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Aliados de Johnson ameaçam acordo do Brexit antes de reunião crucial

17/10/2019 06h05

Bruxelas, 17 Out 2019 (AFP) - Aliados do primeiro-ministro britânico Boris Johnson, os unionistas norte-irlandeses do partido DUP, bloqueavam nesta quinta-feira as possibilidades de um pacto sobre o Brexit, poucas horas antes de uma reunião crucial em Bruxelas para afastar a temida possibilidade de um divórcio em acordo.

As equipes da União Europeia (UE) e do Reino Unido decidiram intensificar os encontros nas próximas horas. As negociações avançaram de modo significativo, mas ainda não alcançaram o "objetivo", afirmou a chanceler da Alemanha, Angela Merkel.

Mais de dois anos após o início das negociações, Londres e Bruxelas ainda buscam a maneira de garantir um comércio fluido de produtos entre a Irlanda, país da UE, e a província britânica da Irlanda do Norte, sem a necessidade do retorno de uma fronteira física.

O objetivo é proteger o acordo de paz da Sexta-Feira Santa de 1998, que acabou com décadas de conflito violento na Irlanda do Norte entre unionistas protestantes e republicanos católicos, além de proteger o mercado único europeu de uma concorrência desleal de seu ainda sócio.

Mas com o acordo "ao alcance da mão", nas palavras do governo francês, surgiu um novo obstáculo na reta final: o partido unionista norte-irlandês DUP anunciou nesta quinta-feira que não pode apoiar a atual proposta de acordo.

O partido, cujos 10 deputados na Câmara dos Comuns apoiam Boris Johnson, afirmou que "continuará trabalhando com o governo para chegar a um acordo razoável que funcione para a Irlanda do Norte e proteja a integridade econômica e constitucional do Reino Unido".

Depois do Brexit, os unionistas norte-irlandeses temem que a província, que compartilha a ilha com a Irlanda, fique isolada do restante do Reino Unido localizado na Grã-Bretanha, com o Mar da Irlanda no meio.

O temor se concentra na questão da alfândega. Johnson abandonou a ideia de sua antecessora, Theresa May, de manter todo o Reino Unido em uma união alfandegária com a UE após o Brexit, enquanto as partes buscariam uma solução melhor no âmbito de um acordo de livre comércio.

E o premier britânico teria modificado inclusive "sua proposta original para que não existam fronteiras alfandegárias" na ilha da Irlanda, disse uma fonte europeia, deixando a Irlanda do Norte na prática em uma união aduaneira com a UE e separada do Reino Unido.

O novo plano permitiria a Johnson recuperar a liberdade para negociar acordos comerciais com outros países, tarefa que na união alfandegária europeia corresponde à Comissão Europeia, ao invés de defender a proximidade da UE como May, indicou uma fonte diplomática.

Outro inconveniente apontado pelo DUP é a proposta final sobre o plano inicial, criticado pela UE, de conceder um direito de veto à Assembleia autônoma da Irlanda do Norte para decidir a cada quatro anos se continua respeitando as regras do mercado único europeu.

O Sinn Féin na Irlanda do Norte, partido que defende a reunificação das duas Irlandas, deseja um acordo porque o "preço do Brexit é muito grande" e pediu uma reflexão sobre as "circunstâncias únicas" do território.

"Sem fronteiras, sem vetos", afirmou Michelle O'Neill, líder do partido na Assembleia.

- Nova reunião? -O tempo é curto para resolver o bloqueio, assim como a questão do IVA na Irlanda do Norte, antes da reunião de cúpula da UE, que deve começar às 15H00 locais (10H00 de Brasília), a duas semanas do Brexit, previsto para 31 de outubro.

Londres tem até sábado para conseguir um pacto ou, em caso contrário, deve solicitar um novo adiamento, segundo uma lei aprovada pelo Parlamento britânico em setembro. O governo de Johnson afirmou na quarta-feira que cumpriria a lei, apesar da relutância do primeiro-ministro.

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, conversou nesta quinta-feira com Johnson "como parte das discussões em curso para assegurar um acordo do Brexit", informou Downing Street.

Os europeus querem evitar o cenário vivido por Theresa May, que não conseguiu a aprovação do Parlamento britânico para o acordo concluído em novembro do ano passado com a UE, e não descartam um novo adiamento do divórcio.

A prorrogação estaria submetida às possibilidades de um acordo ou de uma mudança política em Londres, como novas eleições ou um segundo referendo, se um acordo não for alcançado. A UE não descarta, neste contexto, outra reunião de cúpula até o fim do mês.

bur-tjc/erl/fp