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Reino Unido vive 'tempestade perfeita' que pode afetar recuperação econômica

28/09/2021 14h54

Londres, 28 Set 2021 (AFP) - Disparada nos preços de energia, escassez de trabalhadores, de caminhoneiros, mercadorias e agora gasolina. A economia do Reino Unido enfrenta uma série de crises que podem frear a recuperação das paralisações provocadas pela pandemia e afetar o período das festas de fim de ano.

- Logística -Os tradicionais pubs britânicos se queixam pela falta de determinadas marcas de cervejas, as lanchonetes da rede McDonald's estão sem milkshakes, a cadeia de restaurantes Nando's sem frango, e há falta de determinados produtos nos supermercados... os problemas de reabastecimento se acumulam há vários meses no Reino Unido.

Em grande parte, o desabastecimento é atribuído à escassez de caminhoneiros que afeta muitos países europeus, principalmente devido às duras condições de trabalho e aos salários pouco atrativos.

A pandemia também fez com que muitos caminhoneiros que imigraram retornassem para seus países de origem, e atrasou a expedição de milhares de carteiras de habilitação com o fechamento das autoescolas.

Para piorar ainda mais as coisas no Reino Unido, o Brexit agora obriga os caminhoneiros da Europa continental a solicitarem vistos de trabalho, um trâmite caro e complicado.

Apesar de o governo negar enfaticamente o impacto do Brexit, a associação setorial do transporte rodoviário, RHA, garante que esta é uma das principais causas do problema.

- Energia -Os problemas de fornecimento ganharam um contorno mais crítico na última semana, com uma escassez inicial de gasolina em alguns lugares do país.

A informação provocou pânico, fazendo com que as pessoas corressem aos postos para estocar combustíveis em todo o país.

Como resultado, na segunda-feira (27), a maioria dos postos ficaram sem o produto, provocando a ira de muitos motoristas frustrados, que passaram horas de espera nas inúmeras filas que se formaram.

Nesta terça-feira (28), os representantes das categorias de trabalhadores essenciais, como médicos e professores, pediram prioridade para o reabastecimento de seus veículos, caso contrário não conseguirão prestar os serviços básicos.

A isso também se soma a disparada dos preços do gás nos mercados mundiais, algo que afeta especialmente o Reino Unido, que depende muito mais do gás para a sua matriz energética do que outros países.

O aumento dos preços já provocou uma série de falências de pequenas distribuidoras de eletricidade e os consumidores e empresas do Reino Unido esperam um forte aumento de suas contas no inverno, que começa em dezembro no hemisfério norte.

O preço do gás também fez com que, indiretamente, algumas fábricas de produtos químicos tivessem que interromper o trabalho, entre elas o maior fornecedor de CO2 do país, utilizado em frigoríficos e nos sistemas de refrigeração, agravando ainda mais as dificuldades da indústria alimentícia, que também sofre com a escassez de mão de obra.

- Emprego -Além dos caminhoneiros, a escassez de trabalhadores afeta os setores agroalimentar, turístico, de restauração e distribuição.

Ao mesmo tempo, os subsídios públicos que mantiveram o mercado laboral vivo durante os períodos de confinamento provocados pela pandemia terminam em 30 de setembro, apesar de aproximadamente um milhão de pessoas ainda dependerem dos mesmos nestas últimas semanas.

Isso poderia provocar o aumento do desemprego, mas sem aliviar a escassez de mão de obra, dizem os economistas.

Diante dessa emergência, o governo de Boris Johnson aceitou modificar sua política migratória pós-Brexit e a conceder 10 mil vistos de três meses para caminhoneiros e trabalhadores do setor avícola. Contudo, os setores afetados temem que essas permissões sejam curtas demais.

- Inflação -Energia, matérias-primas, salários mais altos para tentar atrair os trabalhadores nos setores que carecem de mão de obra... as empresas enfrentam uma série de aumentos em seus custos, que depois são repassados aos consumidores.

Como resultado, a inflação registrou um crescimento recorde no Reino Unido nos últimos 12 meses até agosto, de 3,2%, o maior desde 2012.

Além disso, o Banco de Inglaterra prevê um "leve" aumento da inflação no Reino Unido, para algo em torno de 4%, no quarto trimestre, o dobro de sua meta.

No entanto, a instituição monetária insiste que o aumento será apenas temporário e não requer um rápido aumento das taxas básicas de juros, para não cortar a recuperação econômica pela raiz.

Para Jonathan Portes, professor de economia da faculdade Kings College, as nuvens carregadas que pairam sobre a economia britânica não deverão ser um lastro duradouro para a recuperação, mas vão desacelerá-la.

Após resistir bem nos últimos meses, a libra começou a perder força frente ao dólar nesta terça-feira (28).

ved/acc/erl/rpr

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