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Caçadores de icebergs vivem tempos de abundância no Canadá

02/08/2019 15h28

King's Point, Canadá, 2 Ago 2019 (AFP) - Na hora do crepúsculo, os turistas ficam fascinados com o afundamento final de um iceberg que termina sua jornada da Groenlândia até Terra Nova, uma ilha canadense localizada na primeira fila do "show" do derretimento de geleiras.

Outrora epicentro da pesca de bacalhau, a província de Terra Nova e Labrador agora vê como seus tranquilos povoados costeiros fervem com a chegada de hordas de fotógrafos amadores que vieram imortalizar os pedaços gigantes de geleira, cada vez em maior número, que desembocam no leste do Canadá no fim do inverno.

A abundância de icebergs que deslizam para o sul gerou uma nova atração turística estreitamente vinculada à aceleração do aquecimento global.

"Melhora de um ano para o outro. Cerca de 140 ônibus turísticos chegam ao povoado a cada temporada, é bom para a economia", diz Barry Strickland, ex-pescador de 58 anos que se tornou guia turístico em King's Point, no norte de Terra Nova.

Há quatro anos, organiza excursões relacionadas com estes gigantes de gelo milenares que podem atingir dezenas de metros de altura e pesar centenas de milhares de toneladas.

À mercê dos ventos e das correntes, estas efêmeras joias polares realizam uma viagem de milhares de quilômetros para o sul, aproximando-se da costa canadense. Em poucas semanas, sua água doce, congelada muito antes da poluição emanada a partir da Revolução Industrial, voltará para o oceano.

As expedições na pequena embarcação de Barry com frequência enchem durante a "temporada alta de icebergs", entre maio e julho, e atraem para esta aldeia de 600 habitantes visitantes de todo o mundo. O menor movimento dos colossais blocos de gelo pode ser rastreado através de um mapa de satélite interativo disponibilizado na internet pelo governo provincial.

- Degelo - "Não há muito o que fazer para os habitantes destas pequenas e isoladas cidades portuárias, de modo que o turismo é uma grande parte de nossa economia", explica Devon Chaulk, empregado de uma loja de souvenirs em Elliston, uma aldeia de 300 habitantes situada na trajetória do "corredor de icebergs".

"Vivi aqui toda a minha vida, e o aumento do turismo nos últimos 10, 15 anos foi incrível", conta entusiasmado Chaulk, de 28 anos.

No ano passado, mais de 500.000 turistas visitaram a província de Terra Nova, a mesma quantidade de pessoas que reside nela, e contribuíram com a economia local com cerca de 570 milhões de dólares canadenses (432 milhões de dólares americanos), segundo estimativas do governo local.

O turismo suplantou parcialmente os rendimentos cada vez mais baixos da indústria pesqueira, em crise devido à exploração excessiva do oceano no fim do século passado.

Mas por trás desta loucura pelos icebergs se esconde uma realidade obscura: a aceleração do aquecimento global no Polo Norte, que favorece o aparecimento de icebergs mas também faz com que sua temporada seja cada vez mais imprevisível, o que acentua a precariedade das indústrias que se beneficiam deles.

Em Twillingate, um popular destino turístico para os amantes dos icebergs, os visitantes conhecem a pequena loja de Auk Island Winery, que fabrica licores de frutos silvestres feitos com água de iceberg.

- Risco para a navegação - "As pessoas vêm para ver os icebergs: vemos a variação do número de turistas de um ano para o outro em função da quantidade de icebergs" que aparecem, diz Elizabeth Gleason, funcionária da loja.

"Este é um bom ano, mas no ano passado não tivemos quase nenhum", conta, ao observar de primeira mão a precariedade de um turismo baseado em fenômenos naturais imprevisíveis.

O Ártico aquece três vezes mais rápido que o resto do mundo. Em junho, a Groenlândia experimentou um derretimento de geleiras inédito para esta época do ano, e temperaturas recorde foram registradas perto do Polo Norte em meados de julho.

Com os anos, os icebergs adentram cada vez mais ao sul, criando um risco para a navegação comercial nesta rota marítima que une a Europa com a América do Norte.

"Nunca havia visto um iceberg antes, e entendo que tempos atrás não se viam. É uma imagem concreta do aquecimento global, ver icebergs em lugares onde a água está quente", diz Laurent Lucazeau, uma turista francesa de 34 anos, ao voltar de uma excursão pelo mar.

"É uma coisa misteriosa e impressionante, mas sobretudo saber que não deveriam estar aí te faz questioná-los. Dá um pouco de medo".

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