Donald Trump, mais próximo do mercantilismo do que do protecionismo

Paris, 17 Mar 2017 (AFP) - O presidente americano Donald Trump, frequentemente acusado de ser protecionista, é também considerado um mercantilista pelos economistas, que não hesitam em se remontar ao século XVII para encontrar as influências de sua política econômica.

"Do ponto de vista comercial, sim, sua visão é mercantilista, mas um mercantilismo recondicionado", explica à AFP James Galbraith, professor de Economia da Universidade do Texas, referindo-se à ambição de Trump de reequilibrar la balança comercial de seu país.

O presidente americano estabeleceu como meta reduzir o déficit comercial de seu país, e acusa os países que vendem muitos produtos aos Estados Unidos enquanto compram pouco.

A China, classificada por Trump de "maior ladra da história" durante sua campanha eleitoral, lidera essa lista negra, onde também estão México e Alemanha, cujos superávits comerciais batem recordes.

Para isso, o presidente americano faz ameaças, como as impôr fortes tarifas alfandegárias às importações.

"Precisamente, o mercantilismo consiste em favorecer as exportações e proteger as fronteiras para limitar as importações e evitar que a riqueza deixe o país", ressalta Eric Berr, professor na Universidade de Burdeos.

Nos reinos onde o manual mercantilista foi aplicado, como a França de Colbert, e também a Espanha o Inglaterra, "a economia devia estar ao serviço do rei", lembra.

"Manter a riqueza no país servia para financiar um exército, o que permitia conquistar outros territórios e assegurar sua defesa", acrescenta Berr.

Responsável pelo Conselho de Comércio Nacional, recém-criado e dependente da Casa Branca, Peter Navarro manteve recentemente esse mesmo tipo de linguagem: "Por razões econômicas e de segurança, é importante reequilibrar o comércio americano", afirmou.

"Cada vez que há protecionismo, a tendência é, vendo as coisas de longe, dizer que se trata de mercantilismo", constata Jean-Yves Grenier, diretor de pesquisa da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (Ehess), especializado na história das ideias econômicas.

A China, por exemplo, foi muitas vezes apresentada como mercantilista nesses últimos anos por ter desenvolvido sua indústria favorecendo as exportações e limitando as importações. Em seus discursos, Trump deseja o mesmo para seu país.

- Trump "não é um rei" - Para Grenier, Trump é mercantilista quando ameaça industriais -entre eles os fabricantes de automóveis- com a aplicação de medidas de represália caso tirem suas fábricas a outros países, para produzir mais barato.

"É uma ideia totalmente mercantilista", que consiste em implementar "uma política econômica muito ofensiva para manter o trabalho no território nacional", disse Grenier.

"Os mercantilistas querem uma balança comercial positiva" e portanto "uma balança-trabalho positiva, ou seja, fazer mais gente trabalhar no país do que no exterior", explica.

Resta saber se essa política econômica, que inspirou as épocas pré-liberais, pode ter sucesso 200 anos mais tarde. Para Galbraith, a reposta é "não".

"O presidente de Estados Unidos não é um rei, e suas medidas não vão se prolongar por décadas", alega.

"Para convencer as empresas que invistam na produção nos Estados Unidos, Trump deve convencê-las de que suas medidas vão durar", diz. Se não for assim, correm o risco de quebrar no dia em que "as tarifas alfandegárias forem reduzidas ou suprimidas", explica Galbraith.

No comércio globalizado de hoje, os produtos chineses submetidos a essas tarifas podem ser substituídos por outros, procedentes de países como Vietnã ou Tailândia, que poderiam driblar as barreiras alfandegárias dos Estados Unidos, alerta Galbraith.

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