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Após duas décadas persiste a impressão de que o euro provocou alta dos preços

29/12/2021 07h09

Paris, 29 dez 2021 (AFP) - "Com 100 marcos alemães você enchia o carrinho de compras. Agora, 100 euros não são suficientes para encher duas sacolas", afirma Maria Napolitano em Frankfurt. Assim como muitos europeus, a italiana ainda pensa que o euro provocou o aumento dos preços, embora as evidências mostrem o contrário.

"O euro é catastrófico", declara Napolitano.

A moeda única passou a ser usada há 20 anos. Victor Irun, um professor de 53 anos de Madri, disse que para os espanhóis a mudança para o euro foi "como entrar num clube de pessoas ricas sem ter as roupas adequadas".

"A sensação era de que ainda não estávamos preparados. "Era como se estivéssemos morando na Espanha, mas pagando com dinheiro francês ou holandês".

Na Alemanha, a moeda única chegou a ser chamada de "teuro", um jogo de palavras entre euro e "teuer", "caro" em alemão.

- Percepção e estatísticas -O professor universitário alemão Hans Wolfgang Brachinger mencionava em um estudo de 2006 o aumento do índice de "percepção" da alta de preços pelos cidadãos alemães, 7% entre 2001 e 2002 quando normalmente era 2%. Mas as estatísticas da época não mostram uma aceleração da inflação na Alemanha.

"Havia uma forte sensação de que os preços aumentaram, mas as estatísticas nos mostram o contrário", recorda Giovanni Mastrobuoni, professor de Economia da Universidade de Turim, autor de um estudo detalhado sobre o tema.

Para demonstrar sua declaração, ele compilou os preços de vários produtos do dia a dia da zona do euro: produtos baratos subiram de preço com a mudança da moeda por causa dos "arredondamentos" feitos pelos comerciantes, geralmente acima do preço antigo. E é neste tipo de produto que se concentra a indignação dos europeus.

Entre os produtos estão frutas e verduras, bebidas e refeições nos restaurantes e cafés, o pão... "Produtos que consumimos todos os dias, que embora não custem muito, criam a percepção porque são as transações mais comuns", explica Mastrobuoni.

Na França, o preço do café aumento de forma imprevista apenas entre o fim de 2001 e início de 2002, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas (INSEE), ao passar de 1,19 euro para 1,22.

- Queda de preços -O fenômeno aconteceu em maior medida nos países em que o setor de distribuição estava menos concentrado, segundo Mastrobuoni, pois os pequenos comerciantes tinham mais liberdade para aumentar os preços.

A alta "mecânica" com a mudança para o euro foi de entre 0,1% e 0,3%, calcula a Comissão Europeia.

Mas as estatísticas gerais da inflação não foram afetadas porque os produtos mais caros não subiram de preço. Alguns, inclusive, perderam valor pelo aumento da produtividade.

As 12 maiores economias da zona do euro registraram inflação média de 2,3% em 2001 e 2002, segundo a agência de estatísticas europeia Eurostat. E, apesar de alcançar 2,8% e 3,6% em 2001 e 2002, respectivamente, na Espanha, o índice permaneceu estável na maioria dos países, incluindo quedas na Bélgica, Alemanha, Luxemburgo e Holanda.

Para compreender a percepção desigual dos preços é importante estudar os "perfis" dos consumidores, afirma Pierre Jaillet, pesquisador do Instituto Europeu Jacques Delors: "A cesta básica do consumidor corresponde ao orçamento de uma família de classe média que mora em uma cidade. Há poucas oportunidades de que corresponda à maioria dos consumidores".

As faixas mais desfavorecidas, que gastam boa parte do salário para comprar alimentos, podem ter sentido que foram afetadas, indica Jaillet, que também explica que, de modo geral, os consumidores lembram mais dos aumentos de preços do que das reduções.

O economista belga Philippe Defeyt considera, que o forte aumento dos preços dos produtos relacionados ao petróleo e das frutas e verduras nos meses anteriores à entrada em vigor do euro (que não podem ser atribuídos à moeda única) contribuíram para criar a grande percepção negativa.

bur-alb/soe/grp/me/fp

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