"Marca Japão" cai em desgraça após escândalo Toshiba

Tóquio, 14 Mar 2017 (AFP) - Durante muito tempo, a Japan Inc. - as companhias japonesas - brilhou no mundo todo. Sua força residia em uma horda de funcionários dispostos a tudo por sua empresa, um sacerdócio que trouxe grandes sucessos, mas hoje provoca escândalo e desgraça.

Há uma sensação de fim de reinado com a queda ao inferno de uma grande marca centenária, como Toshiba, imersa em uma grave crise financeira e incapaz de anunciar nesta terça-feira seus resultados financeiros.

Os escândalos não são hoje mais numerosos no Japão que em outros países, garante Nicholas Benes, especialistas em empresas do Board Director Training Institute of Japan (BDTI), embora as motivações sejam diferentes.

"Em outros países, frequentemente o erro acontece pela ganância, no Japão é diferente: os dirigentes mentem e estão convencidos de que isso acontece pelo bem da empresa, é uma forma de lealdade mal entendida", diz.

Querem a toda custo "evitar uma humilhação à sue empresa", o que pode levar a "dissimular fatos, atrasar anúncios ou forçar os funcionários, como no caso da Toshiba, a realizar proezas impossíveis", explica Benes.

Os responsáveis por esse conglomerado pressionaram durante anos seus subordinados para maquiar -melhorando-os- os resultados, até a descoberta do escândalo em 2015. O mesmo aconteceu na Westinghouse, filial nuclear da Toshiba nos Estados Unidos, o que jogou o grupo japonês para a beira do precipício.

- Emprego vitalício -Nobutaka Kazama, professor na universidade Meiji de Tóquio, destaca também um "espírito de grupo" tipicamente japonês, produto do sistema de emprego para a vida toda, e que pode facilitar os escândalos.

A maior parte dos funcionários são contratados ao terminarem a faculdade e geralmente constrói toda sua carreira em uma empresa, subindo em função de sua antiguidade e não por seus méritos.

Quando tudo vai bem e não há crise, os negócios florescem. Mas com uma crescente concorrência internacional e a globalização, este rígido funcionamento é fonte de imobilismo, segundo os especialistas.

A isso de soma o estouro da bolha financeira nos anos 1990, a crise financeira de 2007-2009 e depois a catástrofe de março de 2011 no país (um terremoto, seguido de um tsunami que provocou um acidente nuclear).

Então surgem as pequenas trapaças para ocultar as dificuldades, graças também a trabalhadores muito dóceis: esconder os prejuízos (Olympus, Toshiba), dissimular um defeito (Takata e seus airbags defeituosos) ou falsificar dados (Mitsubishi Motors).

"Uma vez dentro, a pessoa permanece na mesma empresa muito tempo, portanto os códigos da empresa a impregnam", explica Kazama. No fim, um funcionário pode-se acostumar aos comportamentos mais duvidosos, explica.

- Abrindo-se ao mundo -A estagnação econômica das duas últimas décadas no Japão também agravou a situação econômica e estimulou a redução de custos. "Reduziu-se o número de responsáveis intermediários que se atreviam a falar claramente com os superiores", lamenta Kazama.

A solução? "Contratar de forma mais diversificada", opina Benes. E isso não só para trazer um pouco de rebeldia, como também para "atrair os melhores talentos e permanecer na corrida internacional".

O governo de Shinzo Abe, que deseja acabar com os velhos hábitos da Japan Inc., implementou em 2015 um novo código de governança empresarial, para submeter as empresas japonesas a uma supervisão externa objetivando maior transparência.

"Houve progressos, mas o caminho ainda é longo. Muitas empresas aceitam (esse código), mas só pela forma", sem resolver os verdadeiros problemas de fundo, constata este analista.

mis-anb/kap/jmi/me/ra/cc

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