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Do IVA aos certificados sanitários, Reino Unido paga o custo do Brexit

31/01/2021 11h23

Londres, 31 Jan 2021 (AFP) - "É quase impossível exportar para a UE", lamenta o queijeiro inglês Simon Spurrell. O Brexit se tornou um pesadelo para as empresas e consumidores britânicos que enfrentam surpresas desagradáveis, desde o pagamento do IVA a certificados sanitários.

A saída do mercado único em 1 de janeiro não causou, à primeira vista, grandes perturbações graças ao acordo comercial alcançado entre Londres e Bruxelas na véspera de Ano Novo.

Mas o Brexit tem muitas consequências, muitas vezes inesperadas.

Para Spurrell, dono da fábrica de queijos Hartington Creamery, em Derbyshire, no centro da Inglaterra, "o problema são os certificados sanitários".

Ele descobriu que para cada pacote enviado à UE, seja uma única peça ou uma caixa inteira, tinha que pagar 180 libras (US$ 250) por um certificado de conformidade assinado por um veterinário.

Para a sua pequena empresa, isso é insustentável, pois 20% das suas vendas online vão para a UE. "Podemos apenas ter que deixar o mercado europeu", disse à AFP, olhando para Estados Unidos e Canadá.

Este certificado sanitário, que também se aplica à carne e ao pescado, não é de forma alguma a única complicação do Brexit para os consumidores britânicos, que agora pagam IVA de cerca de 20% sobre os produtos importados da UE.

Desde 1 de janeiro, para mercadorias enviadas diretamente aos consumidores no Reino Unido com um valor inferior a £ 135 o IVA britânico é cobrado no momento da compra o que, em teoria, não faz diferença para o cliente. Mas isso exige que os distribuidores se registrem no Reino Unido, o que levou alguns a pararem de exportar para o país.

Se o preço for superior a 135 libras, o imposto é pago pelo destinatário quando a mercadoria atravessa a fronteira, o que resulta em uma possível sobretaxa sobre o preço de compra real. Pode acontecer que o entregador exija o pagamento no ato da entrega.

- Instalar-se na UE? -"É um choque para os consumidores. Torna os produtos europeus mais caros", explica Gary Rycroft, sócio do escritório de advocacia Joseph A Jones & Co de Lancaster, no noroeste da Inglaterra.

"É uma medida protecionista porque cria uma barreira comercial", mas "essa é a realidade do Brexit", afirma.

O mesmo vale no outro sentido, com compras feitas de um país da UE junto a um distribuidor do Reino Unido.

"Um número crescente de pequenos exportadores está sofrendo com o aumento dos custos de transporte, declarações alfandegárias, regra de origem, taxas e IVA", afirma Mike Cherry, presidente da FSB, Federação Britânica de Pequenas Empresas.

Um total de 20% de PMEs britânicas suspenderam suas exportações para a UE, estimou na semana passada o gabinete de especialistas em contabilidade UHY Hacker Young.

"Isso não vai durar para sempre. Quando as empresas se acostumarem com as declarações alfandegárias, as coisas vão melhorar", diz Michelle Dale, uma de suas gerentes em Manchester.

Os dirigentes das principais associações patronais britânicas manifestaram na quinta-feira preocupação, durante encontro com os poderes públicos, sobre as "grandes dificuldades" nos portos britânicos.

Algumas empresas chegaram até a se instalar na Europa, longe do projeto defendido pelo primeiro-ministro Boris Johnson de reforçar a atratividade do Reino Unido.

O objetivo é enviar a mercadoria a granel para um centro de distribuição na Europa, para posteriormente ser vendida sem estar sujeita às restrições de exportação direta aos clientes.

É isso que o queijeiro inglês planeja fazer, talvez na França, diz ele. "No momento, a única possibilidade para todos os produtores seria ter uma instalação na UE", afirma Spurrell.

bur-jbo/acc/pc/mr

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