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Mario Draghi deixa um BCE profundamente dividido

21/10/2019 15h06

Frankfurt am Main, 21 Out 2019 (AFP) - Mario Draghi, que preside na próxima quinta-feira sua última reunião do Banco Central Europeu (BCE), contribuiu para tirar a zona do euro de uma crise sem precedentes, mas sua política de "dinheiro fácil" deixa divisões profundas.

Não se espera nenhuma decisão na reunião do conselho de governadores da instituição monetária. Será o momento de fazer um balanço da gestão do italiano e passar o bastão. No fim do mês, ele será sucedido pela francesa Christine Lagarde, primeira mulher a ocupar este posto à frente da zona do euro.

Jack Allen-Reynolds, economista da Capital Economics, prevê que será "uma celebração alegre de seus sucessos" porque a atenção se concentrará nas "crescentes divisões no conselho dos governadores".

As discordâncias sobre a política que deve ser usada para solucionar os problemas da zona do euro "vieram à público", afirma Dirk Schumacher, economista da Natixis.

Esta situação corre o risco de "socavar a eficácia do BCE", acrescenta, em um momento no qual a instituição parece ter esgotado suas possibilidades para respaldar a economia.

- Euro a salvo -Embora seja considerado um gestor solitário, que impõe suas opiniões, Mario Draghi salvou o euro em plena crise da dívida.

Contudo, pagou o preço de uma política de dinheiro abundante e barato - muito criticada no norte da Europa, especialmente na Alemanha.

Seus críticos acusam-no de beneficiar os países com déficit orçamentário e temem "bolhas especulativas". Além disso, lamentam os juros baixos que incentivam o gasto, e não a economia.

Além disso, sua eficácia é contestada. Draghi deixa o posto em um contexto em que o crescimento da zona do euro sofre forte desaceleração, após cinco anos favoráveis e 11 milhões de empregos criados. O Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu nesta quinta-feira sua previsão para 1,2% neste ano e 1,4% em 2020.

Em oito anos sob a batuta de Draghi, o BCE tomou medidas inimagináveis quando o euro foi criado, há 20 anos: redução das taxas de juros, injeção de liquidez por meio de enormes compras de ativos nos mercados e empréstimos gigantescos aos bancos.

- Conflito interno -Em setembro, o dispositivo usado para subir a inflação gerou um conflito quase sem precedentes veio à tona.

A retomada de um programa de compra de ativos congelados - que já tinha custado 2,6 trilhões de euros - em dezembro gerou tensões que resultaram em críticas abertas da Alemanha, da Holanda e até da França contra a escolha de Draghi.

Christine Lagarde chega, portanto, em tempos turbulentos. A questão é: ela será capaz de convencer os diferentes membros da instituição de gestão do BCE a agir se a crise na zona do euro piorar?

"Todo mundo reconhece que os instrumentos monetários são muito procurados", diz Bruno Cavalier, economista da Oddo BHF. "Mas, se for esse o caso, é porque os instrumentos orçamentários (dos Estados) não são suficientes", acrescenta.

O problema é que países com margem de manobra orçamentária, como a Alemanha, não querem gastar mais para estimular a conjuntura.

O contexto não é favorável para Lagarde: o horizonte econômico da região é sombrio devido às tensões do comércio internacional e ao Brexit, frequentemente citado por Draghi como um dos principais riscos.

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