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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com inflação de 60,7%, Argentina é exemplo do que não fazer

Ferrantraite/Getty Images
Imagem: Ferrantraite/Getty Images

Rafael Bevilacqua

06/07/2022 09h34

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A crise na Argentina tem ocupado espaço de destaque no noticiário nas últimas semanas, especialmente após a renúncia de Martin Guzmán ao cargo de ministro da Economia do país, e a subsequente nomeação da economista heterodoxa Silvina Batakis para comandar a pasta.

Entre erros e acertos, Guzmán, que tomou posse em dezembro de 2019, havia sido bem-sucedido em renegociar a dívida externa argentina e evitar, ao menos em um primeiro momento, um novo calote.

Contudo, o ministro desagradou a vice-presidente, Cristina Kirchner, e protagonizou frequentes embates com a ala do governo mais alinhada a ela. Desgastado e pressionado por Kirchner e seus aliados mais próximos, Guzmán renunciou ao cargo em 2 de julho.

Batakis, a nova ministra, foi indicada por Kirchner, e sua nomeação revela a força da influência que a vice-presidente exerce sobre Alberto Fernández, atual chefe do Executivo. Passados dois anos de governo, fica evidente que a vice-presidente é quem tem a palavra final na Casa Rosada. Kirchner já foi presidente da Argentina.

Atualmente, a inflação na Argentina acumula alta de 60,7% nos últimos 12 meses, e, diferentemente do que ocorre em outros países, como o Brasil, não dá sinais de arrefecimento, mas sim de aceleração.

Recentemente, o governo anunciou uma nova elevação dos juros no país, para 52% ao ano, mas nem mesmo a taxa exorbitante tem sido suficiente para conter a alta dos preços. A situação da economia argentina é tão caótica, que os instrumentos convencionais de política monetária se mostram ineficientes na busca pela estabilidade de preços.

A desvalorização do peso argentino também chama a atenção, e tem tornado a população cada vez mais dependente do dólar. Na segunda-feira (4), após a renúncia de Guzmán, o dólar blue saltou de 239 pesos para 268 pesos. Em 2020, quando Fernández assumiu a presidência, a moeda norte-americana estava cotada a 74 pesos.

Os motivos por trás da catástrofe econômica que se abate sobre a Argentina são a irresponsabilidade fiscal, o aumento explosivo do endividamento e a letargia em propor e aprovar reformas estruturantes.

Explicando de maneira simples, o governo argentino sistematicamente gasta muito mais do que consegue arrecadar, e acumula um longo histórico de déficits fiscais que já dura décadas.

Ao longo da história, a Argentina já deu nove calotes em sua dívida, e um décimo calote parece inevitável diante da atual situação econômica da nação e das ideias defendidas pelo grupo peronista que atualmente ocupa o poder, inclusive pela nova ministra da Economia.

Em tempos nos quais a classe política brasileira luta contra a irresponsabilidade fiscal e pelo equilíbrio das contas públicas, a situação dos nossos hermanos nos lembra das consequências do descontrole dos gastos públicos e do populismo desenfreado.

Leia no 'Investigando o Mercado' (exclusivo para assinantes UOL, que possuem acesso integral ao conteúdo de UOL Investimentos): informações sobre a suspensão de uma decisão judicial que prejudicava Eletrobras e ISA-Cteep.

Um abraço,

Rafael Bevilacqua
Estrategista-chefe e sócio-fundador da Levante

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