De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), apenas 24,1% dos brasileiros consomem a quantidade mínima recomendada de frutas, legumes e vegetais, que é de 400 gramas por dia. Luiz Roberto Barcelos, diretor institucional da Abrafrutas (Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados), acredita que isto se deve a alguns fatores, como desvalorização da fruticultura nacional, preço do produto in natura e falta de percepção sobre a relação entre o consumo de hortifrúti e alimentação saudável. UOL - O Brasil é o terceiro maior produtor de frutas do mundo, mas o brasileiro come menos frutas do que o recomendado pela OMS. Por que você acredita que isso aconteça? Barcelos - Aqui no Brasil, a fruta in natura é mais cara do que alimentos ultraprocessados, e isso não faz sentido, por uma questão de preço e de saúde. A fruta brasileira chega ao supermercado com o preço elevado, por uma questão do desperdício, porque fruta feia, fora de um padrão visual, o pessoal não compra. Também tem a perda no transporte, em que a fruta não chega numa condição muito boa. Tudo isso gera perdas que refletem em um preço mais alto no final. Há também uma questão cultural, porque a gente sabe que as classes C, D e E comem pouca fruta e isso se perpetua de geração para geração, por isso temos que quebrar esse ciclo e falar dos benefícios para a saúde. UOL - Como você enxerga que é possível quebrar essa barreira? Barcelos - Essa é uma questão interessante, porque a gente precisa que o governo, enquanto Estado, utilize a verba de comunicação para campanhas de consumo e saudabilidade. O Brasil é um dos países que lidera o ranking de obesidade, então precisa haver uma campanha que envolva os ministérios da Agricultura, Desenvolvimento Social, Saúde, para que a população coma mais frutas. Defendemos que, investindo em campanhas, o governo economizaria no hospital, porque a população tende a ser mais saudável. As classes A e B têm mais conhecimento e acesso, mas não é realidade para todos. Outra questão é o tributo. A carga tributária para a fruticultura poderia ser menor. UOL - O quanto o fator logístico influencia na formação de preço? Barcelos - Os transportes são feitos por estradas, muitas vezes por estados longínquos. Além de fretes e pedágios, a cadeia de refrigeração nem sempre é adequada. Tem que ter políticas públicas incentivando condições adequadas para transporte, do contrário isso afasta o consumo da população. UOL - A fruticultura nem sempre está inserida nas grandes discussões do agronegócio. Por que isso acontece? Há uma oportunidade de fazer mais políticas públicas para a fruticultura? Barcelos - A fruta lá fora do país é muito mais valorizada. O setor aqui no Brasil é um pouco visto como "patinho feio". Por isso, a gente criou a Abrafrutas há dez anos, porque o próprio Ministério da Agricultura só via como agro as grandes commodities, a soja, o milho. Na fruticultura, segundo o IBGE, o Brasil planta 2,5 milhões de hectares de fruta e gera 5 milhões de empregos, ou seja, duas pessoas por hectare. Só perde o segmento de flores, que gera mais empregos por hectare. A soja, na média, gera um emprego a cada 200 hectares. Então, realmente, a fruticultura deveria ter uma atenção muito maior das políticas públicas. |