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Jornal pró-democracia de Hong Kong publica edição em tom de desafio após operação da polícia

18/06/2021 13h37

Hong Kong, 18 Jun 2021 (AFP) - O jornal pró-democracia de Hong Kong Apple Daily publicou nesta sexta-feira uma edição especial, um dia após uma operação da polícia em sua redação, com uma grande tiragem e uma mensagem de desafio na primeira página: "Devemos seguir adiante".

O desafio acontece no mesmo dia em que a polícia acusou formalmente dois diretores do jornal com base na nova lei de segurança nacional, que reprime a dissidência no território chinês.

O jornal e seu proprietário, o bilionário Jimmy Lai - que já estava detido -, são considerados uma pedra no sapato de Pequim por seu apoio aberto ao movimento pró-democracia e suas duras críticas aos dirigentes autoritários chineses chinos.

Os mesmos dirigentes agora estão decididos a silenciar a publicação.

Mais de 500 policiais entraram na quinta-feira na redação do jornal, em uma operação que as autoridades de Hong Kong atribuíram a artigos que supostamente pediam sanções contra a China.

Esta é a primeira vez que opiniões e textos políticos publicados na imprensa de Hong Kong provocam o uso da lei de segurança nacional.

Cinco executivos do Apple Daily, incluindo o chefe de redação Ryan Law e o diretor geral Cheung Kim-hung, foram detidos com base na nova lei e acusados de conluio com forças estrangeiras para prejudicar a segurança nacional da China.

Ryan Law e Cheung Kim-hung foram indiciados formalmente nesta sexta-feira.

Os outros três executivos foram deixados em liberdade após pagamento de fiança, informou o jornal South China Morning Post.

- Sucesso de vendas -Os funcionários retornaram a uma redação sem vários computadores e discos rígidos, que foram apreendidos pela polícia.

Os jornalistas trabalharam durante toda a noite para produzir a edição de sexta-feira.

E desta vez eles estavam cercados por repórteres de publicações rivais, que documentaram o que parecia um declínio na liberdade de imprensa na cidade, um centro com vários escritórios de meios de comunicação internacionais.

Os editores optaram por uma primeira página simples, com as fotos dos cinco diretores detidos e uma manchete que detalha a operação policial.

Abaixo do título, em letras amarelas, escreveram "Devemos seguir adiante", as palavras que Cheung expressou aos funcionários quando foi levado algemado.

O jornal preparou uma edição extraordinária de 500.000 exemplares, muito acima da circulação tradicional de 80.000 cópias, com a expectativa de que os moradores de Honh Kong estariam ansiosos de saber o que aconteceu na redação.

No distrito de Mongkok, dezenas de pessoas formaram fila para adquirir o jornal.

"Normalmente vendemos 60 cópias mas hoje vendemos 1.800", contou à AFP o dono de uma banca de jornais que preferiu não revelar o nome.

"Vendemos tudo. Havíamos solicitado 3.000 cópias e estamos esperando que cheguem as demais", completou.

Uma mulher de 40 anos, que se identificou apenas como Polly, disse que comprou 10 exemplares.

"Por muitos anos tivemos liberdade de imprensa e existia a possibilidade de falar qualquer coisa", disse à AFP.

"Mas em apenas um ano tudo mudou, piorou tanto e tudo acontece muito rapidamente", lamentou.

Outro comprador, Steven Chow, de 45 anos, levou três cópias.

"Não existe jornal perfeito, mas este (Apple Daily) é uma voz única em Hong Kong", declarou Chow.

"Eles podem não gostar, mas acho que deveriam deixá-los ter sua voz e sobreviver, é importante" acrescentou.

- Futuro incerto -Não está claro por quanto tempo o Apple Daily conseguirá sobreviver.

Seu proprietário, Lai, de 73 anos, cumpre atualmente várias condenações por sua participação nas manifestações pró-democracia de 2019.

Ele também foi acusado com base na lei de segurança nacional e as autoridades congelaram seus ativos em Hong Kong.

Além disso, 18 milhões de dólares de Hong Kong (US$ 2,3 milhões) de ativos da empresa Apple Daily também foram congelados.

Antes desta última decisão, o Apple Daily informou que tinha recursos suficientes para seguir com os trabalhos até o fim do ano.

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