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Credores acirram posições e se distanciam de acordo com Argentina

18/06/2020 18h29

Buenos Aires, 18 Jun 2020 (AFP) - A Argentina e seus credores reforçaram suas posições e afastaram a possibilidade de um acordo nesta semana para reestruturar cerca de US$ 66 bilhões em dívidas em títulos emitidos sob legislação estrangeira.

Um dos grupos de credores da Argentina, que tem 13 fundos internacionais, alertou recusar as propostas do governo e consideravam solicitar o pagamento ao entrar com ações nos tribunais nova-iorquinos.

O principal grupo de credores da Argentina advertiu que avalia entrar na Justiça depois do que classificou como "fracasso das negociações".

"Dado o fracasso das negociações, nosso grupo está considerando todos os direitos e recursos legais disponíveis", declarou o Grupo Ad Hoc de Detentores de Títulos Argentinos, liderado pelo fundo BlackRock, o mais importante dos três que negociam, em comunicado divulgado na madrugada desta quinta-feira (18).

"Apesar das melhorias adicionais à proposta, as autoridades optaram por permanecer em descumprimento de pagamentos (default), aumentando os riscos de deterioração econômica em uma economia que tem necessidades urgentes de novos investimentos e acesso aos mercados internacionais de capital", completou o grupo, que participa desde abril das negociações para uma troca da dívida com a Argentina.

Em relatório de gestão entregue ao Senado nesta quinta-feira, a apenas 24 horas para os credores decidirem sobre a adesão ao swap, Santiago Cafiero, chefe de gabinete do governo Fernández afirmou que a dívida argentina não pode ser paga nos termos em que foi acordado.

"A dívida foi contraída de forma irresponsável, é impagável e se torna profundamente injusta nas costas dos argentinos", disse o ministro coordenador do governo de centro-esquerda do presidente Alberto Fernández.

O governo argentino acreditava que fecharia um acordo ainda nesta semana, com a apresentação de uma "oferta final" na última terça. No entanto, as expectativas desmoronaram.

"Vamos pagar na medida que pudermos, nem um milímetro a mais. Nisso sou inflexível, porque conheço como estão as finanças mundiais. Não podem exigir da Argentina o que não exigem do mundo", alertou o presidente de centro-esquerda, Alberto Fernández.

O país sul-americano, um dos principais exportadores de alimentos do mundo, encontra-se em recessão desde 2018, e prevê que sua economia sofra ainda mais nesse ano com o efeito da pandemia, projetando uma queda de 6,5% no PIB.

- Blackrock: "Tampão para o acordo" -O "BlackRock (um dos fundos que integra Ad Hoc) está funcionando como tampão para o acordo", acusou uma fonte do governo, falando anonimamente.

Nesse contexto, "é altamente improvável que (um acordo) seja alcançado antes de sexta-feira", quando expira o prazo para os credores aderirem ao swap, destacou em declarações à AFP.

De qualquer forma, apontou que "existem muitos credores que estão em um ponto de encontro com o governo".

O problema do BlackRock, "é que é importante politicamente, porque é o maior fundo tomador de dívidas do mundo", acrescentou.

Durante as negociações, as partes assinaram um acordo de confidencialidade, que expirou na quarta-feira sem que a Argentina apresentasse uma nova proposta formal, por divergências com os credores.

Embora o ministério da Economia permaneça firme em manter uma taxa de recuperação de não mais de US$ 50 para cada US$ 100 do valor nominal dos títulos, o grupo Ad Hoc não desiste dos US$ 55.

O governo argentino propõe um cupom atrelado à evolução das exportações agrícolas, que implica que no próximo ano o país tenha que pagar 0,75% de juros adicional, entre 2026 e 2046. Porém, esses credores querem mais: que o cupom esteja atrelado à variação do PIB. A Argentina deverá pagar quando o crescimento exceder 3%.

Os credores propuseram ajustes "com os quais a Argentina não pode se comprometer razoavelmente, alguns dos quais são amplamente inconsistentes com a estrutura de sustentabilidade da dívida", afirmou um comunicado do ministério da Economia.

Mais uma vez, o Fundo Monetário Internacional (FMI), que apoiou as propostas da Argentina de tornar o serviço da dívida sustentável, renovou seus desejos de que as partes continuem "negociações em direção a um acordo", disse Gerry Rice, porta-voz da organismo multilateral.

A Argentina entrou em default em 22 de maio, quando não pagou 500 milhões de dólares em juros de três dos títulos sujeitos à troca.

A dívida pública argentina alcança 324 bilhões de dólares, quase 90% do PIB.

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