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Recuperação econômica pós-covid quer ser verde, mas ainda é cinza

08/12/2020 07h01

Paris, 8 dez 2020 (AFP) - Apoio aos transportes, energias e consumo... Os planos maciços anunciados para recuperar a economia após a crise sanitária por enquanto levam o mundo a um caminho muito mais cinza do que verde, o que significa um aumento do aquecimento global, alertam os pesquisadores.

Nos últimos meses, têm sido prometidos recursos da ordem de 12,8 trilhões de dólares, dos quais US$ 11 trilhões de parte dos países integrantes do G20, para apoiar empresas ou residências. A cifra é o triplo do que foi alocado após a crise de 2008.

"Estes desembolsos em larga escala vão configurar a economia mundial nas próximas décadas. Poderão provocar desastres climáticos gigantescos ou criar uma economia sadia, impulsionada pelas energias limpas", destacam 14 institutos de pesquisa (Universidade de Columbia, o Instituto da Economia para o Clima de Paris - I4CE, Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável - IISD, etc), que fazem um acompanhamento dos anúncios pós-covid-19.

De acordo com este projeto, denominado Energy Policy Tracker, os países do G20 anunciaram dedicar pelo menos 234 bilhões de dólares de recursos públicos para combustíveis fósseis e 151 bilhões de dólares para energias limpas.

A isto somam-se medidas regulatórias, fiscais e monetárias, que podem ser contraditórias de país para país.

No Canadá, por exemplo, estão previstos fundos para estações de recarga elétrica e, ao mesmo tempo, na província de Alberta, apoio fiscal às companhias petroleiras; na Alemanha, 1 bilhão de euros (US$ 1,21 bilhão) serão destinados tanto para veículos elétricos, quanto para a renovação dos caminhões; na Índia, projetos de metanol a partir do carvão receberão recursos, assim como os veículos elétricos em Gujarat...

A consultoria Vivid Economics analisou 23 planos de reativação. Apenas cinco países ou regiões apresentam um balanço climático positivo: Alemanha, Espanha, França, Grã-Bretanha e UE, nos quais um terço do plano de 750 bilhões de dólares iria para as energias verde, algo nunca visto.

"A maioria dos países não tem aproveitado esta oportunidade: o apoio se concentra muito mais em atividades de alto carbono do que de baixo carbono", resumiu Joel Jaeger, pesquisador do World Resources Institute (WRI).

Medida emblemática: o salvamento das companhias aéreas. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), impôs-se condições ambientais a apenas quatro em cada 30. Foi "uma oportunidade perdida", diz a AIE.

- Dinâmica climática -A ONU fez soar o alarme. Segundo o Relatório sobre a Lacuna de Produção, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), "as respostas dos governos tendem a incrementar os modelos que já existiam antes da pandemia: aqueles que sobretudo subvencionavam maciçamente as energias fósseis aumentaram ainda mais seu apoio, e os que tinham se comprometido mais fortemente com o desenvolvimento das energias limpas, usam os estímulos para acelerar esta transição".

Os Estados Unidos, de Donald Trump, destinaram 70 bilhões de dólares às energias fósseis, segundo o Energy Policy Tracker. Com exceção de 26 bilhões de dólares destinados às redes de transporte público, atualmente asfixiadas. Dos 3 trilhões de dólares de despesas, apenas 1% é verde, assinala o WRI.

Mas tanto ali, quanto em outros locais, não foi dada a última palavra.

O segundo maior emissor de gases de efeito estufa no mundo discute um novo plano destinado a substituir as medidas tomadas na primavera no hemisfério norte.

Durante sua campanha à Presidência, Joe Biden prometeu 2 trilhões de dólares em 4 anos para as infraestruturas de baixa emissão de carbono. Mas, "o que fizer dependerá do Congresso", cuja maioria, republicana ou democrata, ainda é uma incerteza, diz Joel Jaeger. Certas reformas, no entanto, estão subordinadas ao Executivo, como por exemplo os novos padrões prometidos sobre as emissões veiculares.

Na China, a fábrica do mundo e maior emissora de CO2 do planeta, a construção de térmicas a carvão para gerar 17 GW foi concluída no primeiro semestre do ano, ou seja, mais do que em 2018 e 2019 juntos, destaca o Centro de Pesquisas sobre Energia e Ar Limpo (CREA).

"O carvão não tem lugar na recuperação" econômica, disse em julho o secretário-geral da ONU, António Guterres. Na ocasião, Pequim prometeu neutralizar suas emissões até 2060.

"O encontro crucial será o plano quinquenal" em 2021, afirma Jaeger, para o qual o próximo orçamento anual da Índia será determinante.

"Os governos ainda dispõem de tempo para adaptar suas medidas", acrescenta o pesquisador, que apesar de tudo vê "um impulso sem precedentes na ação climática", entre as eleições nos Estados Unidos, a neutralidade de emissões de carbono prometida por Japão e Coreia do Sul, e o boom das capacidades renováveis.

A recuperação cinza é "a reação de curto prazo a um acontecimento planetário", afirmou Michel Frédeau, do BCG, que aconselha empresas e mede o caminho percorrido depois do acordo de Paris, em 2015.

"Não podemos reinvestir para fazer exatamente o mesmo", adverte. "Os investidores compreenderam a mensagem e têm pressionado, assim como os bancos centrais, diante dos riscos. As empresas assimilaram a necessidade de se transformar rumo à sustentabilidade. E, forçosamente, os Estados serão influenciados porque sabem que por trás disso se encontra a economia do amanhã".

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