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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Evergrande: como a crise da empresa chinesa afeta os seus investimentos?

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Lucas Elmor

Lucas Elmor

Sócio-diretor de Gestão da Hectare Capital, formado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Juiz de Fora e Chartered Financial Analyst pelo CFA Institute, com experiência em estruturação e gestão de investimentos nos setores de logística, agronegócio, energia e imobiliário.

18/10/2021 04h00

Setembro foi mais um mês marcado por grande turbulência nos mercados financeiros mundiais. Além dos temas recorrentes, como covid e pressão inflacionária global, temores sobre a incapacidade da Evergrande, maior incorporadora chinesa, de honrar o pagamento de dívidas tomaram conta dos investidores e geraram forte volatilidade.

Mas, afinal de contas, por que um problema financeiro em uma empresa na China tem impacto tão grande nos investimentos mundo afora, inclusive no Brasil? É o que vamos tentar descobrir a seguir.

Leia abaixo o artigo completo.

A Evergrande é uma incorporadora chinesa, com sede na região de Guangdong, que apresentou crescimento vertiginoso nos últimos anos, impulsionada pelo avanço da economia chinesa, sobretudo pelo movimento de migração da população do campo para as cidades.

Esse êxodo rural gera demanda por novas moradias nos centros urbanos, e a companhia estava no lugar certo na hora certa para se beneficiar dessa oportunidade de mercado. Até aí, não há nada de errado, muito pelo contrário.

Para entrarmos no problema em si, é necessário entender a dinâmica de funcionamento desse mercado.

Grandes incorporadoras com foco em empreendimentos residenciais, no Brasil e em qualquer lugar do mundo, normalmente realizam a venda das unidades habitacionais com longos prazos para pagamento pelo comprador, ou seja, recebem a parte mais expressiva das parcelas somente após a entrega das chaves.

Por outro lado, as obras (e os grandes valores associados) são normalmente executadas em um prazo de dois a três anos, fora todos os custos prévios de aquisição dos terrenos, aprovações legais, projetos, etc.

Como resultado, essas incorporadoras estão inseridas em um mercado intensivo em capital e com forte descasamento temporal de fluxo de caixa, em que os gastos expressivos ocorrem muito tempo antes da entrada do dinheiro no bolso.

Para resolver esse problema de fluxo de caixa, essas companhias acessam o mercado de capitais e fazem financiamentos para cobrir parcial ou totalmente os custos de obra e, assim, viabilizar os negócios.

O problema não está no endividamento em si, mas na materialização dos riscos envolvidos quando os instrumentos de financiamento são utilizados além dos níveis considerados prudentes.

No caso da Evergrande, o índice elevado de alavancagem financeira resultou em muitas obras entregues, mas, em boa parte dos casos, um desempenho fraco de vendas, fazendo com que a companhia chegasse a um momento de dificuldades para pagar suas dívidas, pois não havia caixa suficiente entrando da venda de apartamentos.

Voltamos então à pergunta original: Por que as dificuldades financeiras de uma empresa na China têm um impacto tão grande no mundo todo?

Antes de tudo, não se trata de uma incorporadora qualquer. A companhia é uma das maiores em um dos maiores mercados de desenvolvimento imobiliário residencial do mundo e detém nada menos do que US$ 300 bilhões em financiamentos. Um "default" [calote] da dívida em um volume tão alto de recursos tem capacidade de afetar os resultados de vários bancos, gerando uma diminuição da liquidez do mercado de crédito global.

Além disso, o maior receio a médio e longo prazo estava concentrado nos temores de uma desaceleração ainda mais significativa da economia chinesa, atualmente a maior locomotiva da economia global.

Desaceleração da China, entre outras coisas, significa diminuição da exportação de commodities agrícolas e minérios, produtos de grande relevância na pauta de exportação brasileira e, consequentemente, menor crescimento da economia do Brasil também.

Em momentos de incerteza como esse, investidores demandam maior retorno dado o risco incorrido e/ou realocam seus recursos em produtos de baixíssimo risco, tais como os títulos do Tesouro norte-americano, à espera de oportunidades de compra de ativos com preço baixo. Além disso, eles reagem a cada notícia positiva ou negativa recebida, gerando volatilidade nos mercados.

A solução para os problemas da Evergrande ainda está longe do final, mas à medida que algumas alternativas, tais como renegociação de dívidas e vendas de ativos, foi ganhando corpo ao longo do mês de setembro, o receio dos investidores foi diminuindo, o preço dos ativos se estabilizou e a volatilidade diminuiu.

Contudo, os riscos ainda permanecerão no radar por um bom tempo ainda, o que pode gerar boas oportunidades de compra para os investidores com perfil arrojado.

Este material é exclusivamente informativo, e não recomendação de investimento. Aplicações de risco estão sujeitas a perdas. Rentabilidade do passado não garante rentabilidade futura.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL