Globalização, um fenômeno especialmente hostil para os franceses

Paris, 4 Mai 2017 (AFP) - Emmanuel Macron e Marine Le Pen encarnam, respectivamente, os papéis de paladino e inimiga da globalização, um fenômeno ao qual a grande maioria dos franceses é hostil e um tema-chave da campanha eleitoral das eleições presidenciais.

"A globalização selvagem põe em risco nossa civilização", adverte a ultradireitista Le Pen, candidata ao segundo turno no próximo domingo (7).

A abertura ao comércio mundial é uma "oportunidade formidável", defende seu adversário e favorito nas pesquisas, o centrista Macron.

Segundo uma pesquisa de opinião publicada em fevereiro, 74% dos consultados são hostis à globalização, o que faz da sociedade francesa uma das mais reticentes a este fenômeno mundial.

As deslocalizações e as conseguintes supressões de empregos - abordadas amplamente pela mídia -, explicam, em parte, essa rejeição.

Os trabalhadores "têm a impressão de serem vítimas" das políticas dos acionistas de suas empresas, explicou à AFP Sébastien Jean, diretor do Centro de Estudos Prospectivos e de Informações Internacionais (CEPII).

Há vários anos, Le Pen orienta sua estratégia para estes "perdedores" da globalização, defendendo o protecionismo e prometendo renegociar os contratos comerciais internacionais e restabelecer barreiras alfandegárias.

Mas as deslocalizações são um fenômeno de massa? Segundo um estudo do Instituto de Estatísticas, entre 2009 e 2011, 4,2% das empresas deslocalizaram pelo menos uma atividade, o que representou a supressão de 20 mil empregos diretos.

"É pouco em nível macroeconômico, mas pode ser muito em nível local", afirmou Jean, que citou os setores têxtil e siderúrgico, especialmente penalizados pela mão de obra barata em outros países.

Antecipar as consequências"Os choques locais são extremamente fortes", confirmou à AFP El Mouhoub Mouhoud, professor da universidade Paris-Dauphine. Mas "o progresso técnico e os avanços em produtividade destroem mais empregos que deslocalizações", advertiu.

Segundo um estudo do Tesouro, a França perdeu nas últimas décadas cerca de dois milhões de empregos no setor industrial. Mas "apenas" de 15% a 20% destas supressões são imputáveis à instalação de fábricas no exterior, segundo várias pesquisas.

A globalização supõe, ainda, uma série de vantagens para a economia francesa, ao beneficiar setores como o luxo, a química, a aeronáutica, a agroalimentar.

Segundo o ministério da Economia, a França conta atualmente com 124.000 empresas exportadoras, entre elas vários pesos-pesados mundiais, como L'Oréal, Danone e Safran (aeronáutica e defesa). E embora o déficit comercial se aprofunde, a França se mantém como o sétimo exportador mundial.

"Cinco milhões de empregos dependem da atividade internacional", lembrou Sébastien Jean.

Macron, por sua vez, quer acelerar esta dinâmica e reforçar o livre comércio. Entre seus planos, promete validar o CETA - o acordo comercial entre a União Europeia e o Canadá -, e criar um orçamento próprio da Eurozona.

Segundo análise do CEPII, se a França encerrar todo o comércio com os países emergentes, as perdas ao ano e por lar atingiriam de 1.270 a 3.770 euros (1.385 a 4.115 dólares) - sem contar com os efeitos recessivos potenciais.

"O que se critica não é tanto a globalização, mas a capacidade dos poderes públicos de antecipar os confrontos", afirmou El Mouhoub Mouhoud.

Seu colega, Guillaume Daudin, da mesma universidade Paris-Dauphine, compartilha desta opinião e considera necessário "criar instrumentos de compensação e redinamização" para apoiar os "perdedores" da globalização.

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