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Hong Kong se tornou menos livre e mais desigual durante mandato de Carrie Lam

05/05/2022 08h28

Hong Kong, 5 Mai 2022 (AFP) - Hong Kong se tornou uma cidade mais desigual, menos livre e sem brilho internacional após cinco anos de liderança de Carrie Lam, cujo mandato foi marcado por protestos pró-democracia e pela covid, segundo analistas.

No próximo domingo, John Lee, ex-chefe de segurança da cidade, será confirmado como o próximo chefe executivo de Hong Kong por um comitê seleto de 1.463 pessoas.

Lam, que deixará o cargo no final de junho, foi a primeira mulher a liderar Hong Kong, e assumiu o cargo prometendo curar divisões e resolver problemas de qualidade de vida, especialmente a persistente crise habitacional.

Mas seu mandato foi dominado por grandes protestos pró-democracia e uma subsequente repressão por parte de Pequim, seguida pela pandemia de coronavírus e pela implementação de uma estratégia de covid zero que isolou esse centro financeiro internacional.

De fato, Lam deixará o cargo com os piores índices de qualquer líder desde a entrega à China da ex-colônia britânica.

- Pobreza -Seu governo sobreviveu aos protestos em massa de 2019, mas é visto por muitos como incapaz de entregar as melhorias sociais prometidas que, mesmo de acordo com o poder comunista, estão no centro dos "conflitos arraigados" da cidade.

No ano passado, 1,65 milhão de habitantes de Hong Kong (quase um quarto da população) vivia abaixo da linha da pobreza do governo, fixada em cerca de US$ 560 por mês, um valor que representa um terço do aluguel de um apartamento de 40 m2 na zona mais barata da cidade.

A pobreza não atingiu esses níveis desde que essas estatísticas começaram a ser compiladas há 12 anos.

"A base tem sido muito negligenciada", diz Sze Lai-shan, vice-diretor da ONG Society for Community Organization.

"Às vezes parece que (o governo) vive em um planeta diferente".

Mesmo os pró-governo expressam decepção.

"Pode-se dizer que (Lam) trabalhou muito, mas conseguiu pouco para resolver os problemas de qualidade de vida que estão se deteriorando", disse à AFP Lau Siu-kai, assessor de Pequim nesta cidade.

Em julho passado, o encarregado do governo chinês para assuntos de Hong Kong, Xia Baolong, fez um discurso demonstrando a impaciência de Pequim com a crise habitacional, uma questão que ainda não foi resolvida desde a devolução de 1997.

A cidade deve "dizer adeus" aos quartos minúsculos em apartamentos compartilhados onde vivem cerca de 220.000 pessoas, disse Xia.

Hong Kong é o mercado imobiliário mais caro do mundo há anos, com um preço médio dos imóveis 23 vezes mais altos do que a renda familiar média, de acordo com um estudo deste ano.

Embora Lam tenha aumentado as moradias populares, a demanda cresceu ainda mais e a lista de espera por essas casas chegou a seis anos.

- Êxodo -Os últimos dois anos do mandato de Lam viram um êxodo histórico de moradores fugindo da repressão política ou das restrições da pandemia, que estão entre as mais duras do mundo.

As saídas foram acentuadas este ano quando a variante ômicron causou um forte surto com mais de 9.000 mortes, a maioria idosos não vacinados.

Um total de 160.000 pessoas deixaram Hong Kong no primeiro trimestre do ano, marcado por um endurecimento das restrições sanitárias e temores de isolamento e separação de famílias se algum membro testar positivo.

Lam reconheceu recentemente que essas medidas causaram um êxodo de talentos importantes nas muitas empresas estrangeiras da cidade.

Além disso, muitos moradores optaram por deixar a cidade com medo dos esforços de Pequim para conter as liberdades que deu a esta cidade na devolução de 1997.

Depois dos protestos de 2019, a China impôs uma lei de segurança nacional que criminalizou a dissidência e permitiu a prisão de 182 pessoas.

A maioria dos líderes pró-democracia de Hong Kong está na prisão ou foi para o exílio.

No relatório anual de liberdade de imprensa da Repórteres Sem Fronteiras (RSF) divulgado esta semana, Hong Kong caiu de 80º para 148º.

Frances Hui, uma dissidente exilada nos Estados Unidos, descreve Lam como "uma capanga obediente" na agenda do presidente chinês Xi Jinping.

"Ela acelerou a supressão das liberdades", disse à AFP.

A diáspora de Hong Kong está crescendo progressivamente em lugares como o Reino Unido, Canadá e Estados Unidos.

"Eu não esperava que participar do ativismo me levasse a buscar asilo", comentou Hui. "Isso mostra o quão baixo Hong Kong caiu", completou.

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