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Denunciante do Facebook pede regulamentação da empresa a legisladores dos EUA

05/10/2021 19h16

Washington, 5 Out 2021 (AFP) - Uma denunciante do Facebook sustentou perante legisladores dos Estados Unidos nesta terça-feira (5) que a gigante das redes sociais alimenta a divisão, prejudica as crianças e precisa ser regulamentada com urgência, levando membros do Congresso a se comprometer a adotar medidas longamente adiadas.

Frances Haugen, ex-funcionária do Facebook, depôs no Capitólio depois de ter vazado para as autoridades e ao jornal The Wall Street Journal um enorme arquivo de investigações internas do Facebook que alimentou uma das crises mais graves da empresa.

"Acho que os produtos do Facebook prejudicam as crianças, atiçam a divisão e fragilizam a nossa democracia", destacou. "É necessário que o Congresso aja. Esta crise não será resolvida sem sua ajuda".

Em seu depoimento, Haugen destacou o risco do poder nas mãos de um serviço que se tornou necessário no cotidiano de tantas pessoas.

Também apontou os riscos de que as plataformas do gigante das redes sociais estejam alimentando uma epidemia particularmente perigosa de distúrbios alimentares, vergonha corporal e insatisfação pessoal nos mais jovens.

"Haverá mulheres caminhando neste planeta em 60 anos com ossos frágeis por causa das decisões que o Facebook tomou enfatizando os lucros hoje", previu ela, referindo-se ao impacto dos transtornos alimentares.

"A empresa oculta intencionalmente informação vital aos usuários, ao governo dos Estados Unidos e aos governos de todo o mundo", disse Haugen. "A gravidade desta crise exige que deixemos nossos marcos normativos anteriores".

Haugen falou perante os senadores um dia depois de o Facebook, seu aplicativo para compartilhamento de fotos Instagram e o serviço de mensagens instantâneas, WhatsApp, ficarem fora do ar por aproximadamente sete horas, afetando "bilhões de usuários", segundo o rastreador Downdetector.

- Um verdadeiro ponto de virada? -"Esta é minha mensagem para (o diretor executivo do Facebook) Mark Zuckerberg. O seu tempo de invadir nossa privacidade, promover conteúdo tóxico e se aproveitar de crianças e adolescentes acabou", disse o senador Ed Markey.

"O Congresso tomará medidas (...) Não permitiremos que a sua empresa continue prejudicando nossas crianças, nossas famílias e nossa democracia", acrescentou.

A senadora Amy Klobuchar considerou que as revelações da denunciante representam o empurrão de que o Congresso precisava há tempos para agir.

"Chegou o momento de agir e acho que você é o catalisador desta ação", afirmou, dirigindo-se a Haugen.

Os legisladores americanos ameaçam há anos regulamentar o negócio do Facebook e de outras plataformas para fazer frente às críticas de que as gigantes da tecnologia invadem a privacidade, servem de megafone para a perigosa desinformação e prejudicam o bem-estar dos jovens.

O Facebook repudiou veementemente os artigos do Wall Street Journal, respaldados por volumosos estudos internos que Haugen vazou. E nesta terça, a empresa se opôs firmemente a seu depoimento.

Haugen "não trabalhou na segurança das crianças, nem no Instagram, nem pesquisou estes temas e não tem conhecimento direto do tema por seu trabalho no Facebook", tuitou Andy Stone, porta-voz da companhia.

Um comunicado do Facebook a descreveu como "uma ex-gerente de produto que trabalhou na empresa por menos de dois anos, não tinha subordinados diretos, nunca compareceu a uma reunião de decisões com executivos de nível C".

"Não concordamos com sua caracterização das muitas questões sobre as quais testemunhou", afirmou a nota de Lena Pietsch, diretora de política de comunicações.

"Passaram-se 25 anos desde que as regras da internet foram atualizadas (...) É hora de o Congresso agir", disse, ecoando a posição anterior do Facebook de que a regulamentação é uma responsabilidade dos legisladores, não das empresas.

Especialistas não sabem ao certo se as revelações no depoimento de Haugen servirão para dar fim a anos de disputas polarizadas sobre o tema.

"É possível, mas não garantido, que a audiência de hoje marque um verdadeiro ponto de virada", avaliou Paul Barrett, subdiretor do Centro Stern de Negócios e Direitos Humanos da Universidade de Nova York.

- "Adoro o Instagram" -Haugen, uma engenheira da informação de 37 anos, nascida em Iowa, trabalhou por empresas como Google e Pinterest, mas - em entrevista no domingo ao programa de notícias "60 Minutes", da emissora CBS - assegurou que o Facebook era "substancialmente pior" do que tudo o que tinha visto.

O vice-presidente de política e assuntos globais do Facebook, Nick Clegg, rebateu com veemência a afirmação de que suas plataformas são "tóxicas" para os adolescentes, dias depois de uma tensa audiência de várias horas no Congresso, na qual os legisladores interrogaram a empresa sobre seu impacto na saúde mental dos jovens usuários.

Na última hora de segunda-feira, o Facebook atribuiu o apagão a mudanças de configuração feitas nos roteadores que coordenam o tráfego da rede entre seus centros de dados.

"Esta interrupção do tráfego da rede teve um efeito em cascata na forma como nossos centros de dados se comunicam, fazendo com que nossos serviços parassem", disse o vice-presidente de infraestrutura do Facebook, Santosh Janardhan, em uma postagem.

Além da interrupção dos serviços para pessoas, empresas e outros que dependem das ferramentas da companhia, o próprio Zuckerberg sofreu um duro impacto financeiro.

O rastreador web de bilionários da Fortune informou na última hora de segunda-feira que a fortuna pessoal de Zuckerberg diminuiu em quase 6 bilhões de dólares em relação ao dia anterior, situando-se em algo abaixo de 117 bilhões de dólares.

Algumas pessoas comemoraram que as ferramentas do Facebook tenham ficado fora do ar, mas outras se queixaram, afirmando que a interrupção lhes causou problemas profissionais e pessoais.

"Adoro o Instagram. É o aplicativo que mais uso, sobretudo no meu trabalho", disse à AFP Millie Donnelly, administradora de redes de uma organização sem fins lucrativos.

"Assim, profissionalmente é definitivamente um passo atrás. E depois pessoalmente, sempre estou no aplicativo".

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