há taxas "diferenciadas para quem possui o Cartão Marisa ou para aquelas pessoas que já tenham realizado empréstimo pela Sax anteriormente".

Renner

A Renner atua em parceria com a financeira Alfa. Segundo informações do BC, a Alfa cobra juros de 11,82% ao mês (282,12% ao ano), em média, no crédito pessoal não consignado.

A Renner foi procurada por meio da assessoria de imprensa e respondeu que:

- É necessário ser cliente da Renner e ter renda mínima de um salário, mas a concessão do empréstimo está sujeita à análise de crédito;
- O limite pode variar entre R$ 150 e R$ 7.200, conforme avaliação de crédito;
- Na primeira contratação é cobrada a TAC (Tarifa de Cadastro), que varia de R$ 19,90 a R$ 121,99, conforme o valor sacado;
- Pagamento em até 12 vezes, com primeira parcela em até 60 dias;
- As taxas variam de cliente para cliente; vão de 4,99% a.m (79,38% a.a) até 14,90% a.m. (429,47% a.a.); o Custo Efetivo Total varia conforme as condições contratadas.

Riachuelo

É possível fazer "saques" (empréstimos) de até R$ 3.000 na hora, segundo panfleto disponível na loja, mas isso "está sujeito a critérios de elegibilidade"; depende também da renda mensal do cliente, segundo atendente da loja. O empréstimo é liberado três meses após cliente fazer cadastro na loja, segundo atendente. O valor deve ser pago em até 12 vezes, com a primeira parcela em até 70 dias.

Simulação presente em panfleto da loja diz que um saque de R$ 500 pode ser pago: em 6 vezes de R$ 115,78, em 9 vezes de R$ 90,18 ou em 12 vezes de R$ 78,23. Na simulação do panfleto da loja, um saque de R$ 3.000 pode ser pago: em 6 vezes de R$ 694,69, em 9 vezes de R$ 541,10 ou em 12 vezes de R$ 469,38. O panfleto informa que as simulações estão sujeitas a aprovação, alteração de taxas e valores.

A loja atua em parceria com a Midway Financeira. Segundo informações do BC, a financeira cobra juros de 15,32% ao mês (453,09% ao ano), em média, no crédito pessoal não consignado.

A Riachuelo foi procurada por meio da assessoria de imprensa, mas não respondeu às perguntas do UOL.

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