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Como a Irlanda conseguiu o surpreendente crescimento de 26% em 2015

O Escritório Central de Estatísticas da Irlanda (conhecido pela sigla CSO) causou polêmica entre os analistas econômicos de todo o mundo nos últimos dias ao anunciar que a taxa de crescimento do país em 2015 foi de 26,3%.

Trata-se de uma cifra recorde, que supera em mais de 150% o aumento registrado pela Etiópia (10,3%), primeira colocada no ranking de crescimento de 2015 do FMI (Fundo Monetário Internacional).

Muitos economistas criticaram os novos dados do PIB irlandês, dizendo que eles não refletem o estado real da economia do país.

O prêmio Nobel de Economia americano Paul Krugman qualificou a estimativa como "economia dos duendes". O jornal "Financial Times" disse que o cálculo era comparável a obras de romancistas como James Joyce e Flann O'Brien.

"Essa é basicamente uma cifra ridícula. Se estivesse certa, significaria que a Irlanda estaria crescendo a uma taxa três vezes maior que as de economias pobres e pequenas, que usualmente encabeçam a lista dos países que mais crescem (porque é muito mais fácil crescer quando o ponto de partida é mais baixo)", escreveu o analista Matt Phillips no site de notícias "Quartz".

O CSO, por sua vez, emitiu um comunicado no qual afirma que a cifra é precisa e está de acordo com as normas de medição internacional.

Então, o que aconteceu?

Impostos e investimento estrangeiro

A taxa de 26,3%, na realidade, é uma atualização de um dado publicado anteriormente, segundo o qual o PIB irlandês havia crescido 7,8%.

Segundo a CSO, o novo número reflete um processo de reestruturação corporativa que aumentou de forma dramática a quantidade de ativos do país.

Segundo analistas, por trás desse aumento de ativos estão operações de grandes empresas transnacionais que estão se fundindo com companhias locais na Irlanda com o objetivo de se beneficiar da taxa de impostos corporativos do país: 12,5%, a mais baixa para um país desenvolvido.

A CSO parece ter reconhecido o impacto das empresas estrangeiras nas novas cifras do PIB, ao afirmar em um comunicado que elas "retratam com precisão e sublinham a natureza aberta e globalizada da economia irlandesa".

O analista George Hay afirma que esse impacto é evidente quando se comparam as cifras do Produto Interno Bruto, que mede o tamanho de toda a economia, e o Produto Nacional Bruto, que considera apenas os resultados de bens e serviços produzidos no país - e desconsidera as remessas enviadas ao ou recebidas do exterior.

"O PIB irlandês é de 256 bilhões de euros, mas o PNB é de 203 bilhões de euros. A grande diferença reflete os ganhos que pertencem a companhias estrangeiras e não a cidadãos estrangeiros", escreveu Hay em uma análise para a agência de notícias Reuters.

Mas, por enquanto é impossível saber com precisão quais foram as companhias estrangeiras responsáveis pelas operações que terminaram dando impulso ao PIB irlandês. O CSO decidiu não divulgar essa informação para "proteger a confidencialidade das empresas contribuintes", uma obrigação estabelecida na legislação da Irlanda.

Segundo dados da Câmera de Comércio dos Estados Unidos - Irlanda, há cerca de 700 companhias americanas operando na Irlanda. Entre elas, estão megaempresas como Intel, Dell, Google, Hewlett Packard, Facebook, Apple, Johnson e Johnson e Pfizer.

A Pfizer anunciou em novembro que se fundiria com a empresa Allergan e mudaria sua sede para a Irlanda, um acordo que permitiria a ela reduzir sua taxa atual de impostos corporativos de 25% a 17% ou 18%, segundo informou o "Washington Post".

As cifras da economia real

Diante das críticas e da confusão criada pela divulgação do novo dado de crescimento do PIB em 2015, a CSO emitiu um comunicado em que assinala que, devido ao fato da economia da Irlanda estar altamente globalizada, "o PIB e o PNB nem sempre ajudam a entender o que ocorre na economia irlandesa".

Por isso, recomendou observar outras variáveis de 2015, como o consumo pessoal de bens e serviços (que cresceu 4,5%), a taxa de novos empregos (que aumentou 2,6%) ou as vendas totais do varejo (que cresceram 8,2%).

Além disso, o órgão anunciou a criação de um grupo de trabalho para buscar fórmulas de melhorar a compreensão da verdadeira situação da economia do país, incluindo a possibilidade de desenvolver novos indicadores e de melhorar ou ampliar os existentes.

Mais dinheiro para a União Europeia

O aumento das cifras oficiais de crescimento do PIB traz algumas vantagens adicionais para a Irlanda como, por exemplo, a diminuição do deficit fiscal e da dívida do país quando eles são calculados como porcentagem do PIB --duas medidas padrão para avaliar a situação econômica de um país.

Contudo, também traz alguns problemas como o aumento das contribuições que a Irlanda tem de pagar para o orçamento da União Europeia, pois elas são determinadas pelo tamanho do PIB de cada país.

Por outro lado, essas operações de empresas estrangeiras que se mudam para a Irlanda por razões fiscais inflam artificialmente o tamanho da economia.

Segundo explicou o ministro das finanças da Irlanda, Michael Noonan, em uma declaração publicada na agência de notícias Bloomberg, desde 2008 esse tipo de investimentos representou cerca de 7 bilhões de euros, mas sem que isso viesse acompanhado de algum tipo de substância ou criação de emprego.

Em 1994, Kevin Gardiner, então analista da Morgan Stanley, criou o termo "tigre celta" para antecipar o impressionante crescimento que experimentaria a economia da Irlanda durante os anos seguintes - quando, efetivamente, cresceu a um ritmo médio de 9,4% entre os anos de 1995 e 2000.

Mas desta vez, afirmou o analista Matt Philips, parece que o "tigre celta" seria um "tigre de papel".

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