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Mundo subestimou as pandemias, diz economista que as viu chegar

12.mar.2020 - Pedestre usando máscara por causa do coronavírus observa tela mostrando o movimento do preço das ações da Bolsa de Tóquio - Kazuhiro Nogi/AFP
12.mar.2020 - Pedestre usando máscara por causa do coronavírus observa tela mostrando o movimento do preço das ações da Bolsa de Tóquio Imagem: Kazuhiro Nogi/AFP

Em Londres

21/03/2020 10h34

"As pandemias sempre ameaçaram a humanidade mais do que as guerras", diz Ian Goldin, economista da Universidade de Oxford que em 2015 alertou em seu livro "The Butterfly Defetc" dos riscos sistêmicos em um mundo interdependente.

Os países "não mediram bem esse risco", disse ele em entrevista à AFP. "Contribuímos demais com os nossos exércitos (...) comparado aos nossos sistemas de saúde", subfinanciados após anos de austeridade.

A globalização trouxe prosperidade a muitas regiões do mundo, mas, em termos de saúde, deu origem a uma grande concentração de pessoas em cidades gigantescas, com localidades insalubres e mercados de animais localizados perto de aeroportos, de onde os vírus se espalham por todo o mundo, à medida que a resistência aos antibióticos cresce.

"Faz muito tempo desde que tivemos uma pandemia da magnitude" da gripe espanhola de 1918, "que contaminou um terço da população mundial e matou cerca de 50 milhões de pessoas", diz este sul-africano, ex-conselheiro de Nelson Mandela.

Recentemente "foi possível conter" as epidemias de ebola, SARS e gripe aviária, "o que nos fez ter muita confiança", enfatiza.

E isso em um momento em que o mundo se afasta de instituições multilaterais, como o FMI, a OTAN, a ONU, ou de organizações que lutam contra a crise climática.

"Isso é particularmente verdade nos Estados Unidos, enquanto a Europa se encontra no meio da crise do euro e do Brexit e quando ninguém confia na China para liderar o mundo", diz Goldin.

Daí o atual "vácuo de liderança", que contrasta com a última crise financeira de 2008, quando Washington convocou o G20 após o colapso do Lehman Brothers.

"São os Estados Unidos novamente que presidem o G7, mas (o presidente Donald) Trump culpa o resto do mundo, especialmente a China", diz o especialista.

A próxima reunião do G7 ocorrerá apenas em junho, por videoconferência.

No entanto, os países devem "cooperar, seja para encontrar uma vacina, compartilhar equipamentos médicos ou repatriar pessoas", insiste Goldin, vice-presidente do Banco Mundial.

Especialmente porque a crise econômica resultante da atual pandemia será "muito pior" do que a de 2008, alerta.

"Poderemos ver uma cascata de choques financeiros", com falências de empresas, mas também de países, diz o economista sul-africano.

E ele dá o exemplo da Itália, que já passava por dificuldades antes da pandemia e precisará de "cuidados intensivos".

"A severidade do que acontece depende da nossa" capacidade de trabalhar juntos: "O mundo é capaz de desenvolver um plano de ação coordenado?"

Goldin acredita que a resposta das autoridades é insuficiente no momento, apesar dos bilhões prometidaos pelos bancos centrais e governos.

Oferta e demanda

"Já tínhamos taxas de juros próximas de zero (...) o problema não é liquidez" e as políticas de estímulo podem não funcionar porque "a oferta e a demanda estão quebradas", acredita.

A urgência, ele argumenta, é dar uma renda básica àqueles que têm "baixa renda ou nenhuma cobertura médica" e que, se forem infectados com o coronavírus, continuarão trabalhando com o risco de infectar outras pessoas.

E também é necessário sustentar empresas "que não têm mais fornecedores ou clientes", adiando ou cancelando impostos e outras despesas durante a crise e o confinamento estabelecido em muitos países, o que paralisa a economia, incluindo as companhias aéreas, turismo ou entretenimento.

E adverte contra repetir erros do passado.

Entre 2007 e 2009, os bancos centrais, instituições multilaterais e governos "favoreceram os bancos", enquanto milhões de trabalhadores perderam seus empregos, casas e cobertura social, lembra Goldin.

"Vimos uma estagnação maciça dos salários" e uma maior escassez de moradias, enquanto uma parte "dos 1% (mais ricos) ganhou quantias extraordinárias e ninguém foi preso", denuncia.