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Por que o maior empreendimento de Trump no Brasil encalhou?

Joao Fellet - BBC Brasil

Quase quatro anos após ser lançado com estardalhaço, o maior empreendimento imobiliário anunciado no Brasil, com a marca do empresário e candidato à Presidência dos EUA Donald Trump, ainda nem começou a sair do papel - e já é alvo de críticas de arquitetos e urbanistas no Rio de Janeiro.

Enquanto isso, em outra ponta da cidade, operários correm para entregar antes da Olimpíada o primeiro hotel de Trump no país, que pode eventualmente abrigar um cassino.

Com cinco edifícios de 38 andares e localizado na zona portuária do Rio de Janeiro, o complexo Trump Towers Rio será, segundo seus contrutores, o maior conjunto de escritórios de todos os membros dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Até agora, porém, o receio entre clientes e a crise econômica no país travaram a largada do projeto.

A BBC Brasil visitou a região que abrigaria as cinco torres na quarta-feira e não encontrou nenhum sinal da construção - nem mesmo placas ou tapumes. Alguns poucos moradores de rua e vendedores ambulantes transitavam pelas ruas vizinhas.

A maior parte do terreno (entre a avenida Francisco Bicalho e a rua General Luis Mendes de Morais) é ocupada por um prédio abandonado, mas também há no quarteirão algumas edificações, como uma ONG e a quadra da escola de samba Unidos da Tijuca.

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Funcionários da ONG e da escola de samba disseram que jamais foram informados oficialmente sobre a construção das torres e que pretendem continuar na área.

O trecho onde é prevista a construção dos edifícios integra um conjunto de terrenos na zona portuária comprados pela Caixa com recursos do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), num arranjo mediado pela prefeitura do Rio para revitalizar a região, rebatizada de Porto Maravilha. A Caixa negocia a ocupação dos terrenos com a prefeitura e construtoras.

Integram o consórcio das Trump Towers seis construtoras e imobiliárias, entre as quais a búlgara MRP, a espanhola Salamanca e a brasileira Even. As companhias compraram da Trump Organization, presidida por Donald Trump, os direitos para o uso da marca do empresário, esperando com isso atrair mais clientes.

'Área mais nobre'

Em seu site, a Trump Organization cita as Trump Towers Rio entre seus edifícios no exterior. O trecho que trata do complexo, no entanto, está desatualizado: diz que a construção das duas primeiras torres começaria em 2015 e terminaria em 2018.

Segundo o site, as torres ficam na "área mais nobre do Porto Maravilha", serão vendidas a investidores de longo prazo e terão seus escritórios alugados por grandes empresas brasileiras e multinacionais.

Não é a primeira vez que se frustram os planos para o início da obra. Em 2013, o presidente das Trump Towers Rio, Stefan Ivanon, disse ao jornal The Wall Street Journal que queria entregar as duas primeiras torres em 2016.

Questionado nesta semana pela BBC Brasil sobre o atraso, ele afirmou por e-mail que "ainda estamos no processo de trabalhar os planos detalhados de arquitetura e engenharia" e não quis citar datas para o início da obra.

Mas o responsável pela parte arquitetônica das Trump Towers, o escritório brasileiro Aflalo & Gasperini, disse à BBC Brasil que o projeto "está parado no que diz respeito ao nosso trabalho".

A Trump Organization não comentou o atraso nas obras.

Projeto

Para Leonardo Schneider, vice-presidente do Secovi (sindicato da habitação) no Rio, o empreendimento foi golpeado pela crise econômica brasileira, que esfriou o mercado imobiliário no Rio e encareceu os empréstimos bancários.

Ele também diz que as construtoras ainda estão receosas de investir na zona portuária, uma região nova para grandes edifícios, e que a reocupação do espaço deve levar vários anos.

Vizinha ao centro do Rio, a área passou várias décadas praticamente abandonada pelo poder público, processo que se acelerou com a transferência de várias operações do porto para a região do Caju e o esvaziamento de vários galpões e armazéns a partir dos anos 1950.

Em 2009, uma lei municipal criou a Operação Porto Maravilha para estimular a reforma e ocupação da região, mas poucos edifícios foram construídos ali desde então, e mesmo os prédios lançados estão com baixa ocupação, segundo Schneider.

Ele afirma, aliás, que a fraca demanda do mercado fez com que o consórcio das Trump Towers passasse a planejar a construção de uma só torre na primeira fase do empreendimento, segundo o último projeto a que teve acesso. As construtoras não confirmam a mudança nos planos.

Para Schneider, quando concluídas, as Trump Towers serão "uma referência" para a região e ajudarão a valorizar a vizinhança.

Já o arquiteto Pedro da Luz Moreira, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil no Rio, criticou o projeto à BBC Brasil.

Segundo ele, as torres reproduziriam um modelo de construção inadequado ao Rio, por serem muito altas (38 andares) e revestidas de vidro.

Moreira afirma que o relevo e a exuberância da cidade requerem construções mais baixas, que não bloqueiem a visão, e que fachadas de vidro geram muito calor dentro e fora do edifício, sobrecarregando sistemas de ar-condicionado.

Para o arquiteto, a revitalização do Porto Maravilha está privilegiando a construção de prédios comerciais, embora no Rio haja um déficit maior por moradias.

Ele defende que a região abrigue conjuntos habitacionais para moradores de todas as classes sociais, argumentando que "a cidade mais segura é essa em que há proximidade entre estratos de renda diferenciados".

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Hotel de luxo

Se a construção das torres na zona portuária ainda parece distante, em outro ponto do Rio a primeira obra de Trump no Brasil está perto de ser inaugurada.

Erguido na avenida Lúcio Costa, que margeia a praia da Barra da Tijuca, o Trump Rio de Janeiro Hotel terá diárias entre R$ 826 e R$ 936 e abrirá para a Olimpíada, segundo o empresário Paulo Figueiredo Filho, um dos sócios do negócio.

Diferentemente das Trump Towers na zona portuária, o hotel será administrado pela Trump Organization.

Neto do general João Figueiredo, último presidente da ditadura militar, o empresário afirma à BBC Brasil que tem sido procurado por investidores interessados em transformar parte do hotel num cassino, caso os jogos de azar sejam legalizados no Brasil. Um projeto de lei que trata do tema tramita no Congresso.

"Ninguém mais em sã consciência pode ser contra (a legalização dos cassinos) no momento em que o país vive", argumenta. "O perfil dos cassinos mudou, hoje são centros de entretenimento explorados por megacorporações internacionais."

Figueiredo diz que tratou ao longo da construção do hotel com os três filhos de Trump - Ivanka, Donald Jr. e Eric -, que praticamente assumiram os negócios imobiliários do pai à medida que este passou a se dedicar mais à política e à promoção de seus campos de golfe.

"O Eric, com quem me dou muito bem, cuida mais da parte da construção; a Ivanka, do design; e o Donald Jr., da parte empresarial. É uma família que se completa muito bem", ele diz.

Os três filhos discursaram da convenção do Partido Republicano que oficializou a candidatura de Trump, na semana passada, e têm aconselhado o pai na campanha eleitoral.

Segundo Figueiredo, a família sempre se mostrou aberta a outras parcerias para negócios no Brasil. Ele diz que quer construir algo em São Paulo, mas que a crise econômica tornou o Brasil "um mercado inóspito nos últimos dois anos".

"Agora o país está virando, já sentimos muita diferença, mas ainda estamos olhando as oportunidades."

Figueiredo diz acreditar que, mesmo que vença a eleição, Trump e seus filhos continuarão a tocar as empresas da família. Ele diz torcer para que o empresário se torne presidente e critica a adversária de Trump, a democrata Hillary Clinton. "Acho que o mundo não quer que ela vença", afirma.

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