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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A taxa de juros subiu! O que você fez depois da notícia pode te prejudicar

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Valter Police

Valter Police

Planejador Financeiro CFP(R), é o Head da Academia Fiduc, além de administrador de carteiras registrado na CVM.

05/04/2021 04h00

Tratando de investimentos, todos temos uma característica psicológica que nos impele a "fazer algo", quando uma coisa nova acontece. O dólar caiu, a Bolsa subiu, o nióbio (um tipo de metal) se valorizou, o bitcoin despencou, entre tantas outras notícias que vemos diariamente causam na maioria de nós uma "pulga atrás da orelha" que diz bem baixinho: "preciso rapidamente fazer algo por causa dessa informação".

Isso ocorre porque nosso cérebro evoluiu para nos proteger das ameaças que tínhamos, como tigres dente-de-sabre ou terremotos e, para isso, desenvolveu mecanismos de respostas rápidas que são atalhos mentais (heurísticas) muito úteis em situações de vida ou morte, quando cada fração de segundo conta. No entanto, essas características não apenas não ajudam, como atrapalham bastante quando o assunto são nossos investimentos financeiros.

As finanças comportamentais estudam esses fenômenos, e são muitos os exemplos nos quais as heurísticas impregnadas em nossa mente e os vieses comportamentais daí gerados provocam danos importantes em nossos patrimônios.

Podemos citar alguns comportamentos como a aversão a perdas, que nos faz evitar riscos de perder dinheiro, mesmo que isso signifique não alcançar nossos objetivos. O tamanho do estoque de recursos na caderneta de poupança é um ótimo exemplo desse viés comportamental.

Outro comportamento famoso é o "efeito manada", por meio do qual nós tendemos a seguir o que outras pessoas fazem, inclusive em investimentos, afinal, "se é popular, deve valer a pena". O problema é que a "multidão" está frequentemente errada, como provam as diversas bolhas pelas quais os mercados financeiros passam.

Mas a heurística sobre a qual eu gostaria de falar nesse texto é a da "disponibilidade". Nós temos a tendência de sobrevalorizar informações recentes, porque elas estão mais disponíveis em nossa memória.

Um exemplo clássico é quando ocorre a queda de um avião comercial e passamos a ter uma sensação de que viajar de avião é mais arriscado do que as estatísticas mostram. Isso pode ser medido porque as vendas de passagens aéreas caem nesses momentos, indicando que muitas pessoas trocam seu meio de transporte, migrando para algum que, na verdade, é mais arriscado.

Isso ocorre porque as notícias sobre o acidente estão em toda parte e, assim, damos a elas uma importância demasiada em nossas análises feitas por atalhos mentais.

No mercado financeiro, notícias de queda nos ativos nos levam a ter a sensação de que os preços vão cair indefinidamente, o que nos direciona a sair (vender) desses investimentos. O inverso também é verdadeiro: quando os preços dos ativos estão subindo, a sensação de que vão continuar assim nos impele a entrar no mercado. A conclusão é que, em geral, compramos investimentos caros e vendemos baratos, quanto mais fortemente essa heurística age em nossas mentes.

Diversos estudos demonstram que, quando agimos com emoção ou com nossos instintos para o assunto investimentos, nos damos muito mal. A gestora americana Fidelity acompanhou as carteiras de seus milhares de clientes por décadas e descobriu que as carteiras com as melhores performances foram aquelas nas quais os clientes "esqueceram" que tinham os recursos. Por causa disso, eles não mexeram nos investimentos a cada mudança do mercado, e isso fez com que as carteiras não sofressem com as compras caras e vendas baratas.

Agora vamos voltar ao título do artigo. A Selic subiu! O que eu faço agora? A resposta mais honesta e assertiva também é a mais simples: absolutamente nada! Embora completamente contraintuitiva, não fazer nada é a melhor opção na maior parte das vezes em que o mercado (juros, Bolsa etc.) se mexe para um lado ou para o outro.

Vejamos: a Selic estava em 2% ao ano, o que significa um juro real (quando descontamos a inflação) negativo, da ordem de 3% ao ano. Com a alta da Selic, o retorno real permanece negativo, embora em menor magnitude, mas isso não muda a essência dos investimentos atrelados à taxa básica de juros.

Esses investimentos devem ter como foco alta liquidez e grande previsibilidade, funcionando muito bem como reserva de emergência, mas muito mal quando o objetivo do investimento requer retornos reais positivos, como os de sua reserva para a aposentadoria.

Assim, o ideal é que não tomemos decisões de investimento baseados no dia a dia dos mercados e sim em nossos objetivos e perfil, preferencialmente com auxílio de profissionais que podem montar carteiras com boa diversificação, esta sim, uma ótima regra dos bons investidores.

Tenha um plano de investimentos que vá ao encontro de seus objetivos e se atenha a ele. Faça aportes periódicos e, de tempos em tempos, faça também rebalanceamentos em sua carteira. Conte ainda com profissionais de sua confiança, que tenham excelência em seus serviços prestados e, preferencialmente, tenham interesses alinhados aos seus. Esses são os verdadeiros segredos do sucesso dos bons investidores.

Este material é exclusivamente informativo, e não recomendação de investimento. Aplicações de risco estão sujeitas a perdas. Rentabilidade do passado não garante rentabilidade futura.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL