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Alguém no comando de um comércio internacional à deriva?

Paris, 9 Mar 2018 (AFP) - A uma persistente sobrecapacidade chinesa e um excedente alemão crônico se somam, agora, as barreiras tarifárias dos Estados Unidos. As instituições multilaterais que devem organizar o comércio internacional e defender o credo do livre-comércio parecem superadas como nunca se viu.

A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, chegou a admitir: "de certo modo, (Trump) tem alguns bons motivos para protestar contra a situação atual".

Lagarde deu essas declarações na quarta-feira (7) ao canal de televisão RTL antes de o presidente americano anunciar tarifas sobre as importações de aço e de alumínio, sob o risco de deflagrar uma guerra comercial.

"Há países no mundo que não respeitam necessariamente os acordos da Organização Mundial do Comércio (OMC)... Pensamos, naturalmente, na China, mas a China não é o único país que tem esse tipo de prática", afirmou, reconhecendo implicitamente que as regras do comércio mundial dos últimos 30 anos já não são mais respeitadas.

"É, de fato, o 'consenso de Washington' que se põe em xeque. Hoje, não estamos mais convencidos de que a abertura de fronteiras seja benéfica", explica à AFP Ludovic Subran, economista-chefe da firma Euler Hermes, referindo-se aos dogmas neoliberais aplicados nos anos 1980 para erguer barreiras ao comércio.

Como consequência, as instituições internacionais são alvo de críticas, começando pela OMC, encarregada (em tese) de regular as trocas comerciais mundiais e de arbitrar eventuais conflitos.

"Há um problema de governança mundial", explica à AFP uma fonte que pediu para não ser identificada e que costuma participar das grandes negociações comerciais.

"A OMC deveria ser uma boa ferramenta, mas deixou que a China desenvolvesse seus excedentes sem respeitar seus compromissos", acrescenta, apontando os subsídios à indústria na segunda economia mundial.

Jennifer Hillman, ex-membro da OMC, questiona se o objetivo de Trump não é, finalmente, "criar uma crise" na organização, ou "até mesmo preparar o terreno para uma retirada americana".

Lembra-se que os EUA já tentaram frear o processo de nomeação de juízes no órgão de solução de controvérsias da instituição, alargando os prazos.

Mas é justamente à OMC, uma espécie de juiz de paz nos conflitos comerciais, que os países que se consideram prejudicados pelas medidas de Trump podem recorrer.

- Apelos à Alemanha -"Os Estados Unidos podem estar usando essa longa fila de espera para nunca terem de se adequar à regra", acrescentou Hillman, em um evento no "think tank" Atlantic Council, em Washington.

As outras instituições multilaterais não tiveram resultados muito melhores.

O G20 abordou o tema do protecionismo durante sua cúpula há dois anos na... China, com a criação de um "fórum mundial" sobre o excesso de oferta no setor do aço, encarregado de avaliar os esforços dos Estados e pilotado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Seu secretário-geral, o mexicano Ángel Gurría, interveio esta semana para lembrar da existência do foro. Ele também reconheceu, porém, que as "capacidades excedentes são as principais causas da crise atual" em torno do aço e que os progressos são insuficientes.

Em relação à Alemanha, país com frequência criticado por Trump, "a situação é diferente", pontua.

"Seus excedentes respeitam as regras e são também o reflexo da competitividade desse país", justificou, baixando o tom em relação a declarações anteriores.

Quando ainda era ministra francesa das Finanças, Lagarde já havia criticado os excedentes do sócio alemão.

"Não é normal (...) que um país tenha excedentes de 9% sem que seus sócios peçam que sejam corrigidos", comentou recentemente o comissário europeu Pierre Moscovici.

A mensagem começou, quem sabe, a dar frutos: o excedente comercial alemão retrocedeu em 2017 pela primeira vez em oito anos, em um contexto de importações recordes.

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