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Coronavírus representa um novo golpe para a imprensa americana

16/03/2020 13h15

Washington, 16 Mar 2020 (AFP) - A indústria vacilante de notícias nos Estados Unidos está se preparando para um novo golpe econômico com a nova pandemia de coronavírus, justamente quando as pessoas mais precisam de informações confiáveis.

Espera-se que o impacto seja especialmente difícil para o setor dos jornais, que na última década viu 2.000 publicações desaparecerem e sofreu a perda de metade de seus empregos.

As empresas jornalísticas serão afetadas pela queda na publicidade em meio a uma crise econômica e ao provável declínio na receita de assinaturas, à medida que os leitores cortarem os gastos, dizem os analistas.

As conferências e eventos que alguns veículos promovem para complementar sua renda certamente desaparecerão com a emergência sanitária.

Gabriel Kahn, professor de jornalismo da Universidade do Sul da Califórnia, que segue as tendências econômicas do setor, disse que o período de crise econômica a curto prazo "é muito ruim" para os meios de comunicação que dependem de receita publicitária.

"Para os atores locais menores, é um golpe direto do qual podem não se recuperar", disse ele.

O semanário gratuito The Stranger, da cidade de Seattle, alertou na semana passada sobre uma crise iminente e solicitou doações de leitores.

"Cerca de 90% de nossa receita está diretamente relacionada a reuniões e eventos. A situação do coronavírus praticamente eliminou essa receita de uma só vez", afirmou.

- "Oportunidade" -Ao mesmo tempo, essa pandemia oferece "uma oportunidade" para recuperar a confiança dos leitores, afirma Damian Radcliffe, professor de jornalismo da Universidade do Oregon.

"Em momentos de crise, as comunidades precisam mais do que nunca de um jornalismo confiável e informado", enfatizou.

Kahn concorda que, para muitas redações, "este é o momento em que podem desenvolver uma conexão com o público e marcar seu valor".

Joseph Lichterman, chefe de estratégia editorial e digital do Instituto Lenfest, proprietário do jornal The Philadelphia Inquirer, concordou, enfatizando a importância da mídia local.

"As pessoas tendem a confiar mais na mídia local do que na mídia nacional, então querem ter empresas de notícias locais fortes", disse ele.

Algumas pesquisas apontaram a importância da mídia local para lidar com uma epidemia, entre outros assuntos de interesse público.

Um estudo de 2018 realizado por pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte observou que o Centro de Controle de Doenças (CDC) depende de notícias locais para monitorar o progresso de muitas doenças.

"O CDC confia nas notícias dos jornais locais para ter um sistema de alerta precoce, essencial para conter a propagação", diz o relatório. "As redes sociais são muito menos confiáveis", ressalta.

A investigação indicou que muitas comunidades americanas se tornaram "desertos" sem um veículo de notícias local.

Kahn disse que a crise pode exacerbar a divisão entre vencedores e perdedores no setor de notícias, um cenário em que "apenas os mais fortes provavelmente sobreviverão".

Muitos jornais locais e regionais estão mudando com a fusão das redes Gannett e Gatehouse e com a falência de outro ator importante, McClatchy.

Joshua Benton, que dirige o Laboratório de Jornalismo Nieman da Universidade Harvard, disse que não está claro se os proprietários estarão mais interessados em seus resultados financeiros do que em sua missão jornalística.

"No mínimo, outra onda maior de demissões pode ser esperada", opinou em um blog.

Lichterman afirmou que o modelo sem fins lucrativos usado na Filadélfia e em outros lugares, muitas vezes com apoio filantrópico, é promissor, mas que as redações "precisam fazer um trabalho melhor para articular seu valor" aos leitores.

"O caminho que vemos no futuro é o suporte direto ao leitor, que deve ser uma parte essencial da solução", disse ele.

rl/bgs/ad/mps/mr/cc

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