Sem notas de 100 bolívares, venezuelanos esperam novas moedas e cédulas

Caracas, 16 dez 2016 (AFP) - Por enquanto elas só aparecem em fotos, mas os venezuelanos aguardam com avidez o início de circulação de novas moedas e cédulas de bolívar de maior valor, enquanto muitos fazem filas nos bancos em uma corrida contra o tempo para depositar as cédulas de 100, tiradas de circulação.

A retirada repentina em apenas três dias da nota de maior valor e circulação no país, determinada pelo presidente Nicolás Maduro para acabar com as supostas "máfias" que a teriam apreendido na fronteira colombiana, foi uma dor de cabeça para a população, que agora teme ficar sem dinheiro.

Maduro prorrogou nesta quinta-feira - por 72 horas - o fechamento das fronteiras com Brasil e Colômbia, vigente desde a noite de segunda-feira passada para combater as "máfias" que entram no país com as notas de 100 bolívares.

Embora o presidente tenha anunciado que a saída de circulação da nota de 100 bolívares (que vale 15 centavos de dólar na taxa oficial mais alta) coincidiria nesta quinta-feira com a progressiva entrada de um novo cone monetário, na capital antes do meio-dia não se via rastro das primeiras moedas prometidas de 10, 50 e 100 bolívares, nem tampouco das cédulas de 500.

De fato, boa parte dos caixas eletrônicos de Caracas só distribuíam notas de 100, embora desde a segunda-feira não sejam aceitas em muitas lojas.

"Não entendo qual é a piada! Quando você tira dinheiro nos caixas eletrônicos, ele te dá notas de 100 e dentro da agência também não se encontram as novas", dizia, irritada, Yarelis Carrero, funcionária de um escritório que, na primeira hora da manhã, foi a uma agência no leste de Caracas depositar suas últimas cédulas com a efígie do libertador Simón Bolívar.

"Ninguém viu as novas ainda, um conhecido que trabalha no transporte de valores me disse que eles tampouco viram. Pura mentira!", disse Saúl Bernal, também na fila do banco.

A inflação de três dígitos que a Venezuela enfrenta obriga os cidadãos a carregar montes de notas para comprar bens, muitas vezes escassos: são necessárias 50 notas de 100 bolívares para comprar um hambúrguer e um refrigerante em uma barraca de rua.

Este aumento descomunal do custo de vida levou o país a registrar nas últimas semanas uma severa falta de dinheiro, com longas filas em bancos e caixas eletrônicos, e a esta situação somou-se há duas semanas um colapso temporário da rede de pagamentos eletrônicos.

Na temporada natalina, os venezuelanos agora resgatam como se fosse ouro notas de 10, 20 e 50 bolívares que antes recusavam, enquanto comerciantes e prestadores de serviços restringem operações em dinheiro vivo.

Uma das principais frotas de táxis em Caracas, por exemplo, deixou de aceitar dinheiro temporariamente. Os passageiros devem fazer uma transação bancária pela internet, enviar o recibo eletrônico por e-mail e, só então, aguardar a chegada do carro.

Postos de gasolina também tinham longas filas nesta quinta-feira.

A partir da sexta-feira, só será possível trocar notas de 100 nas duas sedes do Banco Central da Venezuela (BCV).

Dólar cai no mercado negroAnalistas econômicos já tinham alertado que a entrega do novo cone monetário aos bancos sofreu atrasos e impossibilitaria responder à demanda de transações em dinheiro, apesar de o BCV ter assegurado que estava pronto para a mudança.

"Virão milhões e milhões de cédulas", prometia na semana passada Nelson Merentes, presidente do BCV, ao apresentar em público o novo cone monetário, que não é fabricado na Venezuela e deveria ser incorporado gradativamente em notas de 1.000, 2.000, 5.000, 10.000 e 20.000 bolívares.

Merentes assegurou que a velha e a nova família de cédulas e moedas conviveriam por algum tempo, mas o posterior ultimato de Maduro à nota de 100 lançou por terra este cenário.

O presidente assegurou que já teve nas mãos as primeiras moedas. "São muito bonitas", afirmou.

Se estas moedas e a nota de 500 - as primeiras a chegar, supostamente - não estivessem prontas na quantidade requerida esta quinta-feira, está prevista "uma paralisia das lojas pequenas e do comércio informal", disse à AFP Asdrúbal Oliveros, diretor da consultoria Ecoanalítica.

Até novembro, segundo cifras oficiais, 77,15% do dinheiro na Venezuela circulava em notas de 100.

Enquanto isso, o chamado dólar paralelo, que muitos empresários são obrigados a usar devido ao controle ferrenho do câmbio continuava caindo vertiginosamente nesta quinta-feira, o que o governo atribui à retirada das cédulas de 100 e ao fechamento das fronteiras com o Brasil e a Colômbia para evitar o reingresso destas notas supostamente apreendidas.

Em seu indicador extra-oficial, o site Dolar Today, a moeda americana passou em uma semana de 4.200 bolívares para 2.700 às 16h00 desta quinta-feira (horário de Brasília).

Oliveros tem outra explicação.

"O mercado financeiro está abalado porque o único que está fazendo agora é retirar a cédula de 100. E no mercado paralelo não há compradores, nem há vendedores, ninguém se atreve a movimentar grandes quantidades sob suspeita, sob pena de castigo. Quando isto se normalizar, vai se ver a reação da taxa de câmbio", avalia o analista.

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