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Constanta, o porto romeno que recebe os cereais ucranianos

05/05/2022 08h52

Constanta, Romênia, 5 Mai 2022 (AFP) - Como uma enorme tromba de elefante, o tubo atravessa o navio, derramando toneladas de milho: o Lady Dimine se prepara para zarpar de Constanta, um porto romeno no Mar Negro, que se tornou uma saída providencial para os produtos agrícolas ucranianos.

O navio graneleiro de mais de 160 metros de comprimento e capacidade para 26 mil toneladas é o segundo em cinco dias a atracar no cais número 80 para receber uma valiosa carga de grãos dourados do país vizinho, cujos portos estão bloqueados pelo invasor russo.

O que está em jogo é vital para os muitos países dependentes dessas exportações ucranianas, que antes da guerra exportava por mar 4,5 milhões de toneladas de produção agrícola por mês, ou 12% de trigo, 15% de milho e 50% de óleo de girassol em nível mundial.

O bloqueio é total, desde o Mar de Azov, fechado à navegação desde o início da guerra, até o porto ucraniano de Odessa, no Mar Negro, que em tempo normal representa 60% da atividade portuária do país.

- Solução alternativa -Entre as soluções, a Romênia aparece como a candidata ideal. Membro da OTAN, com águas protegidas, o país também é o segundo maior exportador de trigo da União Europeia, depois da França, e possui infraestrutura adequada.

"Um terceiro navio partirá em seis dias e esperamos acelerar o ritmo mais tarde", disse à AFP Viorel Panait, presidente executivo da Comvex, principal operadora de cereais em Constanta.

"Dada a infeliz situação de nossos vizinhos ucranianos, devemos ajudá-los de todas as maneiras que pudermos", acrescenta.

Mas antes de chegar ao porto, os cereais têm um longo caminho a percorrer. Eles são carregados em trens, caminhões ou barcaças nos pequenos portos do Danúbio de Reni e Izmail, localizados no extremo sudoeste da Ucrânia, na fronteira com a Romênia.

Para encher um navio de 70.000 toneladas como o que saiu de Constança na semana passada pela primeira vez, é preciso 49 trens ou o mesmo número de barcaças, detalha Panait. Ou milhares de caminhões, com o risco de criar um grande engarrafamento no labirinto de estradas que se cruzam em Constança.

Um "quebra-cabeça" para Florin Goidea, diretor do porto.

O governo encontrou uma solução: reabilitar 95 ferrovias que datam da era comunista e há anos bloqueadas por centenas de carros enferrujados.

"Este projeto de 200 milhões de lei (43 milhões de dólares) é muito importante porque vai liberar o tráfego rodoviário para o porto" e aumentará as reservas, destaca Goidea em seu escritório, com uma vista impressionante sobre a enseada, eriçada com guindastes, máquinas para carregamento de navios e outras estruturas metálicas.

"A guerra na Ucrânia é um desafio, mas também uma oportunidade", diz o diretor, que especifica que em 2021 este porto se tornou "o polo europeu de exportação de grãos, à frente de Le Havre", na França.

- "Risco de fome" -Cerca de 230 km ao norte, outro porto romeno também poderia se tornar uma alternativa para as exportações ucranianas, o de Galati, no Danúbio.

Está ligado à Moldávia por apenas 5 km de ferrovia, que tem a mesma largura que a usada na antiga URSS e seus satélites e, portanto, na Ucrânia.

A renovação desta linha permitirá a sua utilização para o transporte de mercadorias e produtos agrícolas.

Mas para que sejam acessíveis, o transporte deve ser rápido e barato, explica o presidente da Comvex.

"Devemos garantir que cheguem rapidamente à mesa dos consumidores, para evitar o risco de fome", diz.

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