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Juros altos vão fazer dólar e poupança subir, como aconteceu em 2013?

Economistas apontam diferenças entre economia atual e o Brasil no ciclo de alta de juros de 2013 a 2015 que devem influenciar ativos do mercado - Getty Images
Economistas apontam diferenças entre economia atual e o Brasil no ciclo de alta de juros de 2013 a 2015 que devem influenciar ativos do mercado Imagem: Getty Images
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João José Oliveira

Do UOL, em São Paulo

28/06/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Taxa básica de juros volta a subir no Brasil pela primeira vez em mais de cinco anos
  • De abril de 2013 a agosto de 2015, ciclo anterior da alta da Selic, dólar subiu 82% e Ibovespa caiu 16,6%
  • Analistas dizem se o mesmo pode ocorrer agora, ou se o impacto dos juros no mercado será diferente

O Banco Central voltou neste ano a elevar a taxa básica de juros, a Selic, depois de cinco anos de queda ou estabilidade. A taxa, que estava em 2% ao ano, teve três altas seguidas e agora está em 4,25% ao ano. A maioria das projeções de profissionais de mercado feitas ao Boletim Focus aponta que os juros vão subir até 6,5% ainda em 2021.

Entre 2013 e 2015, quando também houve alta de juros, o dólar subiu mais de 80%, e a poupança avançou 17%. O que vai acontecer agora com dólar, Bolsa, fundos imobiliários e poupança? Vão subir ou cair? Onde vai valer a pena investir? Veja a seguir o que analistas preveem para isso.

A última vez em que o Brasil teve um ciclo de alta da taxa Selic foi entre abril de 2013 e agosto de 2015, quando os juros subiram de 7,25% para 14,25% ao ano.

A inflação oficial, medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), acumulou alta de 17,7% e vários indicadores de investimentos também mudaram de patamar.

O dólar comercial subiu 82,2%, o ouro avançou 38,4%, o Ifix (índice de fundos imobiliários da Bolsa) caiu 5,9% e o Ibovespa, principal índice de ações do Brasil, recuou 16,6%.

Veja abaixo a variação desses indicadores de mercado de 30 de abril de 2013 a 31 de agosto de 2015, segundo levantamento da empresa de informações financeiras Economatica para o UOL.

  • Dólar: +82,2%
  • Euro: +54,9%
  • Ouro: 38,42%
  • CDI: 26,9%
  • IPCA: 17,7%
  • Poupança: 17,4%
  • Ifix: -5,9%
  • Ibovespa: -16,6%

Diferenças na economia entre hoje e 2013

Economistas apontam algumas diferenças entre a economia atual e o Brasil no ciclo de alta de juros de 2013 a 2015 que vão influenciar também de forma diversa o mercado desta vez.

  • PIB: a economia brasileira estava iniciando em 2013 um ciclo de desaceleração que culminou com os dois anos de recessão, em 2015 e 2016.

Agora, o PIB está em recuperação. Essa reação, que vinha ocorrendo de forma lenta, desde 2017, foi afetada pela pandemia. A projeção dos economistas agora é a de que o PIB cresça 5% em 2021.

  • Dólar: a moeda norte-americana era cotada na casa de R$ 2,00 quando o Banco Central começou a elevar os juros, em abril de 2013. Segundo economistas, essa cotação estava abaixo do que o dólar deveria valer ante o real na época.

Hoje, dizem os especialistas, a cotação da moeda norte-americana deveria ser ao redor de R$ 4,60 levando em consideração os indicadores da economia brasileira em relação às economias de outros países.

  • Bolsa: depois de subir 82,6% e 2009 e bater 68.588 pontos, um recorde histórico até então, o Ibovespa começou a perder força e fechar 2015 em 43.319 pontos. O preço das ações refletia o desempenho fraco da economia e o cenário pessimista que havia naquele momento para os anos seguintes.

Hoje, o mercado acionário tem sustentado preços recordes em termos nominais, com o Ibovespa perto dos 130 mil pontos. Uma das maiores diferenças entre a Bolsa de hoje e a de 2013 é a quantidade de investidores pessoas físicas. Se antes os estrangeiros eram os principais responsáveis pelos movimentos da Bolsa, hoje esse papel é dividido com os aplicadores locais.

Qual o impacto dessa alta dos juros nos mercados dessa vez?

Por causa das diferenças existentes entre o Brasil atual e a economia brasileira em 2013, o movimento de alta dos juros este ano tende a ter impacto diferente sobre os mercados de investimentos, dizem profissionais de mercado.

Veja abaixo a variação de alguns ativos este ano, desde o início da alta da Selic, em março, até o último dia 21 de junho, segundo levantamento da empresa de informações financeiras Economatica.

