Bolsas

Câmbio

Comércio mundial é posto em xeque

Paris, 17 Mai 2016 (AFP) - Antes promissor, o comércio mundial se encontra na berlinda, sendo alvo crescente de críticas, como demonstram as bravatas de Donald Trump, as reticências de François Hollande com o Tratado Transatlântico, as dificuldades da OMC e a hostilidade crescente da opinião pública.

"Deveríamos nos alegrar com o fim da era dos tratados de livre-comércio, que há tempos se transformaram em apertos de mãos pelos interesses das empresas e dos investidores, deixando pouco espaço aos trabalhadores".

Essas palavras não foram extraídas de um manifesto altermundialista, mas do jornal The New York Times, e seu autor é Jared Bernstein, ex-conselheiro econômico do vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden.

Na opinião pública, esses acordos são cada vez mais impopulares, como demonstra a mobilização na Europa contra o projeto de Tratado de Livre-Comércio com os Estados Unidos (TTIP).

Nos EUA, o comércio internacional também não tem gerado muito entusiasmo.

"Oito anos depois da crise de 2008 e depois de 40 anos de estagnação das receitas médias das famílias americanas, as pessoas acordam e estão irritadas", explica à AFP o analista Nicholas Dungan, pesquisador do Atlantic Council, dos Estados Unidos.

Os dirigentes políticos não hesitam em aproveitar essa desconfiança para fazer campanha. O magnata Donald Trump, candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, tem feito da luta contra o comércio internacional um de seus cavalos de batalha, e não deixa de atacar o Nafta, tratado de livre-comércio assinado em 1994 com Canadá e com México.

"Não podemos continuar permitindo que a China viole nosso país", disse ele, recentemente, em um de seus discursos.

Hillary Clinton, favorita para obter a nomeação do Partido Democrata, também denunciou esses tratados: "no papel, parecem fabulosos", mas, na prática, não chegam "à altura" do que prometem.

Na Europa, o presidente francês, François Hollande, disse não ao TTIP no atual estágio das negociações.

Das antigas rotas da seda aos tratados de livre-comércio posteriores à Segunda Guerra Mundial, o comércio internacional foi visto como um vetor de paz, intercâmbio e progresso.

"O efeito natural do comércio é conduzir à paz", escreveu filósofo francês Montesquieu no século XVIII, fiel ao espírito da Ilustração.

- 'Relíquias' -"Entramos em um período, em que os acordos comerciais são cada vez mais controversos, mas é muito cedo para dizer se chegamos ao fim do livre-comércio, porque ainda estão sendo negociados tratados importantes", afirmou à AFP o professor David Torn, da Universidade de Zurique, e coautor de um estudo intitulado "A síndrome chinesa".

O documento atribui às exportações chinesas um quarto do retrocesso do emprego manufatureiro nos Estados Unidos de 1997 a 2007.

"Claro que isso cria o medo de que uma maior integração comercial possa conduzir à perda de mais postos de trabalho", explica.

"Chegamos a um estágio, em que se questiona o livre-comércio sem barreiras, que não leva em conta o meio ambiente", disse à AFP o professor Henri Landes, do Instituto de Estudos Políticos de Paris.

Segundo ele, esses acordos estão superados e devem se reduzir a "relíquias" para dar lugar a tratados que favoreçam mais "a economia circular e de proximidade". Do contrário, aponta Landes, "seremos obrigados em um dado momento a voltar ao protecionismo".

A desconfiança em relação a essas superestruturas comerciais não é exclusiva das massas populares e também é evidente em governos e instituições.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos