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Anúncio de Trump de que os EUA vão deixar a Parceria Transpacífico é grande notícia para a China

Um dos planos do presidente eleito dos EUA, Donald Trump, para seus primeiros 100 dias na Casa Branca pode abrir caminho para a China tentar se impor como liderança na Ásia e no Pacífico, defendendo acordos de livre comércio.

Trump apareceu em vídeo na segunda-feira (21) anunciando que, sob o seu comando, os Estados Unidos vão deixar a Parceria Transpacífico (TPP, na sigla em inglês). Segundo afirmou o republicano, em vez de negociações em blocos, sua gestão vai priorizar acordos bilaterais.

O tratado, cujos termos finais foram costurados durante cinco anos pela administração de Barack Obama, era visto como uma forma de os EUA se posicionarem como líderes na Ásia e no Pacífico.

A China não foi incluída no acordo, firmado em fevereiro deste ano por 12 países que, juntos, respondem por 40% da economia mundial.

Como a TPP ainda não foi ratificada, a notícia de que Trump pretende tirar seu país da parceria, que considera "um desastre em potencial", é excelente para a China.

O país asiático está empenhado em colocar em vigor outros acordos comerciais, em especial a chamada Parceria Abrangente Econômica. Encabeçada pela China, a iniciativa exclui os EUA de parcerias pensadas para, essencialmente, cortar tarifas de negócios firmados pelos futuros signatários.

O duelo travado entre americanos e chineses não se limita a uma disputa comercial. Para Pequim, a TPP era um plano dissimulado dos EUA para conter o crescente poder da China.

No fim de semana, a agência oficial de notícias chinesa descreveu a TPP como "o braço econômico da estratégia geopolítica do governo Obama para garantir que Washington seja supremo na região".

A TPP era, de fato, encarada como uma parte essencial da estratégia da administração Obama para a Ásia.

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Ash Carter, já declarou que, além de impulsionar as exportações dos EUA, o tratado fortaleceria as relações fundamentais de Washington na Ásia e no Pacífico, sinalizando o compromisso do país com a região e promovendo valores americanos.

"Passar a TPP é tão importante para mim quanto ter outro porta-aviões", afirmou Carter.

Trump, contudo, prometeu que pretende deixar a TPP logo em seu primeiro dia como presidente, um compromisso de campanha que lhe rendeu votos entre os que hostilizam acordos comerciais e as consequências da globalização.

À espera da noiva

Se cumprir o compromisso, o republicano vai contrariar uma promessa feita por Obama, que passou anos tentando conseguir assinaturas de aliados assegurando que seguiria à risca todos as cláusulas listadas para a TPP.

Tudo indica que Pequim vai agora incentivar outros governos asiáticos a compararem a confiabilidade dos compromissos assumidos por chineses e americanos.

É esperado que se reforce a ideia de que os Estados Unidos se aproximam da Ásia somente em momentos que os interessam - e que a China é o poder que permanece ali.

Durante visita a Washington em agosto, o primeiro-ministro cingapuriano Lee Hsien Loong advertiu, sem rodeios, que a TPP coloca a "reputação da América" ??em jogo entre os parceiros na Ásia.

"Cada um [dos signatários] superou alguma objeção política doméstica, alguma sensibilidade, algum custo político para chegar à mesa e fazer este acordo", explicou Lee Hsien Loong.

"Se no final, esperando no altar, a noiva não chega, eu acho que as pessoas vão se sentir feridas."

Por ora, os diplomatas dos EUA não podem investir nos dois cenários na Ásia. Depois de dizerem aos parceiros que a TPP fortaleceria a presença do país na região, o oposto pode se materializar caso Trump cumpra a promessa.

Ou seja: deixar a parceria pode ser capaz de minar a liderança dos EUA. E a China está pronta para se mover nesse vácuo prestes a se abrir.

Durante encontro da cúpula da Associação de Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico (APEC), que aconteceu no último fim de semana no Peru, o presidente chinês, Xi Jinping, disse a outros líderes regionais que era hora de firmar parcerias fortes em busca de iniciativas estratégicas e soluções em que todos saiam ganhando.

'Um cinturão, uma estrada'

A China tem sinalizado que não quer se fechar ao mundo. Ao contrário, tem feito esforços para colocar na mesa acordos comerciais.

Representantes do governo chinês que viajam com o presidente Jinping têm oferecido parcerias menos ambiciosas que a TPP, mas que envolvem necessariamente Pequim como parceiro.

Entre as propostas estão a Associação Econômica Integral Regional (RCEP, na sigla em inglês) e a Área de Livre Comércio da Ásia e do Pacífico (FTAAP).

Todos esses movimentos fazem parte da estratégia chinesa batizada de "um cinturão, uma estrada". O cinturão se refere à rota terrestre que liga Ásia Central, Rússia e Europa. A estrada, por sua vez, é uma referência a uma rota marítima pelo oeste do Pacífico e oceano Índico.

Trata-se de um plano ambicioso de bilhões de dólares com o qual a China pretende expandir os seus investimentos, exportações e influência em toda a Ásia.

Com esse objetivo, o país já propôs, entre outras iniciativas, a criação de instituições financeiras como o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura.

Mais incerteza

A retirada dos EUA da TPP beneficia o interesse estratégico da China e, ao mesmo tempo, aumenta o cenário de incerteza em relação à administração de Donald Trump e o impacto do governo do presidente eleito no resto do mundo.

Não está claro como os EUA vão, a partir do próximo ano, colocar os interesses da América em primeiro lugar como declarou reiteradas vezes Trump durante a campanha.

Há dúvidas se vão continuar negociando acordos baseados em regras mais inclusivas e equilibradas para todos os signatários ou se os EUA estão dispostos a trocar compromissos de cooperação internacional já firmados por medidas em que prevaleçam o interesse nacional em relação à concorrência.

Os aliados dos EUA na Ásia agora aguardam com ainda mais desconforto e incerteza os pronunciamentos de Trump em relação às medidas para questões de segurança.

Paira a dúvida se ainda podem contar com os americanos caso se sintam intimidados ou ameaçados por uma China em ascensão.

E muitas das incertezas também vêm do que Trump não falou.

Ao apresentar os planos para seus primeiros dias no cargo, por exemplo, o presidente eleito dos EUA anunciou que pretende acabar com a TPP, mas não fez declarações anti-China, como as que repetiu em toda a campanha.

Ainda quando pedia votos, ele acusou o país asiático de manipular o câmbio e prometeu atacar a produção chinesa com tarifas punitivas.

Por isso, o recente silêncio de Trump sobre isso e o anúncio de que os EUA realmente vão deixar a Parceria Transpacífico podem ser encarados como uma grande notícia para a China em seu projeto de tentar se reposicionar como líder mundial. 

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