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MTST fez ato na Bolsa, em SP; mas ainda acontece alguma coisa lá?

Vista de painel do índice Ibovespa, principal indicador da Bolsa de Valores, a B3 - Renato S. Cerqueira/Futura Press/Folhapress
Vista de painel do índice Ibovespa, principal indicador da Bolsa de Valores, a B3 Imagem: Renato S. Cerqueira/Futura Press/Folhapress
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Matheus Adami

Colaboração para o UOL, em São Paulo

29/09/2021 04h00

Na última semana, manifestantes do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) ocuparam a sede da Bolsa de Valores brasileira, na região central de São Paulo. Apesar do ato, as negociações de papéis não foram influenciadas, porque, desde 2009, as operações acontecem eletronicamente. Não acontece mais nenhuma transação de compra e venda de ativos presencialmente.

Mas o que ainda acontece na sede da Bolsa? O UOL conversou com ex-operadores e profissionais do mercado financeiro para entender o que se passa efetivamente nos prédios centrais da B3, na praça Antônio Prado e na rua XV de Novembro, no centro de São Paulo. Veja abaixo.

'Salão de festas', museu e área administrativa

"Aquele espaço hoje é um salão de festas, não há nada técnico que vá atrapalhar as negociações", afirma Alison Correia, CEO da Top Gain e ex-operador viva-voz da então BM&F (Bolsa de Mercadorias e Futuros, uma das bolsas que deu origem a B3).

"Toda a infraestrutura tecnológica da Bolsa fica em Alphaville [em São Paulo]. Aquele espaço no centro é mais histórico. Tem um museu, há eventos quando tem IPO, lançamento de ETF, é mais simbólico", diz.

As fotos festivas de quando uma empresa estreia na Bolsa são tiradas lá, no salão onde aconteciam as negociações por telefone. Nessas fotos, há sempre um executivo batendo martelo, um gesto simbólico que indica o início das operações da empresa na Bolsa.

Para Eduardo Marzbanian, analista técnico da Wise Investimentos e com mais de 20 anos de trabalho em corretoras, o espaço físico da B3 ainda tem toda a parte administrativa da Bolsa.

"Tem uma parte administrativa. Toda a parte de operação está pulverizada nas corretoras, sem nenhuma intervenção humana, tudo eletrônico. Não há mais a parte de negociação, seja viva-voz ou eletrônica dentro da Bolsa", diz.

Áreas focadas em tecnologia também funcionam lá

Embora toda a infraestrutura tecnológica pesada esteja bem longe do centro de São Paulo, existem algumas áreas de tecnologia na sede, segundo o especialista, como o controle do sistema de liquidação —ou seja, a parte técnica que controla se deu tudo certo na efetivação de uma operação, seja de compra ou de venda.

"É preciso ver quanto cada corretora comprou durante o dia, quanto vendeu e fazer a liquidação [efetivar as operações]. Isso envolve muita gente. E há, também, a parte da custódia, que é a guarda das ações", afirma Marzbanian.

Toda a operação de compra e venda é feito eletronicamente, mas há uma área na Bolsa que controla se está tudo bem tecnicamente. O mesmo acontece para a custódia de ações.

Quando o investidor investe seja em títulos públicos, ações, fundos, a B3 cobra uma taxa de custódia. Na prática, o investidor está pagando a Bolsa para que ela cuide dos ativos que ele comprou. Essa gestão também é feita na sede, segundo os analistas e ex-operadores.

Há também profissionais que fazem análise de risco do mercado financeiro trabalhando lá, que avaliam diariamente como está o mercado, e uma área de produtos: que são os projetos da própria B3, como a parte educacional. Antes da pandemia, eram realizados cursos e workshops na sede.

Em resumo, na sede da Bolsa estão áreas burocráticas e de tecnologia: controle de liquidação, custódia de ações, análise de risco, produtos e área administrativa.

A reportagem entrou em contato com a B3, por e-mail e WhatsApp, para ter mais detalhes sobre a operação na sede, em São Paulo, mas a empresa não respondeu até a publicação desta reportagem. Assim que responder, este texto será atualizado.

Nos tempos do viva-voz

Se hoje a tranquilidade e o silêncio dão o tom nas negociações de ações e outros produtos financeiros, anos atrás o cenário era o de mais completo caos. Gritaria e gestos ao telefone eram características marcantes dos negócios fechados nas então vigentes Bovespa e BM&F.

Alison Correia foi operador, quando a compra e venda de ações eram feitas por telefone, na sede da Bolsa - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Alison Correia foi operador, quando a compra e venda de ações eram feitas por telefone, na sede da Bolsa
Imagem: Arquivo Pessoal

"Antigamente, no pregão viva-voz, todas as operações eram feitas no grito. Os compradores gritavam que estavam comprando, os vendedores gritavam que estavam vendendo. Quando se encontravam na mesma intenção de preço, fechavam negócio. O negócio era escrito numa boleta, que era passada para os auxiliares. Eles jogavam essa boleta num 'tobogã' e isso caía no sistema. Isso demorava entre 15 e 30 segundos para ser realizado", diz o peruano Alison Correia, de 36 anos, que trabalhou como auxiliar e, posteriormente, operador de pregão na BM&F entre 2003 e 2009.

José Simão Júnior, chefe da mesa de renda variável da Legend Investimentos, é outro que se recorda dos tempos de operador. Hoje com 45 anos, ele está desde 1995 no mercado financeiro, atuando em bancos e corretores. Diferentemente de Correia, Simão atuava na função de operador de mesa, uma espécie de intermediário entre o operador de pregão e o cliente final.

José Simão representava o investidor nas operações feitas na sede da Bolsa - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
José Simão representava o investidor nas operações feitas na sede da Bolsa
Imagem: Arquivo Pessoal

"Representava fisicamente o cliente que ficava por telefone. Na época eu atendia a clientes institucionais e, dependendo do barulho, você sabia que tinha acontecido alguma coisa. Não tenha dúvida de que alguns negócios foram mal executados [naquela época]. O processo não era tão transparente quanto o negócio eletrônico de hoje", afirma.

Simão conta que as mesas de operação ficavam nas corretoras, que na época ficavam no centro de São Paulo ou na avenida Paulista, e um sistema de transmissão conectava as corretoras aos operadores de Bolsa.

"Chamávamos de LP, linha programada, aqueles telefones vermelhos e amarelos que os operadores de pregão usavam. Naquela época, como intermediário, não podia errar uma ordem. Custava muito caro e você tomava um baita esporro do cliente. Era muito rápido. Era uma adrenalina", afirma.

Em 2005, a BM&F acabou com o pregão viva-voz. Em 1º de julho de 2009, já com a fusão da BM&F com a Bovespa, houve o fim definitivo do pregão por viva-voz.

Operador ainda é necessário?

Embora atualmente existam diversas corretoras que ofereçam o chamado home-broker para os clientes (sistema das corretoras usado pelos investidores para comprar e vender ações), os analistas afirmam que a profissão de operador está longe de ser extinta.

"Hoje ainda é comum compra e venda de ações com operador [das corretoras]. Muita gente se sente mais segura assim e o operador faz um papel também de assessoria. É um papel mais comercial e, ao mesmo tempo, de operação. Há cobrança. Pela mesa de operações é mais caro justamente porque o operador vai agregar valor nas operações, afirma Marzbanian, da Wise Investimentos.

Este material é exclusivamente informativo, e não recomendação de investimento. Aplicações de risco estão sujeitas a perdas. Rentabilidade do passado não garante rentabilidade futura.

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