  • Ibovespa: +10,8%
  • CDI: +0,67%
  • Ifix: -1,25%
  • Ouro: -7,1%
  • Euro: -10,3%
  • Dólar: -11,6%

Parece que estamos caminhando para uma história diferente agora do que ocorreu entre 2013 e 2015. Mas isso depende de até onde vai a Selic e com que velocidade isso vai ocorrer. Considerando as perspectivas de crescimento que temos hoje, se essas projeções atuais se confirmarem, com expansão do PIB este ano e ano que vem, podemos ver uma Bolsa mais forte e queda do dólar. Mas destaco que nunca enfrentamos uma saída de uma pandemia. É um fato novo, então vamos ter muita volatilidade.
Felipe Sichel, estrategista-chefe do banco digital Modalmais

Veja abaixo o que deve ocorrer com dólar, Bolsa, fundos imobiliários e aplicações de renda fixa nesse atual ciclo de aumento dos juros, na visão de profissionais de mercado ouvidos pelo UOL.

  • Sobre o dólar: diferentemente de 2013, o atual ciclo de aumento de juros acontece em um momento em que a moeda norte-americana está valorizada ante o real, portanto, com espaço para recuar.

O dólar está neste momento em espiral de baixa, influenciado principalmente pela alta dos juros no Brasil. Para quem tem investimento em moeda estrangeira por proteção ou como diversificação de carteira, vale continuar com essa posição. Dólar tem correlação negativa com Bolsa, ou seja, quando a Bolsa cai, o dólar costuma subir, e o contrário também acontece de maneira geral. E ainda temos no cenário incertezas no Brasil, com relação à questão fiscal, à crise hídrica e mesmo as discussões sobre eleições em 2022, tudo isso deve gerar volatilidade e impactar o câmbio.
Luis Politi, sócio de desenvolvimento da Consulenza Investimentos

O primeiro impacto da alta da Selic é no dólar porque a maior diferença de juros aqui em relação a outros países atrai investimentos. O que está acontecendo com a Selic é que ela está voltando à normalidade da economia brasileira, e isso tem impacto direto sobre o dólar, em um movimento que a gente acredita que deve continuar. Nossa projeção para o dólar para o fim do ano é de R$ 4,60.
Luigi Wis, especialista em investimentos da Genial Investimentos

  • Sobre a Bolsa: embora o Ibovespa esteja próximo a níveis recordes de pontuação em termos nominais, há fatores que justificam a manutenção da tendência de alta para as ações, dizem profissionais de mercado. A retomada da atividade econômica favorece o desempenho das empresas que têm ações cotadas em Bolsa, que potencialmente podem vender mais e lucrar mais com a alta da Selic.

Alta da Selic não é suficiente para tirar a atratividade da renda variável no Brasil. A gente não está recomendando reduzir renda variável para ir a renda fixa. Nós não recomendamos. Consideramos que a alta da Selic não é suficiente para tirar a atratividade da renda variável no Brasil.
Luigi Wis, especialista em investimentos da Genial Investimentos

A Bolsa brasileira também subiu menos que outros mercados de ações ao longo de 2020, o que abre espaço para uma correção este ano, inclusive com atração de investidores estrangeiros interessados em aplicar aqui.
Igor Seixas, sócio e chefe de alocação da Inove Investimentos

  • Sobre fundos imobiliários: a alta dos juros é negativa para o mercado de fundos imobiliários porque quanto maior o rendimento de aplicações de renda fixa, menor a competitividade dos dividendos proporcionados por carteiras com investimentos que aplicam em imóveis.

Por outro lado, o andamento da vacinação e a retomada da atividade econômica sem restrições, se confirmados, ajudam as atividades imobiliárias a retomarem suas receitas. Shopping centers, prédios de escritórios, hotéis e outros empreendimentos comerciais devem recuperar taxas de ocupação e a normalidade dos pagamentos dos respectivos inquilinos.

Quando os juros subiram entre 2013 e 2015, superando os 14%, isso afetou a rentabilidade dos fundos imobiliários. Isso não deve ocorrer agora porque os juros vão subir bem menos. Então os FIIs ainda vão ser atrativos para investidores interessados em renda variável porque devem seguir batendo aplicações tradicionais de renda fixa atreladas ao CDI.
Igor Seixas, sócio e chefe de alocação da Inove Investimentos
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  • Sobre poupança e outras aplicações de renda fixa: o desempenho de aplicações como poupança, títulos Tesouro Selic e fundos DI vai depender de até que ponto vai subir a Selic. As projeções hoje predominantes de agentes de mercado são de uma Selic na casa de 6,5% para uma inflação perto de 6% ao fim do ano.

Então essas aplicações voltarão a dar um rendimento capaz de proporcionar ao investidor um ganho real acima da inflação, ainda que com uma margem muito pequena.

O impacto da alta da Selic é positivo para aplicações de renda fixa porque teremos uma rentabilidade um pouco melhor. Mas é importante destacar que as características mais importantes desse investimento são mesmo a possibilidade de resgatar o dinheiro a qualquer momento e sem risco de perdas nominais. Olhando carteiras de longo prazo, o ciclo de alta dos juros favorece os títulos pós-fixados. Também vale aumentar a participação na carteira dos ativos que acompanham a inflação.
Sandra Blanco, estrategista-chefe da Órama

Este material é exclusivamente informativo, e não recomendação de investimento. Aplicações de risco estão sujeitas a perdas. Rentabilidade do passado não garante rentabilidade futura.