Iemenitas tentam sobreviver sem salário em país em guerra

Sana, 27 Out 2016 (AFP) - "Decidi vender meus móveis para alimentar minha família", lamenta Abdullah Sarhan, que, como milhares de iemenitas, está há semanas sem salário.

A cada mês a situação piora para os habitantes de Sanaa, afetados por uma guerra que se eterniza e ameaçados de fome por falta de recursos financeiros.

Para os trabalhadores como Abdullah Sarhan, mas também para muitos aposentados, a situação se agravou em setembro, quando o Banco Central passou de Sanaa, controlada pelos rebeldes xiitas huthis, para a cidade de Aden (sul), "capital provisória" do governo do presidente Abd Rabo Mansur Hadi, que vive exilado em Riad.

O impacto em Sanaa e nas regiões em poder dos huthis foi imediato, com a interrupção dos pagamentos dos salários.

"Não temos nem mesmo comida, então como vamos pagar um aluguel?", pergunta Ibrahim Ahmed, outro trabalhador. Diante da impossibilidade de acertar os pagamentos atrasados, precisou instalar sua família na casa de seus pais, no campo.

Jamil Aûn foi obrigado a deixar sua profissão para trabalhar em uma fábrica de tijolos. "De alguma maneira é preciso ganhar a vida", afirma este ex-professor de filosofia da Universidade de Sanaa.

Seu colega Abdullah Muamar al Hakimi se dedica a vender khat, uma erva estimulante muito consumida no Iêmen.

"Vender khat (...) é melhor que mendigar ou ter as mãos sujas de sangue às custas do próximo", justificou no Facebook para anunciar aos seus estudantes o fim de suas atividades como professor de sociologia.

A suspensão do pagamento dos salários é o último sinal até a data da queda progressiva da economia do Iêmen, um país que já era o mais pobre do mundo árabe antes da guerra desencadeada em março de 2015 com a intervenção de uma coalizão árabe sob comando saudita em apoio ao governo "legítimo".

- Risco de fome -"É a medida mais grave devido ao seu impacto na vida cotidiana de sete a oito milhões de iemenitas. É o sinal de uma queda total da economia", adverte Mustafa Naser, diretor do centro de estudos e informações econômicas.

Naser convoca o governo de Hadi e os rebeldes a "consertar a situação", mas acredita que a crise de liquidez era anterior à decisão de transferir o Banco Central a Aden.

Segundo ele, "mesmo que a decisão não tivesse sido tomada, os huthis não teriam conseguido pagar os salários como faziam antes". O governo de Hadi acusa os rebeldes de ter esvaziado os cofres do Banco retirando até 1,8 bilhão de dólares para financiar seu esforço de guerra.

Uma campanha de arrecadação de fundos, lançada no mês passado pelos rebeldes para minimizar a ausência do Banco Central, só lhes permitiu "juntar em setembro e outubro 8 bilhões de riais, muito abaixo dos 75 bilhões de riais necessários para pagar os salários dos funcionários", explica o pesquisador.

"A ausência de alternativa" para cumprir com os compromissos com os funcionários, os militares, os aposentados e os pobres, que recebiam uma pensão mensal do Estado, "provocará uma grave recessão econômica e o caos total", adverte o especialista econômico Said Abdel Momen. "A catástrofe se vislumbra no horizonte".

Não há indícios de que a guerra, que deixou em 19 meses ao menos 6.900 mortos e 35.000 feridos, além de uma grave crise humanitária, vá terminar em breve.

O Programa Mundial de Alimentos (PAM) deu o alerta diante do risco de fome no país, com um dos índices de desnutrição mais altos do mundo desde antes da guerra.

Segundo o diretor-geral do PAM, Muhanad Hadi, "a fome aumenta a cada dia e as pessoas esgotaram todos os meios de sobrevivência. Milhares de pessoas não conseguem sobreviver sem ajuda externa".

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