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Promessas do Rio olímpico são postas em xeque

Rio de Janeiro, 13 Jul 2016 (AFP) - Quando Rosa chega em casa na favela da Maré, reza, aliviada: ela trabalha de noite e para voltar a uma das comunidades mais perigosas do Rio de Janeiro conta com um serviço de ônibus agora reduzido. O legado olímpico ainda não bateu na sua porta.

Um sistema de transporte ampliado e moderno, novas avenidas, mais moradias sociais, escolas, segurança e espaços públicos renovados, como a moderna praça onde o arquiteto espanhol Santiago Calatrava construiu um museu fazem parte da prometida "cidade renovada e integrada" para os Jogos Olímpicos que começam no dia 5 de agosto.

No entanto, para pessoas como Rosa, faxineira de 50 anos que preferiu não dizer seu sobrenome, falta muito para se chegar a esse ideal de cidade. Na favela da Maré, onde ela vive, intensos tiroteios entre entre traficantes e policiais fazem parte da rotina dos moradores.

"A classe trabalhadora não se beneficiou com os Jogos", lamenta Rosa, contrariando o prefeito Eduardo Paes, para quem o megaevento "foi uma ótima oportunidade para transformar a cidade do Rio".

Transporte eficiente?A Prefeitura do Rio espera que em 2017 63% da população do Rio utilize o transporte público (contra apenas 17% em 2009) graças aos 16 quilômetros da nova linha de metrô que ligará os bairros de Copacabana e Ipanema, na zona sul, ao início da Barra da Tijuca, zona oeste), à construção de 156 quilômetros de corredores BRT e aos 28 quilômetros de rede de VLT que prometem interligar a cidade.

"O transporte é o maior legado por volume de investimentos e por quantidade de pessoas beneficiadas", disse Rafael Picciani em entrevista recente à AFP.

Os ônibus são atualmente o principal transporte de massa da cidade, utilizados por 37% da população, enquanto o metrô é usado por apenas 4%. Mas, ainda assim, a Prefeitura promoveu o que chama de "racionalização" das linhas de ônibus, unificando algumas e eliminando outras para reduzir o número de coletivos nas ruas.

Para Rosa, a mudança foi uma catástrofe, já que agora precisa esperar mais tempo no ponto de ônibus, demorando mais para chegar em casa.

O outro legado apontado pela Prefeitura, a ciclovia, que permitiria ir de Ipanema à Barra pela orla, pouco durou. Logo após a inauguranção, a pista foi temporariamente fechada depois que um trecho desmoronou ao ser atingido por ondas, matando duas pessoas.

Sensação de segurança?Cerca de 85.000 policiais e militares vão cuidar da segurança durante os Jogos Olímpicos.

E depois? É o que pergunta Rosa cada vez que o som dos tiros a lembra de que a violência continua presente.

Como muitas outras comunidades, a Maré foi ocupada primeiro por militares e depois pela polícia como parte do programa de "pacificação".

Mesmo que de forma discreta, os moradores dessas comunidades "pacificadas" garantem que o comércio de drogas nunca teve fim e que os traficantes nunca deixaram suas áreas. Hoje, a crise econômica ainda repercute no aumento da criminalidade e na menor atividade policial, piorando as coisas.

Nos primeiros cinco meses deste ano, foram registrados 2.083 assassinatos no estado de Rio, um aumento de 14% em comparação ao mesmo período do ano passado. O número de assaltos e os roubos de carro também estão em alta.

Mais esporte?Os Jogos Olímpicos deixarão para as próximas gerações as numerosas instalações construídas para o evento, com 60% de capital privado.

"Não fizemos elefantes brancos", comemorou Picciani, em clara referência à herança de estádios abandonados depois da Copa do Mundo de 2014.

No país do futebol, outra polêmica herança é o campo de golfe olímpico, construído em parte de uma reserva ambiental e que deverá se tornar público, embora poucos na cidade pratiquem o esporte típico da elite.

A Prefeitura diz que pretende licitar concessões para a exploração das arenas para eventos, e, ao mesmo tempo, para manter centros de esporte públicos.

Entre eles está o parque aquático de Deodoro, inaugurado no verão pelos moradores em meio ao forte calor.

No entanto, para milhares de pessoas, a maior festa do esporte mundial representou a perda de suas moradias. Entre 2009 - quando o Rio ganhou o direito de sediar os Jogos - e 2015, a Prefeitura desalojou 22.059 famílias, muitas removidas para lugares próximos às instalações olímpicas.

"Todos os que saíram (de suas casas) vivem melhor agora em projetos sociais", disse Picciani.

Mas o Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas denuncia uma verdadeira "limpeza social" de áreas com perspectivas de valorização imoibiliária com as novas obras.

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