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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Construção civil: setor cresceu rápido demais? Veja ações

Construção civil: é um setor complicado para o momento, recomendado apenas aqueles investidores que têm estômago - ilkercelik/iStock
Construção civil: é um setor complicado para o momento, recomendado apenas aqueles investidores que têm estômago Imagem: ilkercelik/iStock
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Felipe Bevilacqua

14/10/2021 09h58

Hoje comentaremos sobre prévias de resultados operacionais divulgadas pela XP (XPBR31) e por algumas incorporadoras de imóveis.

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Confira a seguir a análise de Felipe Bevilacqua, analista e sócio-fundador da casa de análise Levante Ideias de Investimento. Todos os dias, Bevilacqua traz notícias e análises de empresas de capital aberto para você tomar as melhores decisões de investimentos. Este conteúdo é exclusivo para os assinantes do UOL.

XP apresenta prévia operacional do trimestre

A XP Inc (XPBR31) publicou a prévia operacional do terceiro trimestre do ano. Os números vieram bons em termos de expansão da carteira de crédito e de captação líquida de ativos. Mesmo assim, as ações "XP" listadas na Nasdaq recuaram em Nova York.

A companhia fechou o trimestre com R$ 8,6 bilhões na carteira de crédito, um crescimento de 122% na comparação anual. A inadimplência superior a 90 dias segue virtualmente igual a 0%. E o volume transacionado pelos cartões de crédito foi de R$ 3,3 bilhões, uma expansão de 55% na base trimestral.

A XP encerrou o trimestre com R$ 789 bilhões em ativos sob custódia, queda de 3% em relação ao segundo trimestre. A captação líquida ajustada até foi positiva: R$ 37 bilhões, ou seja, média mensal superior a R$ 10 bilhões. Contudo, o fraco desempenho do mercado remarcou o volume sob custódia para baixo. O total de clientes aumentou em 5%, alcançando a marca de 3,3 milhões. Também houve uma adição bruta de 1.188 AAIs (agente autônomo de investimento), mesmo patamar do segundo trimestre.

A prévia operacional da XP veio sólida e positiva, mantendo a companhia na sua trajetória de crescimento. O resultado completo do terceiro trimestre deve confirmar o bom momento operacional da companhia. Acreditamos que a queda das ações de quase 5% na terça-feira (12) ocorreu por conta da ausência de uma "grande surpresa". Além disso, a queda no indicador de ativos sob custódia pode ter desagradado o mercado, embora avaliemos como um fator exógeno decorrente da marcação no preço dos ativos.

Segundo Thiago Mafra, CEO da companhia, mesmo estando ainda em um estágio inicial em relação às iniciativas do Banco XP, os dados indicam um alto potencial de "cross-selling" (venda de mais de um produto ao mesmo cliente) dentro da plataforma. O objetivo da companhia é aumentar o engajamento dentro de sua atual base de clientes de forma a entregar uma experiência completa e integrada.

Além disso, mesmo com um cenário mais desafiador, com taxas de juros subindo no Brasil, o modelo de negócios diversificado da XP e a indústria financeira ainda fortemente concentrada no país permitem um crescimento saudável dos principais indicadores de desempenho da empresa.

Aos poucos, os novos serviços bancários ganham robustez e, em breve, devem ganhar relevância no mix de produtos. A captação de ativos no varejo, atividade central da XP, segue firme, com média mensal de, aproximadamente, R$ 10 bilhões a R$ 12 bilhões.

O Voo de Ícaro das construtoras

Após quase uma década de crise no setor imobiliário (2013-2019), que seguiu o boom de lançamentos e IPOs (oferta inicial de ações, na sigla em inglês) em 2007, parecia que finalmente o cenário iria mudar.

O ano de 2019 começou a todo o vapor, as construtoras aproveitaram o momento de juros baixos, inflação controlada, demanda reprimida e lançaram literalmente um projeto atrás do outro. As empresas já listadas foram atrás de mais capital por meio de follow-ons (oferta subsequente de ações) e diversas companhias de menor porte fizeram IPO entre 2019 e 2020.

Mesmo o começo da pandemia não freou os lançamentos, que ao menos na cidade de São Paulo apareciam nos quatro cantos da cidade. Assim como na mitologia grega, Ícaro fica tão empolgado com as asas que lhe deram, não ouve os ensinamentos do pai para não ir tão alto (próximo do Sol) e acaba caindo porque as asas de cera derreteram.

Foi difícil prever o que iria acontecer, mas as ondas da pandemia que seguiram foram avassaladoras, e estamos vendo os efeitos na economia mais claramente agora. Será que as construtoras tentaram voar alto demais no biênio 2019-2020?

Com desemprego subindo, queda na renda média familiar, inflação e juros altos, IGP-M (índice que corrige os preços dos aluguéis) batendo mais de 20%, problemas nas cadeias de suprimento e avanço nos custos provocaram uma tempestade perfeita para as construtoras, que passaram os últimos 2, 3 anos lançando empreendimentos sem parar.

As ações do setor na Bolsa já começaram a sofrer. As empresas estão sendo descontadas com a previsão de que há no setor uma verdadeira bomba relógio.

Os resultados do terceiro trimestre começam no fim do mês de outubro, mas as construtoras já começaram a soltar as prévias operacionais. Até agora, ainda não está claro qual vai ser o efeito desse cenário nas empresas. Olhando para o resultado da mais importante delas, a Cyrela (CYRE3), a companhia lançou três empreendimentos a menos do que no terceiro trimestre de 2020, mas com um VGV (valor geral de vendas) 33% maior, totalizando R$ 2,2 bilhões no período.

Um dado que merece atenção é que, mesmo com um VGV superior, as vendas contratadas no período foram 20% menores na comparação anual. Além disso, o indicador de VSO (vendas sobre as unidades ofertadas) caiu de 51,5% no terceiro trimestre de 2020 para 49,6% no terceiro trimestre de 2021.

A Moura Dubeux (MDNE3), construtora localizada no Nordeste, reportou resultados fortes no período, com um VGV lançado 52% superior ao do mesmo período no ano passado e vendas contratadas 16% maiores. Além disso, vale ressaltar que o nível de distratos por vendas brutas caiu de 8,7% para 7,2% na mesma base de comparação.

Ainda é cedo para concluir se a crise impactará da mesma forma que no pós-2007, até porque o brasileiro ficou quase uma década sem trocar de casa. Mas é importante ficar de olho nos distratos, no aumento dos juros e nos custos de matérias-primas.

Em outras palavras, é um setor complicado para o momento, recomendado apenas aqueles investidores que têm estômago e gostam de investir em empresas descontadas por um cenário macroeconômico ruim. Agora é esperar e analisar para ver se, novamente, as construtoras voaram perto demais do sol - assim como Ícaro.

Este material foi elaborado exclusivamente pela Levante Ideias e pelo analista Felipe Bevilacqua (sem qualquer participação do Grupo UOL) e tem como objetivo fornecer informações que possam auxiliar o investidor a tomar decisão de investimento, não constituindo qualquer tipo de oferta de valor mobiliário ou promessa de retorno financeiro e/ou isenção de risco . Os valores mobiliários discutidos neste material podem não ser adequados para todos os perfis de investidores que, antes de qualquer decisão, deverão realizar o processo de suitability para a identificação dos produtos adequados ao seu perfil de risco. Os investidores que desejem adquirir ou negociar os valores mobiliários cobertos por este material devem obter informações pertinentes para formar a sua própria decisão de investimento. A rentabilidade de produtos financeiros pode apresentar variações e seu preço pode aumentar ou diminuir, podendo resultar em significativas perdas patrimoniais. Os desempenhos anteriores não são indicativos de resultados futuros.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL