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Por que as empresas estão desistindo de entrar na Bolsa de Valores?

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Vinícius Pereira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

15/04/2021 04h00

Apesar das expectativas de que 2021 registraria novo recorde no número de empresas entrantes na Bolsa de Valores, até agora o que se vê é o número de desistências crescendo. Segundo dados da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), 18 empresas cancelaram o pedido para comercializarem ações na Bolsa —os chamados IPOs (Oferta Pública Inicial de Ações, na sigla em inglês).

Por que as empresas estão desistindo de abrir capital?

A instabilidade política que o Brasil vive, em meio a crise causada pelo novo coronavírus (covid-19), é um dos motivos para que as empresas desistam do processo no meio do caminho. Mas não é o único motivo. Entenda o que dizem os analistas ouvidos por UOL.

Setores mais afetados pela pandemia são maioria

Da lista das 18 empresas que desistiram até agora de abrir capital na Bolsa de Valores, seis são do setor de Construção e quatro do Comércio, entre elas marcas conhecidas, como Kalunga, Wine e Tok&Stok. Esses dois setores estão na lista daqueles que mais foram afetados pela pandemia —por causa de interrupção de obras e fechamento de lojas.

Confira a lista completa das desistentes:

Desconfiança é motivador para desistência

A desconfiança de agentes do mercado em relação às discussões sobre o combate à pandemia, o Orçamento de 2021 e a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da covid-19 também motivam as empresas a esperarem mais antes de entrar na Bolsa de Valores.

Começamos a ver um momento similar com as incertezas do ano passado, pressionando as ofertas por aqui. Há a incerteza quanto à votação do Orçamento, se vai romper o teto de gastos ou não, por exemplo, e a incerteza em relação a uma possível CPI, que pode pressionar os ativos de risco por aqui.
Henrique Esteter, analista da Guide

"Essas discussões sobre o Orçamento, por exemplo, podem prejudicar questões relacionadas ao ambiente fiscal e, naturalmente, criar um ambiente menos favorável para se investir no país", completa o analista.

Para Jean Malta, economista da Valor Investimentos, as incertezas no radar aumentam as oscilações da Bolsa, ou seja, o quanto o valor de uma ação sobe ou cai em um determinado período, e fazem com que as empresas com mais tempo de mercado e com resultados mais robustos e previsíveis sejam mais atraentes para o investidor, em detrimento das novatas.

Nesse ambiente conturbado, fica pouco propício a entrada de novas empresas na Bolsa. Com a oscilação, as companhias já listadas, com um histórico de resultados, acabam representando melhores oportunidades do que participar de uma abertura de capital de uma empresa que está entrando agora.
Jean Malta, da Valor Investimentos

Preço da ação também é entrave

Um IPO serve para que a empresa possa captar dinheiro na Bolsa e utilizá-lo na própria operação. De acordo com Rodrigo Moliterno, chefe de renda variável da Veedha Investimentos, outro motivo para a desistência é justamente esse volume de captação esperado na abertura. Parte dessas empresas busca volumes financeiros considerados muito altos para o momento —o que também ajuda a encarecer o preço da ação.

Essas operações estão vindo ao mercado com preços muito altos. O investidor institucional, que é quem efetivamente determina o preço que o mercado está disposto a pagar por aquela ação, está achando os preços altos de forma geral. Apesar de o mercado estar buscando opções de investimento, mesmo com o cenário conturbado, os investidores estão querendo um prêmio [retorno] maior para entrar nesses IPOs.
Rodrigo Moliterno, da Veedha Investimentos

Estabilidade incentivaria entrada na Bolsa

Para que essas empresas retornem com seus pedidos à Bolsa, os especialistas ouvidos pelo UOL afirmam que o país precisa de mais estabilidade política para que os agentes possam estar mais confiantes nas empresas.

Precisamos que essas questões sejam resolvidas. Claro que o Brasil não será um país com condições econômicas maravilhosas nos próximos cinco ou dez anos, mas se fizer pelo menos o mínimo para se proteger de perdas acentuadas, se proteger de um endividamento maior, trará uma condição favorável para essas empresas se capitalizarem através da Bolsa.
Henrique Esteter, da Guide

Além disso, as empresas também esperam um ambiente tranquilo para convencer os investidores institucionais e os investidores pessoas físicas a toparem o risco de alocar dinheiro em empresas novatas.

É importante entender que o caminho de uma abertura de capital e todo o processo é caro para uma companhia. Muitas empresas preferem que o cenário estabilize para fazer uma abertura mais tranquila. Sabendo do apetite ao risco de investidores institucionais, que levam de 60% a 80% dos IPOs, naturalmente a empresa chegará mais próximo do valor de captação que ela deseja.
Jean Malta, da Valor Investimentos.

Este material é exclusivamente informativo, e não recomendação de investimento. Aplicações de risco estão sujeitas a perdas. Rentabilidade do passado não garante rentabilidade futura.