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Correr riscos para ganhar dinheiro é tendência que ficará, diz associação

Presidente da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais), Carlos Ambrósio - Divulgação
Presidente da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais), Carlos Ambrósio Imagem: Divulgação

João José Oliveira

do UOL, em São Paulo

02/02/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Investimentos em ações e multimercados foram recordes em 2019, enquanto renda fixa perdeu recursos
  • Presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais diz que busca por aplicações de risco vai acelerar
  • Agentes autônomos são fundametais no crescimento do mercado, diz Anbima, mas regulação da profissão precisa ser ajustada

A migração de recursos dos investidores das aplicações mais tradicionais para produtos mais arriscados, como fundos de ações e fundos multimercados, veio para ficar. Os juros baixos já mudaram o comportamento do brasileiro em relação ao dinheiro, afirma o presidente da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais), Carlos Ambrósio.

A indústria de fundos de investimentos no Brasil encerrou 2019 com uma captação líquida de R$ 191,6 bilhões, mais do que o dobro registrado no ano anterior, de R$ 95,4 bilhões, levando o patrimônio total do mercado para R$ 5,414 trilhões.

A classe ações encerrou o ano com o melhor resultado anual ao bater captação líquida de R$ 86,2 bilhões, crescimento de 195% em relação a 2018. E os multimercados ficaram com o segundo melhor resultado em termos percentuais, ao registrarem entrada líquida de R$ 66,8 bilhões —crescimento de 37,3%. Já a classe renda fixa registrou saída líquida de R$ 69,3 bilhões, o pior resultado desde 2008. Ainda asism, essa categoria soma R$ 2,13 trilhões em patrimônio.

Para o líder da entidade que representa mais de 650 gestores de recursos, de grandes bancos a firmas recém-criadas, a disputa pelo cliente vai ficar cada vez mais acirrada, com avanço das empresas digitais e de novos produtos. Segundo ele, o brasileiro precisa buscar mais informação e incorporar a educação financeira como parte de sua formação.

Ambrósio, também sócio da Claritas Investimentos, diz que os agentes autônomos têm sido fundamentais na democratização dos investimentos no país, mas algumas questões da regulamentação precisam ser resolvidas, como a divisão entre o papel do agente e o do consultor.

Veja abaixo os principais trechos da entrevista.

UOL: 2019 foi histórico para os mercados, com a Selic caindo a 4,5%, menor patamar dos juros. Foi suficiente para fazer com que o brasileiro deixe de ser um aplicador conservador?

Carlos Ambrósio: O nível de juros em 2019 de fato estimulou mais pessoas a procurar produtos ou estratégias com um pouco mais de volatilidade, prazo mais longo, com a expectativa de ter um retorno maior. De fato, os juros têm um efeito no movimento de maior busca por retornos mais altos.

Mas a gente sempre ressalta que isso não quer dizer que acaba a alocação em renda fixa, que continua tendo uma parcela relevante no mercado. Isso significa que ainda existe um trabalho de educação financeira, de dar informações ao mercado. E isso é papel de todos os agentes de mercado, inclusive da Anbima.

Houve outros momentos em que o Brasil passou por uma onda de busca por ativos de maior risco. Dessa vez é um processo mais sustentável?

O que faz todo mundo acreditar que desta vez o movimento é mais sustentável é que a gente tem visto reformas estruturais que estão sendo feitas, e a consciência fiscal que vem crescendo e está hoje em um patamar ainda mais elevado. Mesmo estando em um momento econômico complicado, existe uma consciência muito grande da necessidade de manter esse ajuste fiscal.

Junto com isso, todo o mercado vem evoluindo. Você tem uma estrutura de indústria de fundos maior, mais regulação e educação financeira. Tudo isso junto leva a crer que estamos em um processo mais sustentável e duradouro.

Se tivesse que citar alguns dados do mercado capturados pela Anbima em 2019, quais seriam os mais relevantes em termos de mudança de padrão de comportamento dos investidores?

Tivemos um volume muito expressivo de alocação em ações, acima até de multimercados. Tivemos também investimentos em multimercados e resgates em renda fixa. O que deixa claro que estamos passando por um processo de realocação, saindo de renda fixa e indo para ativos de mais risco.

