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ONG dá aula para moradores de favelas aprenderem a lidar bem com dinheiro

Téo Takar

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Divulgação

    ONG Bem Gasto ensina conceitos básicos de educação financeira para jovens e adultos

    ONG Bem Gasto ensina conceitos básicos de educação financeira para jovens e adultos

A falta de habilidade do brasileiro em lidar com o dinheiro e usá-lo de forma consciente estimulou um grupo de jovens universitários a montar um projeto para ensinar os conceitos básicos de educação financeira principalmente para jovens e adultos carentes. Tudo de graça e para quem estiver disposto a aprender.

O Bem Gasto surgiu há cinco anos como uma entidade estudantil dentro da universidade Insper, mas ganhou vida própria recentemente, tornando-se uma organização sem fins lucrativos. A ideia do projeto não é simplesmente ensinar a economizar. A proposta é mostrar como a educação financeira pode ajudar as pessoas a realizar sonhos e até transformar a vida.

Somente no ano passado, a entidade ensinou educação financeira para mais de 860 pessoas, a maioria adultos e jovens de baixa renda, moradores de favelas e que frequentam cursos supletivos. Neste ano, a meta é chegar a 1.200 pessoas. As aulas são ministradas sempre em espaço cedido pelo parceiro, como escolas e salão de entidades. Cabe à entidade parceira reunir os alunos interessados.

Para alcançar o maior público possível, o Bem Gasto se baseia no conceito de formação de multiplicadores, ou seja, capacita pessoas a dar aulas para que elas ensinem em suas comunidades os conceitos básicos de finanças, utilizando a metodologia e o material didático desenvolvido pela entidade, em uma linguagem que seja acessível a quem assiste às aulas.

Entidade utiliza três apostilas no curso

O projeto do Bem Gasto consiste basicamente em uma metodologia de ensino. Com ajuda dos estudantes, de professores da área de finanças e de pedagogos, a entidade desenvolveu três apostilas.
  • Orçamento Familiar: explica como as pessoas devem controlar as despesas de casa, incentivando a participação de todos os membros da família e ainda ajudando a estabelecer metas, como a compra de um carro ou de uma casa.
  • Lidando com Dinheiro: ensina conceitos básicos de economia, como inflação e juros, explica a diferença entre o juro "bom", de uma aplicação financeira, e o juro "ruim", como o do rotativo do cartão de crédito.
  • Negociação e Direitos do Consumidor: ensina a pechinchar nas compras, saber negociar salários, entender a importância de um contrato e como exigir seus direitos.

"Essas apostilas são ensinadas em três aulas, com duração de duas horas cada. Temos ainda uma versão enxuta desse material, o aulão, que é dado em três horas quando a entidade onde a gente vai dar aula não dispõe do tempo necessário para o programa completo", relata Eduardo Mesquita, presidente da entidade.

Além desse material, o Bem Gasto também desenvolveu uma apostila específica sobre investimentos, voltada às pessoas que já aplicam os conceitos de educação financeira no dia a dia. "Ela é um complemento do nosso curso, explicando como funciona cada produto, as principais diferenças, além da questão do imposto de renda."

Educação para melhorar o futuro

Aluno do quinto semestre do curso de economia do Insper, Eduardo Mesquita, de 25 anos, cita a própria experiência pessoal como um exemplo de como o uso correto do dinheiro pode transformar o futuro. Nascido em uma família de baixa renda, morador de Pirituba, na zona norte de São Paulo, Mesquita começou a trabalhar aos 14 anos. Foi no seu primeiro emprego que começou a se interessar por finanças e aprendeu a poupar.

"Pesquisei sobre o assunto e estabeleci uma meta para mim. Queria juntar grana suficiente para poder ficar seis meses sem trabalhar e me dedicar aos estudos. Assim, conseguiria entrar em uma boa universidade", diz.

Mesquita entrou no Insper e, na época, conquistou uma bolsa de estudos que cobria 80% da mensalidade, de R$ 4.000. "As bolsas de 100% já tinham acabado, mas eu não desisti. Eu me virei para bancar a diferença, estudei bastante, tirei boas notas e conquistei a bolsa de 100% no segundo semestre."

No Insper ele conheceu o projeto do Bem Gasto e abraçou a ideia, como forma de passar sua experiência pessoal adiante e ajudar outras pessoas carentes a também realizar seus sonhos. Hoje, a entidade que ele preside conta com cerca de 50 voluntários.

"Tem estudantes do Insper e de outras faculdades, da Escola Politécnica, do Mackenzie, da ESPM, da PUC. E também tem gente do mercado financeiro, que gostou do projeto e está nos ajudando."

Cursos para crianças, casais e empreendedores

Mesquita diz ainda que o Bem Gasto reformulou recentemente o material para ensinar educação financeira também para as crianças. "É o mesmo conteúdo, mas com uma linguagem adequada, que busca instigar a criança a saber como usar o dinheiro. Desenvolvemos uma dinâmica em que a criança ganha um caderno para encapar. Ela tem uma variedade de opções para fazer isso. Ali ela aprende a usar o dinheiro da melhor forma", relata o presidente do Bem Gasto.

"É importante que as pessoas entendam que educação financeira não é só guardar dinheiro. É gastar bem, ter um objetivo. É isso que esses jovens do Bem Gasto estão ensinando para as pessoas", diz o professor do Insper Ricardo Rocha, um dos apoiadores do projeto.

Além do curso para crianças, o Bem Gasto está finalizando outras duas novidades para este ano. Uma delas é "Como se virar na crise", uma apostila específica sobre empreendedorismo, para ajudar as pessoas a desenvolver habilidades para pequenos negócios, gerar uma renda extra e formalizar a abertura da microempresa.

A outra novidade será um curso de finanças voltado especificamente para casais. "Desenvolvemos o material com ajuda do consultor Gustavo Cerbasi. A apostila foi toda baseada no livro de sucesso dele, 'Casais inteligentes enriquecem juntos'. Acreditamos que esse material poderá ser ministrado, por exemplo, em igrejas, para casais que estão fazendo o curso de noivos", afirma Mesquita.

Em busca de apoio para ajudar mais gente

Segundo Mesquita, a ideia agora é buscar novas parcerias, com ONGs, escolas, empresas e igrejas, para que o Bem Gasto possa ajudar mais gente e também chegar a outras cidades, além da Grande São Paulo. "Já fizemos parcerias com o Liga Solidária, de Pinheiros, e o Gerando Falcões, de Poá (SP)."

O Bem Gasto não possui sede própria e utiliza as salas do Insper para realizar reuniões com os voluntários e interessados no projeto. A universidade também ajuda a entidade com uma cota de papel para impressão das apostilas que são utilizadas nos cursos de educação financeira.

"O Insper nos ajuda bastante, mas precisamos de patrocínio para arcar com os custos da ONG e conseguir ampliar o número de multiplicadores do nosso conteúdo", diz Mesquita. Interessados em adotar a ideia ou levar o projeto para sua comunidade podem entrar em contato pelo e-mail ou pelo site do Bem Gasto

Onde encontrar:

Bem Gasto: www.bemgasto.org

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