Saqueadores passam como furacão em meio a protestos na Venezuela

Valência, Venezuela, 5 Mai 2017 (AFP) - Uma senhora de 84 anos caminha até um caminhão que vende mandioca em uma rua devastada. Será sua primeira refeição em dois dias, após os saques que arrasaram supermercados e vendas na cidade de Valencia, no norte da Venezuela.

"Não consigo comida", conta aflita à AFP esta senhora em Naguanagua, um bairro popular de Valencia, onde nesta sexta-feira o comércio estava fechado após uma noite de distúrbios e saques.

A violência recrudesceu em meio aos protestos da oposição contra o governo de Nicolás Maduro, que em pouco mais de um mês já deixaram 36 mortos, o último um jovem de 22 anos no bairro de San Diego, em Valencia.

Há três dias várias zonas de Valencia, situada 160 km a oeste de Caracas, são terra de ninguém, com milhares de pessoas saindo das favelas para saquear o comércio, de bares a lojas de roupas, e especialmente os supermercados, revelaram à AFP moradores da região.

As lojas estão com as vitrines quebradas, grades retorcidas, buracos nas paredes por onde entram os saqueadores, principalmente nos bairros populares de Naguanagua, La Isabelica e Flor Amarillo.

"Foi uma multidão, abriram as paredes e levaram tudo, destruíram tudo. Meus chefes perderam sua casa, nós ficamos desempregados. Isto é horrível", disse Nuvia Torrealba, 42 anos, funcionária de uma confeitaria e do restaurante Drangón Go.

As duas lojas e a residência dos proprietários - de origem chinesa - foram parcialmente incendiadas e o saque só terminou quando chegaram os militares, que dispersaram a multidão com bombas de gás lacrimogêneo, revelou Torrealba.

Parecia um furacão: veículos destruídos, geladeiras viradas, garrafas quebradas, e roupas e alimentos espalhados pelo chão.

- Vandalismo -Em uma avenida comercial de Flor Amarillo, a cena se repetia em várias lojas. "Isto é vandalismo, não é fome. Agora onde vamos comprar comida? Antes tínhamos que fazer fila, e agora nem isto. Como se recupera uma economia assim?" - perguntou uma mulher indignada.

A Venezuela atravessa uma aguda crise econômica desde a queda dos preços do petróleo, em 2014, que se caracteriza por uma inflação galopante e uma aguda escassez de alimentos e medicamentos.

Apesar da severa crise econômica e política, Torrealba afirma que os saqueadores "não são opositores ou chavistas, são apenas vândalos por falta de governo".

"Eu vivi o Caracaço (protestos e saques em 1989) e isto é pior, isto é maldade. Se não conseguem levar as geladeiras, destroem o motor. Isto não é fome", disse à AFP William, vigilante de 51 anos de um supermercado saqueado em Flor Amarillo.

Em um grande supermercado de La Isabelica, cerca de "500 ou 600 pessoas entraram por três buracos" e saquearam o local. "Não sabemos quando voltará a abrir. Somos 198 funcionários, sem contar com os vigilantes, 20. Isto jamais tinha ocorrido. Saquearam a livraria, a loja de roupa, uma adega e a mercearia", contou o gerente Francisco Da Silva.

Diante do temor de que os saqueadores invadam suas casas, muitos moradores estão fechando suas ruas com barricadas em Valencia.

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