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'Nossas divisões são profundas', diz Obama em livro de memórias

12/11/2020 16h57

Washington, 12 Nov 2020 (AFP) - O ex-presidente Barack Obama destaca as divisões pela quais passam os Estados Unidos em um livro de memórias, que terá seu primeiro volume publicado na próxima semana. Ele acredita que essa fratura não será corrigida apenas com a saída de Donald Trump da Casa Branca.

Em um trecho de "Uma Terra Prometida", cujos primeiros trechos foram publicados pela revista The Atlantic, o primeiro presidente americano negro faz uma retrospectiva dos quatro anos desde sua saída do governo.

"O mais preocupante sobre tudo isso pode ser que nossa democracia parece estar à beira da crise", escreve o democrata de 59 anos.

"Uma crise ancorada no enfrentamento fundamental entre duas visões opostas do que os Estados Unidos são e do que deveriam ser", continua, denunciando o recente desrespeito às regras e garantias básicas que, por muito tempo, tanto democratas quanto republicanos "deram como certas".

A obra será lançada na terça-feira no Brasil pela editora Companhia das Letras.

Embora comemore a vitória eleitoral de seu ex-vice-presidente, Joe Biden, e sua companheira de chapa, Kamala Harris, ambos com "caráter e capacidade de fazer o que é certo", Obama alerta contra qualquer visão excessivamente otimista sobre os anos que se seguirão a Trump.

"Também sei que uma única eleição não resolverá o problema", afirma, apontando que "nossas divisões são profundas, nossos desafios são assustadores.

O 44º presidente dos Estados Unidos diz, porém, estar "cheio de esperança" no futuro, convicto de que, com "trabalho duro, determinação e uma boa dose de imaginação" os Estados Unidos poderão mostrar "o que temos de melhor".

"Se continuo esperançoso quanto ao futuro, é em grande parte porque aprendi a colocar minha fé nos meus concidadãos, especialmente nos da próxima geração", diz ele. "Meu livro é para esses jovens".

- "Pânico enraizado" -Em suas memórias, o ex-presidente também aborda a mentira propagada por Trump de que ele não teria nascido nos Estados Unidos, de acordo com a CNN, que também obteve um exemplar do livro.

"Foi como se a minha presença na Casa Branca tivesse desencadeado um pânico enraizado, uma sensação de que a ordem natural das coisas havia sido interrompida", escreve Obama.

"O que é exatamente o que Donald Trump entendeu quando começou a espalhar afirmações de que eu não nasci nos Estados Unidos e, portanto, era um presidente ilegítimo", avalia. "Para milhões de americanos assustados com um homem negro na Casa Branca, ele prometeu um elixir para sua ansiedade racial".

Obama também se pergunta se o senador John McCain, seu adversário na eleição de 2008, teria escolhido outra pessoa no lugar da governadora do Alasca, Sarah Palin, para ser sua vice "se tivesse a chance de fazer tudo de novo".

"Por meio de Palin, parecia que os espíritos das trevas que há muito tempo espreitavam nas bordas do Partido Republicano moderno - xenofobia, anti-intelectualismo, teorias conspiratórias paranoicas, uma antipatia por negros e pardos - estavam se encaminhando para o centro do palco", diz Obama.

O democrata também confessa que fumava até 10 cigarros por dia enquanto estava na Presidência e conta que acabou mudando para chicletes de nicotina depois que sua filha Malia "franziu a testa" após "sentir cheiro de cigarro no meu hálito".

Neste intenso primeiro volume de suas memórias, de 768 páginas, o 44º presidente dos EUA relata seu processo de escrita - ele usa caneta e um bloco amarelo, não o computador - e revela sua dificuldade em ser conciso.

Ele afirma que ele e sua esposa, Michelle, estavam "esgotados, física e emocionalmente" quando deixaram a Casa Branca, em janeiro de 2017.

"Por um mês, Michelle e eu dormimos até tarde, jantamos sem pressa, fizemos longas caminhadas, nadamos no mar, fizemos um balanço, reabastecemos nossa amizade, redescobrimos nosso amor e planejamos uma nova etapa menos agitada, mas, espero, não menos satisfatória", escreve.

Em uma resenha no The New York Times, a autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie elogiou Obama pelo "autoquestionamento brutal" que ele exibe no livro.

Ao mesmo tempo, disse ela, "apesar de toda sua implacável autoavaliação, há muito pouco do que os melhores livros de memórias trazem: uma verdadeira auto-revelação".

"Muito se mantém a uma distância polida", apontou Chimamanda. "É como se, por ele ser cauteloso com emoções exageradas, a própria emoção fosse reprimida".

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