E ainda tivemos a questão das emissões das empresas, de ações e de títulos de dívida. Claro que tivemos o BNDES diminuindo a participação no mercado e abrindo espaço, mas o próprio mercado cresceu.

Se do lado da demanda a transformação do mercado já começou, o que pode dizer do lado da oferta? Os gestores estão conseguindo atualizar suas prateleiras de produtos às novas necessidades?

Sim, junto com o crescimento dos mercados de crédito e de ações, os gestores estão aumentando também a oferta. Os gestores estão com capacidade de oferecer e expandir produtos, mais até que no passado, quando havia produtos fechados. O mercado tem absorvido essa demanda.

Essas mudanças estão impactando também custos? O tema taxas de administração e de performance, por exemplo, ganhou espaço na agenda do setor?

A gente acompanha e dá transparência a esse mercado, que abre as taxas de administração. Eu, como gestor, posso dizer que sem dúvida as taxas de administração e de performance estão sendo observadas pelos gestores. É claro que há produtos de maior valor agregado que têm a necessidade de times de análise e pesquisa.

Tanto que no exterior, onde os juros são mais baixos que aqui, há taxas semelhantes às que temos aqui. Mas, sim, está havendo uma queda das taxas no mercado. O mercado está se ajustando.

Segundo dados da Anbima, na categoria renda fixa, por exemplo, a taxa de administração média cobrada nos fundos para aplicação inicial de até R$ 1.000 caiu de 3,65%, em 2010, para 1,93%, em 2019. Na categoria ações, a taxa média de administração nas carteiras do mesmo segmento de público, cedeu de 2,24% para 2,14% entre 2010 e 2019.

Esse caminho do mercado em direção a ativos de maior risco e a produtos de mais longo prazo demanda de investidores mais informações. Esse é um assunto que ainda precisa ser mais explorado?

Na associação, isso é um dos pilares: educação e informação. Fazemos pesquisas para conhecer o perfil do investidor, além da formação do profissional. Já temos mais de 500 mil profissionais certificados.

Um destaque é o crescente número de universitários já buscando esses cursos antes mesmo de entrar no mercado de trabalho. Isso mostra o interesse crescente das pessoas em ver a educação financeira como parte da formação.

Além disso, temos os agentes de mercado, gestores e distribuidores, que estão gerando educação financeira.

E como a entidade vê o papel crescente dos consultores e agentes autônomos no mercado?

Sem dúvida nenhuma, as plataformas e os agentes autônomos foram, são e continuarão sendo importantes nos processos de democratização e acesso aos investimentos.

O desenho do agente autônomo, que vem lá de trás, quando era uma função mais de intermediário, já se expandiu para além dessa intermediação, o que demandou a questão da audiência pública que aconteceu ano passado e que a gente acompanha de perto para ver a evolução desse processo.

A gente entende que existam ajustes a serem feitos: o que está atrelado à função do consultor, as delimitações entre os papéis de um e de outro. Como vai ficar essa divisão. Isso vai ser definido pelas regras da CVM.

A Anbima vê um cenário em que o número de gestores deve seguir crescendo, com uma participação crescente das plataformas digitais?

Sim. Esse é um processo antigo. A Claritas, da qual eu faço parte, já completou 21 anos. Hoje já temos 650 gestoras, entre aderentes e associados. Eram 608 em 2018 e 568 em 2017. Primeiro veio a gestão independente, e hoje vemos a distribuição seguindo o mesmo caminho. Só reforça esse processo.

O tema concentração de mercado preocupa?

A gente viu uma grande empresa chegando na distribuição quando o mercado era dominado pelos grandes bancos. O mesmo ocorreu com a gestão independente. Não houve resistência. A distribuição sempre foi muito concentrada nos grandes bancos, quando veio uma nova empresa. Obviamente, vão surgir outras. Já estão vindo. Os líderes sabem disso.

Eu não diria que tem que haver uma preocupação especial com uma empresa. A nossa preocupação tem que ser se todas as condições necessárias para a livre concorrência estão dadas. Se não existe nenhuma restrição que impeça esse surgimento da concorrência.

Há algum bloqueio para a concorrência? Não? Então quem quiser disputar o mercado que venha. Quem quiser empreender pode empreender.

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